Primoroso livro infantil criado por pernambucano mostra ao Brasil a riqueza da cultura nordestina
Adriana Dória
Matos Da equipe do DIARIO
Sebastiana e Severina (Difusão Cultural do Livro, DCL, 42 pp., R$ 22,00) são rendeiras prendadíssimas. A renda que elas produzem é considerada disparado a melhor de São Sebastião de Umbuzeiro, cidadezinha do interior da Paraíba. Mas as amigas vão conhecer a intriga e destruir a amizade antiga quando aparecer por ali o forasteiro Chico, por quem vão disputar a paixão. A amizade será reconquistada, mas às custas de experiências amargas e bem ao estilo das pelejas dos cantadores nordestinos.
A historinha tão bem tramada da moças rendeiras foi escrita e ilustrada por André Neves, que deixou o Recife há seis anos para realizar o sonho de tornar-se autor de literatura infantil. Vem conseguindo. Primeiro passou uma temporada em São Paulo, onde trabalhou como ilustrador de livros de outros autores e também publicou os de sua autoria.
Há três anos, André migrou para Porto Alegre e já tem um conjunto razoável de sonhos realizados, como os livrinhos de temática também nordestina Seca e Mestre Vitalino (ambos pelaPaulinas), Poesias dão nomes ou nomes dão poesias (Ave Maria) e A caligrafia de Dona Sofia (Elementar). O próximo título lançado por ele será Maria Mole (Paulus).
"O Sebastiana e Severina inicia uma trilogia que estou desenvolvendo sobre tradição oral no Brasil", afirma André, acrescentando que quis começá-la focando a cultura de sua região. Este livrinho é tão caprichado nas ilustrações que elas foram selecionadas para participar da italiana XX Mostra Internazionale d'Illustrazione per l'Infanzia Stepan Zavrel. "Quero que a ilustração seja artística e não apenas um desenho para o texto".
André tem razão no que diz. O trabalho que fez para Sebastiana e Severina, construído com desenho, pintura e colagem dá gosto de ver. Ele utiliza o papel artesanal, tecido, cores à vontade e, claro, vários tipos de renda. O próximo título, que deverá ficar pronto no ano que vem, pois anda em fase de pesquisa, será o Maria Peçonha e focará a cultura popular do Rio Grande do Sul, especificamente aquela que se dá na cidadede Alegrete.
Quanto ao terceiro e último título da trilogia, ainda é uma idéia geral, mas deverá tratar da Amazônia. "Para mim, o que há de mais profundo na cultura brasileira está localizado nestas regiões: Norte, Nordeste e Sul".
Mas tem um outro projeto em que André Neves tem trabalhando com entusiasmo. Na ilustração para três peças infantis que o dramaturgo pernambucano Luiz Felipe Botelho publicará pela Paulinas. "É muito bem-vinda a inserção de textos teatrais entre os títulos voltados para as crianças. Temos ótima prosa, excelente poesia e o mesmo se pode dizer sobre o teatro, que será uma ferramanta excelente para o uso em sala de aula".
E quanto a isso, há de se fazer mais um elogio à edição de Sebastiana e Severina. Nele vem encartado o material de apoio didático que quase sempre acompanha livros infanto-juvenis que poderão ser usados em sala de aula. No formato de livro de cordel, foi preparado pela escritora Fátima Miguez, com propostas de exercícios, complementados com desenhos em preto-e-branco de André. "Quis que todo o produto fosse muito bonito, para que todo mundo tivesse vontade de participar e ler". E não é que ele conseguiu?