O dólar na estratosfera
Na última quinta-feira, o dólar comercial chegou a ser vendido por R$ 4. Um número que demonstra não só a atual fragilidade do real, mas também o elevado grau de especulação do mercado financeiro. Trata-se de valor descolado da realidade econômica do País que, de fato, não é boa, mas está longe de ser desesperadora. Basta lembrar que um dólar vale 3,68 pesos na Argentina, país que luta para reconstruir sua economia.
A especulação garante bons lucros para grandes investidores, eleva a dívida pública e afeta a população diretamente. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 5,6% entre janeiro e setembro. Ultrapassou, portanto, o teto da meta para todo este ano, que é de 5,5%. A população de baixa renda é atingida em cheio. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor, que mede a inflação dos consumidores com renda de até oito salários mínimos, foi de 0,83% em setembro - índice superior ao do IPCA, (40 salários) do mesmo mês, 0,72%.
O Banco Central não pode se omitir nummomento desses, mas tem que agir responsavelmente. Recentemente elevou a proporção de capital que os bancos precisam para comprar dólares. Tem negado rolar dívidas vinculadas ao dólar quando os investidores exigem juros altos demais. Muitos especuladores estão se aproveitando das incertezas provocadas pela eleição presidencial para abater o valor do real.
É o valor da moeda que, em última instância, precisa ser preservado, pois foi a maior conquista do Brasil nos últimos dez anos. Portanto, é admissível que algumas batalhas sejam perdidas, mas o objetivo final de manter a inflação baixa e o país administrável não pode ser perdido.
Uma das formas de combater a alta do dólar é fabricar aqui produtos e equipamentos que nossos empresários têm de comprar no Exterior. Dessa forma, o gasto de dólares é reduzido e ainda se criam empregos no País. Informação divulgada pelo IBGE na terça-feira confirma que há um processo de substituição de importações no setor de máquinas e equipamentos. Prova disso são as comprasde bens de capital no Exterior, que têm caído num ritmo muito mais intenso do que a produção interna dos mesmos bens.
As importações de máquinas e equipamentos caíram 19,2% de janeiro a agosto ante igual período de 2001, segundo a Secretaria de Comércio Exterior. Por seu lado, a produção de bens de capital teve queda de apenas 2,3% até agosto. Grande parte disso se deve, com certeza, à estagnação econômica. Mas, de toda forma, o fato demonstra que o Governo não está de braços cruzados. Ao mesmo tempo, deixa claro que é preciso criar mecanismos capazes de acelerar o processo.
O que Bush quer que esqueçamos
Robert Fisk
JORNALISTA
Bush falou na última segunda-feira a uma platéia em Cincinnati sobre "guerreiros nucleares". Esqueçamos por um instante que ainda não podemos provar que Saddam Hussein possui armas nucleares. Esqueçamos que, nesse discurso, tudo o que Bush fez foi cozinhar e reapresentar todos os "se", os "pode ser" e os "possivelmente" contidos nas alegações mal fundamentadas do historicamente desonesto dossiê de Tony Blair. Não. Temos de combater "guerreiros nucleares". É isso o que precisamos fazer para justificar toda a farsa que nos está sendo imposta pela Casa Branca.
Esqueçamos os 15 palestinos, incluindo uma criança de 12 anos, mortos por Israel poucas horas antes de Bush fazer seu discurso; esqueçamos que, quando aviões de Israel mataram nove crianças palestinas em julho, ao lado de um militante, o premier israelense, Ariel Sharon - "um homem de paz",segundo Bush -, descreveu o massacre como "um grande êxito". Esqueçamos, porque Israel está do nosso lado.
Lembre-se sempre de usar a palavra"terror". Use-a quando falar de Saddam Hussein, de Osama bin Laden, de Iasser Arafat ou de qualquer pessoa que se opõe a Israel ou aos EUA. Bush a usou em seu discurso, 30 vezes em meia hora. Uma vez por minuto.
Mas vejamos o que realmente devemos esquecer se quisermos apoiar toda essa loucura.
O mais importante é que precisamos esquecer que o presidente Reagan despachou um enviado para encontrar-se com Saddam em dezembro de 1983. É essencial esquecer isso por três motivos.
Em primeiro lugar, porque o terrível Saddam estava usando gás contra os próprios iranianos na época, e essa é uma das razões pelas quais agora querem que façamos guerra contra ele.
Em segundo lugar, porque o enviado foi ao Iraque para organizar a abertura da embaixada americana e obter relações melhores com o Açougueiro de Bagdá. Em terceiro lugar, porque o enviado era - surpresa! - Donald Rumsfeld. Talvez você ache estranho que Rumsfeld, durante as entrevistas coletivas em que se mostra tão disposto a bater papo, ainda não tenha conversado conosco sobre essa informação interessante. Seria de se esperar que ele pudesse querer esclarecer sobre a natureza malévola do criminoso com o qual trocou calorosos apertos de mão. Mas não.
Precisamos esquecer, também, que, em 1988, quando Saddam usou gás para destruir a população de Halabja, ao lado de dezenas de milhares de outros curdos - quando nas palavras dos senhores Bush, Cheney, Blair, Straw etc, "ele usou gás contra seu próprio povo" -, o presidente Bush, pai, lhe forneceu US$ 500 milhões em subsídios do governo americano para comprar produtos agrícolas dos EUA. Precisamos esquecer que, no ano seguinte, depois que o genocídio de Saddam se completou, o presidente Bush, pai, dobrou esse subsídio e o fez acompanhar por germes de antraz, helicópteros e os notórios materiais "de uso duplo", que podiam servir para fabricar armas químicas e biológicas.
E, quando Bush filho promete a população iraquiana "uma nova era de esperança"e democracia após a destruição de Saddam, devemos esquecer que os americanos prometeram ao Paquistão e ao Afeganistão uma nova era de esperança após a derrota soviética,em 1980 - e não fizeram nada.
Precisamos esquecer como o presidente Bush, pai, exortou os iraquianos a revoltar-se contra Saddam em 1991 - e, quando eles obedeceram, não fez nada. Devemos esquecer como a América prometeu à Somália uma nova era de esperança em 1993 e abandonou o país à míngua.
Precisamos esquecer como o Bush filho prometeu "ficar ao lado" do Afeganistão antes de dar início aos bombardeios, no ano passado - e agora deixou o país num caos econômico feito de barões das drogas, senhores de guerra, medo e anarquia. Ele se gabou de que a população do Afeganistão foi "liberada" - e isso depois de não ter conseguido capturar Bin Laden nem o mulá Omar e enquanto suas tropas no país sofrem ataques diários. Devemos esquecer, quando ouvimos falar da necessidade de reenviar os inspetores de armas ao Iraque, que a CIA já usou os inspetores de armas da ONU para espionar o Iraque.
E, é claro, precisamos esquecer o petróleo. Na realidade, o petróleo é o único produto básico que nunca é mencionado - e é uma das poucas coisas sobre as quais George Bush, filho, sabe alguma coisa,ao lado de seus antigos colegas do setor petrolífero Cheney, Rice e inúmeras outras figuras da administração.
Nos 30 minutos de discurso sobre guerra anti-Iraque feito por Bush segunda-feira, aliviado, agradavelmente, por apenas dois minutos de "espero que isto não exija uma ação militar" -, não foi feita uma única referência ao fato de que o Iraque pode possuir reservas petrolíferas maiores do que as da Arábia Saudita, que as empresas petrolíferas americanas podem lucrar bilhões de dólares no caso de uma invasão americana e que, uma vez que tiver deixado o poder, Bush e seus amigos poderão tornar-se multibilionários com o butim da guerra. Precisamos fingir que não sabemos de nada disso antes de irmos à guerra. Precisamos esquecer.