Edição de Sábado, 12 de Outubro de 2002
 
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Economia

Entrevista - Delfim Netto

"Governo faz terrorismo econômico"

SÃO PAULO - O deputado federal Delfim Netto diz que o Governo não resistiu à tentação de usar o "terrorismo econômico" para tentar atacar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para o ex-ministro - um crítico de longa data da atual política econômica - o sucesso do Plano Real interditou o debate econômico e levou o Governo a escolhas que seriam o motivo da crise atual. A novidade, porém, é que agora Delfim, nesta entrevista ao BBC Brasil, não só critica o Governo, como diz que sua alternativa nas eleições deste ano não assusta - pelo contrário, seria a melhor saída.

Pergunta - Qual a sua opinião sobre a postura que o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, assumiu na quarta-feira em relação à eleição?

Delfim Netto - Eu confesso - e talvez isso não tenha muita importância - que fiquei muito decepcionado com a exposição do doutor Armínio Fraga. Tenho grande admiração pelo Armínio, acho que foi um excelente presidente de Banco Central, fez um grande esforço, enfrentou um problema muito delicado, que é sustentar um programa de metas inflacionárias com choques extraordinários que nós sofremos. Mas ontem (quarta-feira, dia 9), ele deixou o chapéu coco de presidente do Banco Central e vestiu o boné de cabo eleitoral. Acho que ele ajudou a aumentar o pânico, confirmando que, de uma maneira ou de outra, o Governo quer fazer terrorismo econômico para obter resultados políticos.

Pergunta - O senhor acha que ele foi um mensageiro do Governo ou simplesmente estava expondo a dificuldade de lidar com a situação?

Delfim - Ele confessou que foi mensageiro. Na verdade, quando começaram a questioná-lo, ele disse "não ataquem o mensageiro". Ele estava dizendo o seguinte: estou trazendo a má notícia, mas por favor não cortem o meu pescoço, como era comum quando se mandava a má notícia para o imperador. Mas é claro que ele estava refletindo a opinião que se formou no almoço do qual ele tinha participado com o presidente da República, o ministro da Fazenda e outros membros do Governo. O que parece é que isso confirma aidéia de que o Governo não resiste à tentação de usar o terrorismo (econômico) em seu benefício. Agora, eu não entendo é isto: se a situação está tão dramática, quem produziu essa situação foi o presidente Fernando Henrique Cardoso e o seu pessoal.

Pergunta - Mas o Governo alega que tem enfrentado um série de crises internacionais que tem atrapalhado o desempenho da economia...

Delfim - Essa é uma das grandes piadas que podem ser vendidas para pessoas desinformadas. Existem duas testemunhas que esclarecem esse fato: o Chile e o México. Os dois tiveram os mesmos problemas internacionais, sofreram as mesmas crises, fizeram programas de estabilização parecidos com o nosso, e os dois terminam tendo um crescimento maior do que o do Brasil nos últimos cinco anos, tendo uma inflação menor do que a do Brasil nos último cinco anos, tendo uma taxa de juros no Chile que é um quarto da do Brasil e, no México, de um terço da do Brasil.

Pergunta - Por que essa diferença?

Delfim - Porque eles tiveram políticas externas. O que o Governo está querendo é que a gente acredite no seguinte fato: nos últimos quatro anos, ele foi ao Fundo Monetário (Internacional, FMI) três vezes, mas não para pedir dinheiro. Foi o Fundo que, em dificuldades, veio buscar forças no Brasil. É uma das coisas mais fantásticas do Mundo. Quer dizer, quando um país vai três vezes em quatro anos ao FMI e comparado com o México e o Chile mostra grandes diferenças, será que há razão para acreditar que o problema é externo? No Chile, o peso também se desvalorizou um pouco e no México também. Os riscos dos dois países também subiram um pouco. Ou seja, na melhor das hipóteses, olhando com magnanimidade, um terço do problema é externo, dois terços são made in Brazil.

Pergunta - E a derrapagem do câmbio?

Delfim - O câmbio derrapou porque os fundamentos são o que eles pensam. O câmbio derrapou porque o Governo ajudou a criar esse estado de espírito. O câmbio derrapa desde que em abril o Banco Central cometeu seus pecadinhos, que foram crescendo. O câmbio derrapou depois que, na convenção do PSDB, o Governo inventou um sambinha de pé quebrado dizendo que nós não queríamos virar a Argentina - quando não tinha nada que ver o Brasil e a Argentina. O câmbio derrapa por conta dos próprios tropeços do Governo. É evidente que tem um efeito eleitoral, mas é o que sempre digo: o Lula não compra nem vende dólar. Quem faz isso é o sistema financeiro, que é amigo do Governo.

Pergunta - Mas o que o Governo fez de errado para chegar a essa situação que o senhor descreve?

Delfim - Na verdade, esse Governo teve um plano de estabilização brilhante e terminou em 95, quando deveria ter começado a trabalhar. Foi tão brilhante que ele interditou o debate. Ninguém podia dizer que o câmbio estava errado - e estava. Quando o Governo conseguiu em 1998 a ajuda do FMI, de US$ 41 bilhões, e se reelegeu, a política mudou. O câmbio flutuou, foi introduzido um sistema de metas inflacionárias, foi aprovada uma lei de responsabilidade fiscal por inspiração do Fundo Monetário que é uma excelente lei e que vai pôr ordem nas finanças do Brasil, mas que foi insuficiente para superar o que tinha sido feito. Esse Governo termina com a maior taxa de desemprego já vista neste País, termina com uma dívida externa quatro vezes o valor das exportações, termina com uma dívida interna de 60% do PIB. Tudo isso foi feito por quem? Pelo Espírito Santo? Pelo Lula? À noite o Lula operava e de dia os virtuosos corrigiam? Não. Esse Governo está sofrendo as conseqüências da própria política.

Pergunta - Nessa crise toda, o que um Governo do PT fará?

Delfim - Nada contrário ao mercado. Não vai violar a propriedade privada, não vai recusar os cumprimentos dos contratos, não vai renegar os acordos internacionais, se não ele não faz parte do mundo. Então o que vai fazer? Vai mudar lentamente as prioridades. Mas para isto é que existe a urna: para mudar prioridades. O PT não vai produzir o descalabro fiscal, pelo contrário, a tradição do partido é de absoluto respeito fiscal. Ele não vai produzir a idéia de que um pouco mais de inflação vai produzir um pouco mais de crescimento. A verdade é que a política econômica do Governo foi 90% de ideologia e 10% de má teoria econômica.

 








 

 
 
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