Um pernambucano (de corpo e alma) em São Paulo
Marcello Bosschar
Ator
E-mail: marcellodiario@hotmail.com
Quando eu era criança, morango era fruta que viajava de avião (que meu avô trazia do Rio) e eu não confiava em fruta que não via saindo do pé
Hoje acordei assim: mais pernambucano que nunca, com vontade de celebrar esta condição! E olha que a mangueira da minha casa ainda nem está em flor. Talvez seja porque eu esteja indo para São Paulo hoje. Mas isso não importa pois Pernambuco me persegue e se a saudade apertar basta ouvir um disco do Lenine e lembrar de Lia, a da ciranda de Itamaracá. Ou posso ir ao Rio assistir à reestréia (amanhã, 20 de setembro) de Mamãe Não Pode Saber, de João Falcão. Desta vez com um elenco estrelar (leia-se "global") com a maravilhosa Drica de Moraes fazendo o personagem que a maravilhosa Lívia Falcão fazia no Valdemar de Oliveira, "direto do túnel do tempo"... João, nesta remontagem, conseguiu "desregionalizar" a peça, transformando-a num produto sem barreiras geográficas, muito bem acabado e realizado. Mas quem assistiu a montagem original, com Aramis Trindade de Priscila e Chico Acioly de Julia, isso para não mencionar Magdale Alves no papel título, não pensa duas vezes antes de responder qual prefere. Talvez não sem um quê de bairrismo, claro. É como dizer que prefere o milk shake do MacDonald's ao maltado do centro da cidade. Afinal, quem precisa de morangos quando se tem sapoti??? Quando eu era criança, morango era fruta que viajava de avião (que meu avô trazia do Rio) e eu não confiava em fruta que não via saindo do pé. Fruta para mim tinha que ser aquecida do sol, de preferência do jardim de minha casa: jambo, graviola, mangaba, cajá, caju, araçá e seriguela. Isso tudo de um tempo em que kiwi ainda era apenas um experimento genético em pranchetas japonesas!
É, Pernambuco me persegue. Morei três anos em Copenhagen e, ao ver aquelas pontes e rios, não podia deixar de pensar na rua da Aurora, à noite, com vista para o Palácio das Princesas todo iluminado tal qual Taj Mahal (e pensar que tem gente que prefere se espremer na Domingos Ferreira...). Em Bali, sentado sozinho em uma praia emoldurada por vulcões adormecidos, me lembrei de Tamandaré e fiquei feliz por ter visto meus primeiros golfinhos, ao vivo, ali, em frenteà minha casa, e não no Sea World da Disney por apenas 45 dólares. E quando estive na África assistindo ao show do Habib Koité & Bamada... Ah, não! Isso foi aqui mesmo, domingo passado, na Torre Malakoff! Quem não foi perdeu um super-show que me lembrou a Tenda Raízes do Rock in Rio 3. Gente bonita e "quase um beijo na boca". E o que é melhor, de graça! A cidade está o máximo!
Saí daqui há muitos anos, mas ainda penso no Recife quando alguém me pergunta onde é a minha casa. E olha que esta relação nem sempre foi um "mar de rosas". "Mentalidade coronelista", dizia minha rebeldia adolescente de cabelos descoloridos. Mas isso passou. Não a "mentalidade coronelista". Eu passei. "Conheci" Clarice Lispector, a mais pernambucana das ucranianas, e ela me ensinou que "amar supera o ato de ser amado". E é por isso, Recife, que volto para os seus braços. É a saudade, não é, Alceu? A saudade que não nos deixa longe daqui por muito tempo. E eu agora volto, através desta coluna, quinzenalmente, por uma simples questão deamor. De paixão por Pernambuco!