O episódio especial foi adaptado livremente do livro de Rosa Amanda Strauss por Fernando Meireles, Jorge Furtado e Regina Casé. Uólace e João Vitor não tem, exatamente, uma trama, segundo a atriz. Na verdade, é um diário de dois meninos. Um é muito pobre, vive em favela e foi criado por uma mãe alcoólatra. O outro é um menino que vive numa família de classe média baixa. Nada em comum? Pelo contrário, tudo em comum.
"O mais interessante é que o livro fala das semelhanças. Um garoto de 11 anos na favela acha chato tomar café com leite pela manhã, preferia comer um hambúrguer. Mas o menino de classe média também. O menino da favela quer um Nike, o outro também. No asfalto tem correio, na favela não tem. No asfalto tem esgoto, na favela não tem. Mas esta cidade que tem favela e asfalto é a mesma: Rio de Janeiro", diz Regina.
Ela ficou impressionada com a maestria com que Thiago Martins, um dos meninos que também explodiu recentemente no filme Cidade de Deus, interpreta João Vitor. Ele é mora no Vidigal e faz o papel do garoto que tem uma família com rendimento maior, embora não seja rico. "A opção foi do Fernando Meireles. Seria mais fácil que ele interpretasse o papel do menino favelado, mas ele preferiu surpreender", explica a atriz.
Uólace e João Vitor, o livro, entrou na vida da atriz no aeroporto de Salvador, quando esperava o avião com a filha Benedita. Isso foi há dois anos. Regina procurou a autora e fez com ela uma espécie de pacto de coração. A atriz queria usar a história e estava pensando grande: queria fazer um longa-metragem, uma minissérie... Mas Fernando, Jorge e Guel a trouxeram para a realidade. É mais fácil fazer projetos que se pode executar a curto prazo do que ficar com eles só na cabeça.
Uma das novidades no trabalho, implementada por Fernando Meireles, foi a semana de ensaio que tiveram com as crianças. Num destes dias, uma manhã ensolarada em pleno Leblon, Regina teve a prova mais cabal de que os atores foram bem escolhidos. Porque, na verdade, são atores mas continuam sendo o quesempre foram. Meninos pobres. "Fomos ensaiar com um deles. Ele deveria fazer o papel de menino pedinte na rua. Fernando e eu ficamos de longe observando a reação das pessoas que passavam. Todo mundo se afastava antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Teve um senhor que até ensaiou um soco no ar, certo de que o garoto iria assaltá-lo", diz Regina.