(Atualizado no dia 15/09/2002)
 
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Um novo papel na carreira de Regina Casé

Atriz, que tem como marca a espontaneidade, dirige episódio de Brava Gente e conta como foi sua estréia

Não há limites para Regina Casé quando ela está na frente da câmera. Interpela qualquer um em qualquer lugar. Faz as perguntas que quer, desconcerta os sisudos. E não é que sempre consegue arrancar um sorriso? Para explicar o fenômeno, pára alguns segundos e busca palavras: "Todo mundo traz em si um lugar especial, o espaço da criação. Experimenta jogar uma bola para qualquer pessoa. Ela vai jogar para você de volta", diz.

  Pois esta criatura desarmada confessa que sentiu a maior vergonha na estréia como diretora. Por trás das câmeras, co-dirigiu Uólace e João Vitor, um dos quatro episódios especiais de Brava Gente para a semana da criança, de 15 a 18 de outubro. E ficou constrangida (vejam só!) quando precisou mandar a equipe de produção trocar uma locação.

  "Era para ser uma loja de hambúrgueres, mas tinha a maior cara de loja de sucos. Eu dei uma volta antes de dizer que não podia ser lá. Parecia que não estava fazendo aquilo para ajudar, que estava criando um transtorno", diz Regina. Foi assim, quase insegura, que a atriz e apresentadora inverteu os papéis e descobriu, divertida, por que os diretores ficam descabelados quando chove numa externa. Até então, ela confessa, ocupava o lugar da galera que quase fica feliz e aproveita o tempo livre, sem gravação, para ir ao shopping rapidinho.

CURRÍCULO - "Não quero sair deste lugar da atriz. Mas acho importante aprender, na pele, que o diretor tem um prazo que precisa respeitar, e por isso fica tão nervoso quando alguma coisa atrasa. Mas não foi só vontade de aprender mais sobre a produção como um todo que levou Regina a querer dirigir. Transparente, não consegue esconder a paixão pelo diretor Estevão Ciavatta (de Um Pé de Quê?, no canal Futura), com quem está casada há seis anos, quando diz que esta convivência também a impulsionou.

  "Tantas vezes eu fazia uma cena que achava ótima e ele dizia: Mais uma para garantir. Irritada, eu não entendia o perfeccionismo. Dia desses, quando eu estava gravando com o Douglas Silva (que trabalhou no filme Cidade de Deus),Estevão chegou e eu estava dizendo a mesma frase. Ele pegou no meu pé por um bom tempo", conta. Mas aponta ainda a história, adaptada do livro Uólace e João Vitor, de Rosa Amanda Strauss, que a conquistou. "Conheci o livro através da Benedita, minha filha. E não consegui parar de chorar depois que li. É uma obra maravilhosa".

  Paixão, vontade de trocar de papel, prazer em levar para a televisão uma história que a comoveu. Não foram poucos os ingredientes que fizeram de Regina Casé uma diretora/atriz. Carreira que terá endereço certo: os invisíveis. Foram três, talvez quatro gerações de atores escondidos por um motivo que Regina prefere explicar com magia. "É quase como se tivesse uma tinta que tornasse invisíveis esses meninos que estão fazendo sucesso agora em Cidade de Deus, por exemplo. São, pelo menos, 12 atores negros e pobres que têm uma consciência corporal incrível, difícil de ensinar a qualquer menino branco, de classe média, que freqüente a CAL (Casa de Artes de Laranjeiras).

EQUIPE - Encarregadade lidar com a parte mais relacional ("prefiro não chamar de feminina") do programa, Regina foi poupada do trabalho técnico. Não teve que lidar com máquinas e equipamentos e agradece isso a Fernando Meireles, com quem divide a direção. "Faço questão de dizer: ele foi de uma generosidade impressionante. Um cavalheiro. Coisas que ele podia fazer com o pé nas costas, demorava só para acompanhar meu ritmo de iniciante".

  Mas na hora de dar pito nos meninos, era tarefa dela. Mãezona, às vezes puxava a orelha, em outras, prometia um Ovomaltine gigante se o trabalho ficasse perfeito. Nada muito rígido.


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