Crise econômica
A economia mundial entra em crise e a recuperação pode estar muito distante. Os investimentos estrangeiros diretos (IED sigla em inglês) estão caindo de forma assustadora tal como aconteceu em 2001. O índice despencou 51% no ano passado conforme assinala a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Trata-se da maior queda nos últimos trinta anos e que alcança uma cifra de US$ 750 bilhões.
Os investimentos diretos de muitos países caíram de forma significativa durante o corrente ano, fato que assinala uma estimativa de ruim à péssima, já que a maioria dos casos ocorrem nas nações em desenvolvimento. A tendência é que o fluxo de capital direto continuará em queda no Mundo inteiro o que poderá ocasionar uma retração ainda maior em 2003. O Brasil, envolvido nesse rumo, tem que usar de extrema cautela com o seu superávit primário junto ao Fundo Monetário Internacional.
A situação é preocupante em todos os níveis industriais e de comércio. As metas tomadas pelo Brasil junto ao FMI estão prestes a condicionar os investimentos públicos, exatamente agora no momento em que os investimentos estrangeiros se retraem. Caso as importações se reduzam ainda mais, a produção será afetada em médio prazo. Isso vai gerar problemas para o próximo governante. Como iremos produzir o superávit dentro desse patamar?
Mais: a imprevisibilidade da economia mundial afetará de forma considerável a oferta de investimentos nos países emergentes. Isso não é novidade, mas causará grandes impactos no médio e no curto prazo. No ano passado os países da América Latina receberam US$ 85 bilhões, ou 11% a menos do que em 2000, quando esse fluxo de capitais já havia se retraído outros 13%, em comparação a 1999.
Daqui para frente, de acordo com setores ligados à economia mundial, tudo dependerá do comportamento da economia norte-americana, a qual, por sua vez, dependerá do conflito dos EUA com o Iraque. Declarada a guerra o preço do petróleo irá disparar, talvez para um patamar de US$ 40 por barril ou mais. Nuncaé demais lembrar que crises geradas por fatos desse calibre são difíceis de administrar. Escapar delas é mais penoso do que sair de uma recessão inflacionária.
De que lado está Deus
Frei Aloísio Fragoso
PROVINCIAL FRANCISCANO
Passam-se os anos e, a cada dia, fica mais claro que a chamada Nova Ordem política internacional, cantada e decantada logo após a queda do muro de Berlim, como última fronteira do socialismo histórico, não passou da velha desordem com novos sócios.
O que veio a seguir, o proclamado "Fim da História", significando o adeus definitivo aos ideais e ideologias como força criadora e propulsora dos acontecimentos, inutilizou sonhos e utopias, trocados pelo pragmatismo absoluto (só é bom e útil o que dá resultados contábeis).
Não é preciso recordar com saudade os tempos de ontem, eles deixaram grandes traumas na alma da Humanidade. No entanto, muita gente anda se perguntando se a existência de duas forças antagônicas (USA x URSS) não convinha mais ao equilíbrio mundial do que um único império, arrogando-se o direito de policiar o Mundo.
Como é de praxe, os vitoriosos trataram de satanizar a memória dos derrotados. Para tanto elegeram um personagem parâmetro: Stalin.Tirano exterminador de milhões de vidas humanas. A cara do comunismo.
Em menos de duas décadas e por conta de um único acontecimento, o 11 de setembro, o trem da História descarrilou. Ninguém de bom senso hoje acredita que os antigos demônios foram substituídos por anjos do bem. Ao contrário, as intenções secretas do capitalismo neoliberal não são menos diabólicas do que eram as do comunismo real. Disfarçam-se, porém, com a retórica da paz: "É preciso eliminar o eixo do mal, que divide o Mundo entre os terroristas e os combatentes da liberdade. Lá impera Satanás, cá reina Deus, o que proíbe qualquer relação confiável de lá pra cá, de cá pra lá. Nesta batalha dantesca, ninguém pode dar-se ao luxo de escolher a neutralidade."
Na verdade, os grandes impérios não sobrevivem sem um inimigo à vista. Eles não admitem entregar à ferrugem seus imensos arsenais bélicos. No dia 11 de setembro de 2001, o terrorismo ofereceu-se, idiotamente, para ser o novo inimigo global. Por sinal, mais aterrorizante do que o seu antecessor, o comunismo, pois, não tendo rosto definido e visível, dá ao adversário o pretexto de escolher arbitrariamente o alvo de plantão.
O alvo de plantão é o Iraque. Para uma guerra já declarada, a farsa está muito bem montada. A mídia encarrega-se de espalhar o pânico entre a população. Esta, por sua vez, apavorada, prefere ser protegida por um Bush do que por um Gandhi, por razões óbvias. Os argumentos não precisam de racionalidade, basta-lhes a lógica do mais forte: "quem não vai à guerra comigo está contra mim". Toda esta representação atinge o seu paroxismo quando George W. Bush faz cara de Deus ante os apelos de paz dos simples mortais (inclusive o Papa) e grita do alto do seu poderio bélico: "Faremos guerra de qualquer maneira!"
A arrogância do presidente norte-americano fortalece a convicção de que o tempo antes era menos mau, um mundo unipolar é muito mais perigoso do que era um mundo bipolar. Antes, podíamos assistir a dois gladiadores na mesma arena, digamos Bush e Stalin, e escolher a torcida. Cada um deles, por medo de perder torcedores, na última hora desligava o botão da morte.
Agora somos todos vítimas em potencial da obsessão que afeta o juízo do homem mais poderoso da terra. Uma vez que a falta de todo recurso nos torna impotentes, recorramos ao poder superior da Fé. Oremos pela paz e contra a guerra e vejamos de que lado está Deus.
Cultivando a amplidão
Tereza Halliday
JORNALISTA E ANALISTA DE DISCURSO
"A senhora se mostra tão arejada. Não sabia que era chegada a uma missa". Este comentário decepcionado de um leitor sobre meu artigo Um anjo morava ao lado (DIARIO 8/8/2002 pg. A-3), inspirou o texto de hoje. Como diria um sobrinho adolescente: Tu num sacou nada, mermão!
Mente aberta independe de prática religiosa. Mentes fechadas são nutridas em todas as religiões e fora delas. Sim, sou chegada a uma missa, culto evangélico, círculo de prece espírita, serviço em sinagoga ou mesquita, meditação budista etc, se alma estiver a fim. Liturgias voltadas para o bem e para o alto me tocam, independente do chão onde ocorram.
Quem tem enjôo com religião, geralmente passou por experiência traumática ou revoltante com maus representantes do sagrado e do divino. Quem se apaixona por uma nova doutrina, também tende a ser intolerante. Somente os que estão à vontade em seu modo de conectar-se ao transcendente - com igreja ou sem igreja - nutrem a espiritualidade numaboa.
Aprendi ecumenismo no berço. Mãe católica, que escolheu meu nome em devoção à Santa Teresa de Lisieux, pai livre-pensador de inclinação kardecista. Minha avó espírita, cuja amiga-irmã era presbiteriana, não perdia missa de sétimo dia, em solidariedade a amigos enlutados. Estudei em colégios de freiras, absorvendo o bom, descartando os excessos. Dos quinze minutos diários de meditação com Madre Cunha, S.S.D, a frase imorredoura não foi ora pro nobis, mas sim: "Quero fazer de vocês mulheres fortes".
No curso de Jornalismo da Unicap, bebi do poço de tolerância do padre Aloísio Mosca de Carvalho, S.J., que me legou o mote Deus é maior do que todas as religiões. Meus modelos de religiosidade são Mohandas Ghândi, Maria Laura Florêncio, Albert Schweitzer e Luzinette Laporte, católica de comunhão diária, que associa Deus à alegria e lembra com profunda reverência: "Jesus, Maria, os apóstolos - todos eram judeus. Somos irmãos do mesmo tronco." Afino-me com uma religião minoritária chamada Unitarianismo, porter princípios, mas não ter dogmas. Mas não sou membro de igreja alguma.
Nem todo mundo adota uma religião, mas todos nós somos dotados de religiosidade, que pode ser expressa em ações construtivas, fruição da Natureza e das artes, ou preces e liturgias. Nietszche, que decretou "a morte de Deus", ficava intrigado com a renitência do impulso religioso - isto que extrai de nós vocativos e nos aprofunda ante a vivência de uma grande beleza ou uma grande dor.
Bem mais do que a uma missa, sou chegada a uma amplidão. Tanto assim que meu livro Celebrações - Rituais para momentos significativos (Editora Ágora), é carinhosamente dedicado a ateus e agnósticos e apreciado por místicos. No fundo mesmo, ser religioso é ser íntegro, saber que há momentos inexprimíveis e reconhecer o outro como digno de respeito, seja ele chegado a uma missa, ao materialismo dialético ou a Iemanjá. Amém.
terezahalliday@hotmail.com