Edição de Domingo, 4 de Agosto de 2002
 

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Os sem netos

O escritor Moacyr Scliar lançou o Movimento dos Sem Netos, no qual a Lúcia e eu assinaremos ficha assim que ficarem esclarecidas algumas dúvidas. Conhecendo o Moacyr, sei que - apesar de ter só um filho, portanto um terço das possibilidades de conseguir netos por meios pacíficos que nós temos - ele é favorável à negociação e ao gradualismo, enquanto a Lúcia e eu estamos prontos para a radicalização. Não descartamos nem a invasão de propriedades para seqüestrar os netos dos outros. Não dá mais para contemporizar.

  O governo do Éfe Agá, um notório latiavô, nada fez para acabar com a injusta distribuição de netos no País, e os candidatos à sua sucessão têm dado pouca atenção ao assunto. O caminho é a luta. Enquanto não chegamos a um acordo sobre métodos, no entanto, concordamos em colaborar com o movimento do Moacyr. Proponho que a bandeira tenha as letras MSN em destaque e, no fundo, uma fralda vazia.

Salsinha

  Outra guerra, a da salsinha, divide famílias. O Roberto D'Ávila é um anti-salsista de primeira hora e já causou espanto e revolta num restaurante de Paris ao perguntar se o jambon persillé poderia vir sem o persile. Já o seu irmão, o cineasta Antônio D'Avila, é um ferrenho persilista.

  Com a arrogância típica dos que defendem a salsinha em qualquer circunstância ou prato, independentemente de você querer ou não, o Antônio me mandou um e-mail de Paris, onde mora, sugerindo que a tal ilha Perejil (salsinha em espanhol) no estreito de Gibraltar, que quase causou uma guerra entre Espanha e Marrocos, tem uma história nobre - em vez de ser uma coisa insignificante, sem uso ou justificativa, que só está ali para incomodar. Como, aliás, a salsinha. Segundo o Antônio, Perejil é a ilha em que Calypso aprisionou Ulisses durante sete anos com seus sortilégios, atrasando a volta do herói para casa. Tanto que um dos nomes da ilha é Calypso.

  Era de se esperar que os persilistas apelassem para o mito e a erudição duvidosa em defesa do indefensável. A ilha de Perejil é apenas um símbolo do nada dignificado pela prepotência. Razão têm os marroquinos que, incapazes de enfrentar o poder salsista representado pela intransigência espanhola, recorreram ao banalismo, também simbólico. Nem Perejil nem Calypso: chamam a ilha de Leila.

Hoje

(Da série Poesia numa hora destas?)

  Ele: Eu já quis mudar o mundo e entender a vida. Hoje só quero que nenhum dos dois revida. Ela: Eu já quis o êxtase mas mudei de tom. Hoje, em vez de uma visão quero um vison. Ele: Eu acreditava em tudo tinha a alma escancarada. Hoje só acredito em nada. Ela: Eu já fiz inglês, ponto de cruz, balê. Hoje durmo até tarde e vejo tevê. Os dois: O que me fez ficar assim? Foi o tempo ou... Não olha pra mim!








 

 
 
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