Edição de Domingo, 4 de Agosto de 2002
 
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Caminhadas pela cidade se transformam em pesquisa

Fernando de Oliveira, filho de Valdemar de Oliveira, catalogou quase vinte mil vias do Grande Recife

Marcionila Teixeira
Da Equipe do DIARIO

A caminhada, a princípio, era apenas para manter o corpo em forma depois de um problema no coração. Terminou que o pesquisador Fernando de Oliveira, filho do ilustre Valdemar de Oliveira, descobriu ao final do trecho Derby e Parque Treze de Maio subsídios para fazer uma pesquisa repleta de curiosidades que se transformou em um projeto cultural. Tudo partiu, segundo ele, da falta de informação de jovens estudantes da Escola Valdemar de Oliveira, próxima ao parque, que não sabiam dizer quem era aquele que dava nome à unidade escolar. A curiosidade de Oliveira sobre o assunto aumentou e com o tempo ele percebeu que pouco era guardado na mente das pessoas a respeito da história escondida sob nomes de escolas, praças, hospitais e ruas do Grande Recife.

  Fernando de Oliveira resolveu então refrescar um pouco a mente do pernambucano e dos turistas do Estado com o projeto Memória a Céu Aberto, em análise na Prefeitura do Recife. A idéia é resgatar a memória perdida e espalhar ao mesmo tempo cultura nos mais diversosrecantos da cidade. Para isso, placas seriam colocadas em todo Grande Recife para indicar e esclarecer quem é, por exemplo, Valdemar de Oliveira ou mesmo quem é o tão falado Conde da Boa Vista, que dá nome a uma das principais vias do centro da cidade.

  "Só vendo o livro de história para saber quem foi o conde", comentou o estudante Ângelo Ferreira, 16 anos, enquanto folheava o livro em plena Conde da Boa Vista. Mais preocupado, o colega dele Bruno Araújo, 18, pergunta logo se a questão cai no Vestibular. "Ele deve fazer parte da história de Pernambuco", sugere Rafael Neves, 18. As placas, diz Oliveira, seriam viabilizadas financeiramente através da iniciativa privada, que ocuparia 15% do espaço. "O restante seria totalmente dedicado à história", esclarece o pesquisador.

IDENTIFICAÇÃO - Na confecção da pesquisa, Oliveira fez o levantamento dos nomes de quase vinte mil ruas do Grande Recife, das quais 70% já estão identificadas por ele. Desta lista constam nomes pomposos como rua Joaquim Felipe, no bairro daBoa Vista, mas que antigamente se chamava C. de Boi. Conta-se que no passado havia no local uma festa onde sempre acontecia uma briga ou, na linguagem popular, um c. de boi.

  Também curioso é o nome antigo da rua Eurico Chaves, em Casa Amarela. Durante muitos anos a via foi chamada de Beco do Quiabo porque diz a história que no início da rua havia um feirante que vendia quiabo. Na rua a história é outra. Morador do local há 60 anos, Luís José de Oliveira conta que o nome anterior foi colocado porque em todas as casas havia plantação de quiabo. "Até na minha casa tinha. Hoje isso acabou", lembra.

  A avenida Josélia, em Nova Descoberta, por exemplo, foi batizada pelo próprio Fernando de Oliveira. Ele conta que era dono da Imobiliária Pernambuco e construiu o Loteamento Progresso no bairro. Na avenida, nenhum morador sabe dizer a origem daquele nome, mas Josélia se refere ao nome da secretária do escritório de Oliveira, na época. "Batizei a avenida em homenagem a Josélia Amaral da Silva", lembra o pesquisador.Uma moradora antiga, a dona de casa Janete Maria da Silva, 37, conta que o local já se chamou Córrego do Comissário, quando ela era criança.

HISTÓRIA - E a rua Paula Batista, em Casa Amarela? Quem foi essa mulher? Na realidade, Oliveira explica que o nome se refere ao juiz Francisco de Paula Batista, natural do Recife. O magistrado também acumulou as funções de jornalista, escritor, conselheiro e diretor de faculdade. Saiu da vida pública para se dedicar à profissão de mestre e advogado. "Muitas placas indicam o nome das pessoas ilustres de forma incompleta e isso prejudica a memória histórica do Estado. Há a praça Rio Branco, por exemplo. O turista chega na cidade e pergunta: onde fica o rio Branco quando na verdade o nome se refere ao barão de Rio Branco", critica.

  Na rua da Concórdia, no bairro de Santo Antônio, nem mesmo uma das comerciantes mais antigas do local sabe a origem do nome. "Não tenho a menor idéia. Também nunca tive muita curiosidade de saber", comenta Graça Moreira, 47, do Bazar Caramuru,instalado na via há mais de 40 anos.

Em meio à desinformação das pessoas que trabalham diariamente na rua, eis que surge o comerciário Marcos Alexandre da Silva, que apesar de só contar com 21 anos, já tem na mente a história que deu origem ao atual nome. "Sei que havia dois moradores e cada um queria colocar seu nome na rua. Chegou um outro homem e para acabar com a confusão propôs Concórdia", explicou. Ponto para Marcos.

  Enquanto o projeto não é aprovado pela Prefeitura do Recife, Oliveira planeja transformar o valioso material que já obteve sobre nomes de ruas do Recife em site na Internet e em livro.


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