Pesquisa mostra problemas enfrentados pela categoria, que ganha cada vez menos e se arrisca mais
Felipe Vieira
Da equipe do DIARIO
Cerca de 70% de tudo que é produzido no Brasil está sob constante responsabilidade de uma categoria que vive à beira de um colapso. O baixo preço do frete, o alto custo da manutenção dos veículos e a falta de segurança nas estradas fazem com que os caminhoneiros autônomos fiquem cada vez mais distantes da sobrevivência na profissão.
Uma pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) mostra que as condições de trabalho dos condutores de carga vem piorando. Cerca de 59% dos profissionais reclamam que o preço do frete - de onde tiram o lucro - é bem pior, se comparado ao de anos anteriores; 82% acreditam que os pedágios consomem fatia significativa do orçamento. Por fim, 79% deles reclamam que a quantidade de assaltos nas rodovias aumenta a cada ano.
Basta percorrer os principais pontos de parada dos carreteiros na RMR para perceber que a realidade não é diferente em Pernambuco. O desânimo no rosto de cada caminhoneiro é sinal de que o dinheiro no final do mês ficacada vez mais escasso. "Devo terminar esse mês no vermelho. Mal acabei de pagar o seguro do caminhão, vou precisar fazer um conserto no motor, cerca de R$ 3 mil", diz José Éliton, de 30 anos, há 12 entre o Recife e São Paulo. Com 35 anos de volante, Roberto Batista, 54, o Robertão, engrossa o coro dos descontentes. "A gente até que consegue arrecadar algo em torno de R$ 4 mil por mês, mas vai a manutenção do veículo consome tudo", diz.
Ele está certo. Um pneu para caminhão, por exemplo, custa em média R$ 800, e numa carreta são 18 unidades. "A cada viagem que a gente faz tem que trocar pelo menos dois", diz Robertão, que também opera no eixo Recife-São Paulo, transportando sucata de alumínio. A esmagadora maioria dos motoristas ainda tem de pagar as prestações dos veículos, que giram em torno de R$ 1 mil mensais. Um caminhão zero quilômetro custa, em média, R$ 150 mil.
O maior vilão da história, segundo os caminhoneiros, é o frete. Para trazer uma carga de São Paulo até o Recife, o profissional recebe R$3,4 mil, o que eles consideram um preço justo. O problema é quando o carregamento faz o caminho inverso. "Os R$ 1,7 mil que pagam no frete do Recife para São Paulo são gastos na viagem", diz Éliton. Os 2,6 mil quilômetros que separam as duas cidades exigem que o caminhoneiro desembolse, em média, R$ 1,4 mil com óleo diesel, R$ 150,00 para alimentar-se, outros R$ 100,00 para os pedágios. "O pouco que a gente lucra é quando volta", completa Edvaldo Florêncio, o Vavá, que transporta combustível para São Paulo.
De acordo com a pesquisa da CNT, 47% dos caminhoneiros têm uma média salarial em torno dos R$ 2,5 mil, o que faz com que seja praticamente impossível renovar o veículo com que trabalham. Cerca de 65% da frota brasileira de caminhões tem entre 11 e 30 anos, e são justamente esses motoristas que menos vêem perspectivas de trocar o atual veículo por um mais novo.
Os que têm no caminhão o maior patrimônio e ganha-pão são obrigados a rebolar para instalar aparelhos como alarme e rastreador por satélite (GPS).Cerca de 32% dos entrevistados conseguiram comprar o GPS, e 30% colocaram alarmes nos veículos. Um dado preocupante, na opinião dos pesquisadores da CNT, é o percentual de condutores cujos carros possuem apólice de seguro: apenas 5,4%.