Desafio global
Acossados por uma crise econômica poucas vezes vista na História, os países da América Latina chegarão ao final deste ano com um balanço recheado de prejuízos. O Produto Interno Bruto (PIB) da região terá uma queda de 0,8%, o desemprego atingirá a marca recorde de 9% e os investimentos externos cairão da faixa média de US$ 73 bilhões para US$ 40 bilhões.
A face perversa dos dados sombrios projetados pela Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (Cepal) se revela na multiplicação do número de miseráveis nas ruas das metrópoles do continente. A gravidade da situação, segundo o relatório divulgado na quarta-feira pela Cepal, levanta uma série de dúvidas sobre o modelo econômico adotado na região depois da crise da dívida externa no início da década de 80.
A fórmula que estabelece a geração de superávits fiscais mesmo à custa do sacrifício de programas de saúde e educação, além da abertura irrestrita dos mercados, revelou-se pouco eficaz para conduzir a região a um sonhado ciclo de prosperidade econômica. E o Brasil, hoje às voltas com uma intensa crise financeira, é o melhor exemplo de que as políticas liberais precisam ser revistas.
Desde 1999, o País empenhou-se em cumprir todas as metas acertadas no acordo firmado com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Cortou gastos e aumentou impostos cobrados da população para gerar superávits fiscais. Controlou a inflação e removeu barreiras ao ingresso de capitais e produtos estrangeiros. Fez a lição de casa como poucos alunos. Apesar de todos os esforços, está sendo varrido por mais um furacão financeiro. E outra vez é obrigado a pedir o socorro da comunidade internacional.
O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso admite que o sacrifício exigido dos países pobres é muito grande. "O Brasil, que apertou tanto as contas, não sabe mais o que apertar para se ajustar a um mundo que enlouqueceu", disse o presidente na quinta-feira, quando a cotação do dólar ultrapassava os R$ 3,00.
Ao mesmo tempo, Fernando Henrique cobrou dos países ricos um tratamentomais igualitário às nações pobres. "Ficamos um pouco inquietos ao ver que há dois pesos e duas medidas, que a transparência que tanto nos pedem e que hoje praticamos não parece ser assim tão transparente acima do Equador." A revisão do rigoroso modelo econômico ditado pelo FMI aos países que precisam de socorro financeiro vem sendo defendida por alguns críticos desde a crise da Ásia, em 1997. A atual depressão da América Latina reforça o debate sobre a necessidade de o Mundo rever conceitos que se mostraram ineficazes e adotar políticas de consenso capazes de conduzir todos os povos à prosperidade econômica e ao bem-estar social.
Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco
Ganância infecciosa
Alan Greenspan, o presidente do Fed, forma abreviada de chamar o Banco Central dos Estados Unidos - que lá tem a denominação de Federal Reserve Board -, cunhou há duas semanas a expressão "ganância infecciosa". Estava prestando seu depoimento semestral ao Congresso americano e referia-se à crise do capitalismo suscitada por empresas vilãs como a Enron (dona da nossa Embratel), a WorldCom, a Xerox, a Andersen (que está fechando as portas) e outras que utilizam procedimentos escusos para camuflar prejuízos e enganar acionistas e investidores na bolsa. A expressão que empregou foi "infeccious greed", que pode significar também cobiça ou voracidade infecciosa, como advertência de que um capitalismo assim contaminado põe em risco sua sobrevivência. A expressão me fez lembrar sugestivos versos do Romanceiro da Inconfidência: "Quando a sede de ouro / é sem cura e por ela subjugados / os homens matam-se e morrem, / ficam mortos, mas não fartos". Do mesmo diapasão é um juízo de Gandhi, o Mahatma: "O Mundo pode proverpara a necessidade de todos, mas não para a cobiça de cada um". Será que opiniões que procedem de fontes tão distintas não podem ensinar alguma coisa diante dos problemas que o Brasil e muitos países enfrentam hoje?
Na verdade, é espantoso como um País como o nosso, de tanto potencial, com tanta coisa feita - apesar de ainda muito lhe faltar -, com a décima economia do planeta e outros predicados mais, seja levado a situações de quase insolvência como a que se desenha hoje. O Brasil não foi fragilizado. Sua inflação se mantém em níveis próximos dos ideais, depois de vencer-se a cultura inflacionária de décadas de descontrole de preços. Não há ameaça de calote da dívida por parte do Governo, nem dos candidatos viáveis na disputa pela Presidência da República. Algo, portanto, mais além de nossa capacidade de produzir, de gerar emprego e renda, de prover para as necessidades da população está por trás das angústias que se vivem no dia-a-dia, com a disparada do dólar e a do risco-país. Algo da natureza do problema manifesta-se em certos indícios. Um deles se refere ao "ajuste fiscal", nunca finalizado, porque não parece haver limites para o aperto do cinto. Há pouco, o Governo decretou medidas de mais austeridade num esforço para se alcançar (ou superar) metas acordadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), condição para se receber socorro em face do ataque especulativo de que o País é vítima. E o que se fez? Cortou-se, por exemplo, no orçamento da merenda escolar - o dinheiro da comida das crianças pobres -, nos gastos em ciência e tecnologia (onde está nosso futuro) etc. Na área científica, o corte foi brutal: 42 por cento dos dispêndios previstos. Tudo para que se assegure um só coisa, o pagamento de juros ao sistema financeiro internacional.
No entanto, faz anos que o Governo arrecada em impostos muito mais do que gasta em salários, custeio, investimento. Ou seja, tem superávit primário - e em níveis apreciáveis. Como a lei não prevê nem admite a compressão dos gastos com pagamento de juros, faz sentidochamá-la de "Lei da Responsabilidade Fiscal"? Talvez melhor seria chamá-la, como sugere César Benjamim, da Coordenação Nacional do Movimento Consulta Popular, de "Lei da Prioridade de Uso de Recursos Públicos para Pagamento aos Bancos" ou outro nome mais realista e honesto. Responsabilidade fiscal não significa somente não fraudar o direito dos credores, mas também o de toda a população, especialmente dos segmentos mais necessitados. Não faz sentido para país soberano algum possuir leis que tornem intocáveis os ganhos do sistema financeiro, à custa do bem-estar humano da população. Isso só acontece porque o lobby das finanças é muito mais poderoso do que qualquer outro. O castigo de quem "não age direito", dizem seus porta-vozes, é a condenação dos caloteiros à desgraça eterna, ao fechamento de todo crédito e do acesso ao investimento estrangeiro direto. Será que isso é verdade? Não se trata de embuste? Afinal, o investimento estrangeiro direto, nome que se dá ao capital que é aplicado produtivamente, nunca deixou de ir para países como Vietnã, Sudão, Irã, Nigéria etc., que não mostram sequer a sombra do nosso desempenho econômico. Tal capital aceita certos riscos; não é como o dinheiro volátil, virtual, especulativo que voa de um lugar para outro com enorme rapidez, o dinheiro de que ficamos justamente cada vez mais à mercê.
Em agosto de 1998, diante de uma situação gravíssima, com corrida bancária, a Rússia fez o impensável: suspendeu o pagamento da dívida, fechou seu mercado de capitais. Esperava-se o desastre como conseqüência (e ele quase aconteceu, mas não na Rússia, e sim, nos Estados Unidos, devido à exposição de um fundo de investimento de alto risco, o LTCM, à crise. O problema foi sanado na undécima hora por intervenção do Fed). Houve um primeiro momento de sérias turbulências na economia russa em 1998. Todavia, ela hoje se acha em situação menos angustiante que a brasileira, apesar de sermos bons pagadores das dívidas (a de 1999, contraída com o FMI em face do ataque especulativo de então, foi saldada antes do prazo do vencimento). O PIB russo está crescendo atualmente a 3,7 por cento ao ano, a balança comercial do país tem superávit de US$ 43 bilhões (graças à alta do preço do petróleo), suas reservas internacionais são de US$ 40 bilhões (as brasileiras são de US$ 33 bilhões). Não parece haver razões tão sérias, pois, para pânico no nosso caso. Devemos, sim, tomar decisões soberanas, de acordo com o interesse nacional. E enfrentar essa "ganância infecciosa" que está minando o próprio capitalismo americano. Eis aí o desafio.
Ronildo Maia Leite
Jornalista e diretor do Arquivo Público Estadual
Bom-dia, Recife
O que ele sentia pelas formigas não era propriamente ojeriza, essa reação de nojo que se sente pelas baratas. Era, por assim dizer, uma raiva surda, um entalo na garganta, que experimentava todas as manhãs quando ia ao jardim e encontrava aquela procissão de operárias vagabundas carregando no lombo pedaços do seu roseiral. Ou quando ia adoçar o café e estava lá aquele montão de coisas pretas e pequenas rodeando o açucareiro, metidas dentro da xícara que usara de madrugada.
Alma cândida, experimentava porém um sádico prazer em cometer formicídios. Jogava água fervendo na mesa, babando-se de gozo ao ver as pretinhas estorricadas. Seringava maciças doses de veneno nos buracos do jardim, rindo um riso de palhaço ao ver as bichinhas saírem pelo outro buraco, zanzando, zanzando até esticarem as canelas pro ar.
Espantava-se diante do espelho. Aquela cara de ira sagrada, aquele olhar assassino sem crimes. Mas, eis a expressão de sua verdadeira bondade. Uma careta à própria cara, um sorriso de criança:
- Extermino um formigueiro, mas não deixo uma formiga se afogar...
Certa vez, e com a ternura dos anjos, ele me contou o que fez no banheiro para salvar solitária formiga que se perdera das companheiras. Com o birilo da patroa, improvisou um salva-vidas. Agarrou-se a formiga ao talo. Então, ele atirou a náufraga no próprio roseiral. Pra não repetir o formicídio dentro de casa, decidiu guardar no açucareiro dentro do refrigerador. Ontem, quando foi tomar o café da manhã, estava lá uma outra trânsfuga.
Trânsfuga e cínica. Pernas hirtas, esticadas pro ar, a exibir o inacreditável sexo. Petrificada em cima de um torrão de açúcar congelado. Um sexo quase de cocada. Ah, não fossem de açúcares todos os sexos fêmeos, camaradas...
Na sua imaginação da mais pura bondade infantil, pensou tratar-se de uma mulherzona perdida nas geleiras dos pólos, mumificada no gelo. Pôs, então, a formiga na palma da mão e começou a reaquecê-la com o próprio hálito.
O bafo quente. Ahrr... ahrrrr... soprava com a boca toda aberta. E noque soprava a formiga ia saindo do estado de catalepsia, começava a se mexer. E como o sopro era exatamente em cima do sexo, a formiguinha sentia formigamentos na virilha, cosquinhas no pé da barriga, uns certos e humanos suores amolegados.
Depois, pegou um palito de fósforos e começou a praticar ginástica nas pernas da sua incrível mulherzona.
Ahrr... ahrrr... ahrrrr... O hábito e o bafo e o palito de fósforo bolinando as pernas.
Ahrrr... ahrrrr... pernas acima, pernas abaixo, roçando o cangote, em cima dos peitinhos.
O sexo foi umedecendo pelo bafo e o hálito, como num orvalho morno. Ai, acordou-se a formiguinha, que se pôs a andar na palma da sua mão. Deu um sopro definitivo e forte como quem atira à amada que se despede um beijo dado na mão.
Fuuu... fuuuu.
Então, a formiguinha foi bater exatamente em cima do roseiral, camaradas.
De novo, ele se tomou de raivas antigas. Foi lá, agarrou todas as formigas pela garganta, fez uma trança que esmagou sob os seus pés. Depois, fez um arranjo comas flores vermelhas. Escreveu no cartão:
- Coragem, dignidade, amor à coisa pública e despreendimento não há morte que mate...