Edição de Quarta-Feira, 17 de Julho de 2002
 
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Uma coleção de cunho clássico

Acervo do Instituto Ricardo Brennand abriga obras predominantemente dos séculos XVI, XVIII e XIX

Mário Hélio
Da equipe do DIARIO

A Várzea atrai a atenção dos curiosos interessados em arte que vivem ou vêm ao Recife. De um lado, a oficina cerâmica Francisco Brennand. Agora, também o Instituto Ricardo Brennand, idealizado e construído pelo seu primo Ricardo.

  O nome do Instituto homenageia o tio do seu criador (pai do artista Francisco). Mas não faltará quem entenda que o nome embora reverencie o tio, também referencia o sobrinho. O senso comum também já batizou a construção de castelo. Mas esse gosto pela réplica - não obstante o seu grau de kitsch - não é uma particularidade brasileira, é coisa universal. Embora o prédio do instituto sugira uma réplica, o seu modelo é inglês, e haja algumas nos seu interior de objetos valiosos, o forte de tudo nele é original.

  O Instituto somente abrirá integralmente em 2003. Este ano, somente a pinacoteca estará acessível, a partir de setembro, com a mostra de 20 pinturas do holandês Albert Eckhout, vindas da Dinamarca. Provavelmente, em março do próximo ano, será a inauguração oficial do instituto, com a exposição de outro holandês, Frans Post, da coleção do próprio Ricardo Brennand. Ele afirma que possui "mais de cinco e menos de cem" obras de Frans Post. A imprecisão dos números é um modo de confirmar que ele é o maior colecionador privado deste artista no Mundo, e já deve superado as três dezenas.

  Os que já estiveram no prédio do Instituto e o conheceram por dentro terão visto logo de cara um rico parque ecológico, com aves exóticas. A arquitetura também chama a atenção pelo exotismo. A casa do próprio Ricardo Brennand, nas proximidades do Instituto, é uma atração à parte. Ele levou sete anos para construí-la e quatro para concluir o prédio do Instituto.

  Nesse prédio, onde Ricardo Brennand mantém o seu escritório, há uma combinação de espírito moderno e medieval. A funcionalidade do elevador está junto a uma porta falsa, e lá há também uma espécie de calabouço. Tudo com climatização perfeita e todos os equipamentos eletrônicos de última geração.

  Entre as réplicas do instituto, uma das mais bonitas é a escultura italiana do Século XVI do Rapto das Sabinas. Mas também há a portada francesa, de inspiração inglesa. A cascata, o espelho d'água, a fonte, gárgulas, leões na entrada. Todo o ambiente dispõe de harmonia. Há um gosto pelo neo-clássico italiano, pela art noveau. Merecem um olhar atento as esculturas, as tapeçarias e o mobiliário. Mas, o melhor de tudo é a imensa coleção de armas brancas - e ainda há peças na casa do colecionador. A maior parte das obras pertencentes ao acervo vêm de coleções européias - especialmente da Inglaterra - e de particulares do Rio e São Paulo.

  

MÁRMORE E MADEIRA - O mobiliário inglês, de madeira carvalho, prenuncia o gótico, o românico, o renascimento, a talha pesada. Tanta solidez dispõe-se em sala onde há a brancura do mármore das esculturas do Século XIX - adquiridas de coleção privada do Rio -, de uma fonte indiana de mesma pedra. A cor escura da madeira revela o tom metálico dos escudos e peitorais na parede. Há um sarcófago romano do Século II.

  Na segundasala, observa-se o interesse antropológico. Logo no início, um retrato a óleo enorme do patriarca, pintado há dois anos pelo hiper-realista Meziat. No outro extremo da sala, um pequeno retrato do rosto sereno e vivo de um rapaz. Chamava-se Antonio e era filho de Ricardo Brennand. Morreu precocemente de câncer no cérebro. O retrato de Antonio olha a coleção de escudos, um quadro italiano mostra uma loja de armaduras.

  E há muitas, muitas armas brancas, coleção iniciada há 50 anos, e algumas tapeçarias. Não deixa de ser curioso que quase tudo na coleção seja um convite ao tato. Seja o suave das tapeçarias, o liso das esculturas ou a agudeza das armas. No mesmo ambiente encontra-se um órgão de flauta italiano que ainda funciona. Parece que há só dois ou três iguais em todo o Mundo em coleções particulares.

  

TOUCHÉ - A iconografia do Instituto também alcança a forma e a função do mundo novo. Há facas dos séculos XVIII e XIX. Facas de exibição da coleção Samuel Setran, Joseph Rodgers & Sons, um livro com textode Abel Domenech. Este, um argentino apaixonado por armas de fogo, que também se especializou nas brancas. Ele já escreveu mais de 350 artigos sobre armas em publicações especializadas. O seu último livro é justo sobre a marca Rodgers e coleção Samuel Setian. Foi escrito a pedido deste. No instituto pode-se ver o livro da contabilidade da Joseph Rodgers.

  Domenech considera as facas as mais bonitas armas já inventadas pelo homem. Decerto como as espadas e punhais são as mais elegantes. Essa elegância está bem exibida na coleção Ricardo Brennand. Cabos em marfim. Em metais nobres. Isso tudo é comum lá. A menor das armas brancas, os canivetes, formam uma atração à parte e estão entre os mais queridos pelo colecionador. Mas as maiores, as espadas, não ficam nada a dever. Aliás, ao contrário. Existe uma lá, raríssima e caríssima, que pertenceu ao rei Faruch, do Egito. Há facas escocesas. Tipo traçado. Madeira. Indumentária. Peças de prata. Coisas de clã. Espadas francesas na vitrine. Uma peça recente: uma faca lâmina vazada.

  As armaduras também estão bem postas. Há uma veneziana do século XV ou XVI. Miniaturas de armaduras e de cavaleiros medievais. Quem gosta de fonte pode mirar uma logo na entrada. Logo virão as moças desnudas da coleção dos orientalistas. O exotismo à vista. Desviando o olhar da nudez nunca em sossego encontrará o visitante os tapetes franceses. E quadros também da França do Século XIX.

  Há também um bonito vitral inglês. Um altar de capela. Uma oferenda. Informa-se que em abril de 1895 o marido dedicou à memória de sua amada Beatriz. Noutro lado há marinhas e um quadro italiano com mercador de mulheres brancas. De pernambuco, nesse universo tão europeu, há uma cabeça esculpida por Abelardo da Hora, ainda nos tempos de sua freqüentação da Várzea. Não se pode também esquecer do arcaz mineiro do Século XVIII.

  Uma bonita cena de uma manada de bisontes ou búfalos. Variedade de formas e materiais. Como esquecer a peça para matar tigres? Ou a de boxeador. Estojos de facas, jogos de talheres. Facasmuito curiosas como as que são pistolas. Noutro canto, jaz uma miniatura do Amadis de Gaula. Tudo é um convite aos olhos e logo ao tato, irmãos de sangue nesse tão particular jeito que os humanos encontraram de perpetuar os seus brinquedos: colecionando-os e dando a cada um deles um significado e um valor.

  Mas tudo ainda está em fase de organização e definição. Há uma preocupação cuidadosa com o acervo a ser oferecido à comunidade. Um cuidado também social. O público formado por estudantes - sobretudo os mais carentes - terá atenção especial. O Instituto Ricardo Brennand pretende ser um espaço para aprimoramento de estudos. Funcionará apoiado no tripé cultural, educativo e social.








 

 
 
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