Edição de Quarta-Feira, 17 de Julho de 2002
 

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Moralismo

Você e eu sabemos que brasileiro é um bicho contraditório. Mas quem quer entender o Brasil e não tomou a precaução de ser brasileiro também, precisa de explicação. Na questão do moralismo na nossa política, por exemplo. O estrangeiro que chega aqui, ou o proverbial extraterrestre que cai em Brasília, conhecendo só os dados gerais da história brasileira, sem as entrelinhas, têm todo o direito de pensar que o moralismo é um fator importante na nossa política, se não o fator determinante.

  O moralismo explica, por exemplo, a eleição de Jânio Quadros, que chegou à Presidência do País prometendo varrer a corrupção do Governo com sua vassoura metafórica. Explica a eleição do Collor, que fez render mais do que seria normal esperar um slogan promocional como "caçador de marajás", ou inimigo número um dos corruptos do serviço público. Mas aí o pobre visitante fica sabendo que o Governo que o Jânio Quadros substituiu é lembrado como o melhor que o Brasil já teve. Hoje ninguém discute que Juscelino foi muito bom parao Brasil, e seu prestígio é um reconhecimento póstumo de que a corrupção no seu governo - tão grande que só um maluco com uma vassoura de grosso calibre acabaria com ela - era desculpável, ou positiva, o que só pode ser visto como um lamento retroativo por um moralismo intempestivo.

  O revisionismo moral também permitiu que o maluco da vassoura tivesse uma longa sobrevida eleitoral depois do seu aparente fim político - para confundir ainda mais o pobre visitante. O pobre visitante, depois de saber que o mesmo moralismo que elegeu o Collor o derrubou, ficaria espantado em saber que Collor hoje é candidato ao governo de Alagoas com grande possibilidade de se eleger e com idade para pleitear a Presidência num futuro não muito impensável.

  Mesmo com o pouco que sabe dos políticos brasileiros, o pobre do visitante também se espantaria em saber que Jader Barbalho também se elege para o que quiser no seu estado, que Maluf lidera todas as pesquisas de preferências para o governo de São Paulo e que o Quércia não só recuperou sua força política no mesmo estado como até - e neste ponto o pobre visitante seria justificado em pedir para ir embora, ou voltar correndo para sua nave e decolar para algum lugar menos estranho - está aliado ao PT. O que podemos dizer ao pobre visitante?

  Somos moralistas demais ou o moralismo não tem qualquer influência na nossa vida política, ou tem e só não dura muito? Melhor dizer para o pobre visitante que o brasileiro é um bicho contraditório. E mudar rapidamente de assunto...








 

 
 
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