Abismo da incerteza
A incerteza política e econômica começa a rondar os países da América Latina. Agora é a vez do Paraguai que se afunda nesse abismo. Desemprego e subemprego no país são os pricipais pivôs e já atingem 27%. Sem conseguir conter a inflação e a recessão, Luis González Macchi, ex-presidente do Senado que assumiu o poder em 1999, depois da morte do vice, Luis María ArgaÀa, e da renúncia de Raúl Cubas, hoje asilado no Brasil, governa a duras penas, acossado por denúncias sem fim.
O povo, revoltado, saiu às ruas para protestar contra o governo. As manifestações começaram na capital, Assunção, e chegaram às fronteiras do país. O governo decidiu, então, responsabilizar o general Lino Oviedo, que mora no Brasil, pela onda de protestos. Oviedo nunca escondeu o desejo de retomar o Executivo paraguaio. Já protagonizou um golpe contra o ditador Alfredo Strossner (que ele assume) e ensaiou outro, contra Juan Carlos Wasmosy (que ele nega). Mas, mesmo que esteja orquestrando protestos do lado de cá, há muitos que pensam comoele.
Enquanto isso, Macchi se enrola numa teia de denúncias de corrupção. Desde abril, seu pedido de impeachment entra na pauta de votação do Congresso e dela sai, depois que a Promotoria de Crimes Econômicos paraguaia o acusou de desviar US$ 16 milhões do Banco Central para uma operação "de alto rendimento" no Citibank de Nova York.
O Congresso parece imobilizado. Entre os parlamentares não há consenso para votar reformas profundas. Não há também vontade política para isso. O Partido Colorado, de Macchi, é o que está há mais tempo no poder no Mundo. Manda no Paraguai desde 1947. Está dividido em várias facções: os seguidores de Luis Maria Argaña, vice-presidente assassinado, os do general Lino Oviedo e os independentes.
O presidente Luis González Macchi só não sofre impeachment porque isso significaria a saída do partido do poder, que provocaria uma crise institucional. Não foi o que ocorreu com o Partido Revolucionário Institucional (PRI), no México. Depois de 71 anos, a oposição assumiu sem grandestraumas. Ontem, o presidente anunciou que já acertou US$ 300 milhões em créditos internacionais, o que elevará a capacidade de endividamento do país ao máximo. A conta, Macchi deixará para seu sucessor, já que seu mandato acaba em 2003. Até lá, o país pode se desintegrar política e economicamente.
FRASES
Querer confundir Ciro com Collor é parte da estratégia de desonestidade que, infelizmente, ainda existe no Brasil.
Roberto Freire, senador (PPS), sobre a aliança do seu partido com o partido do ex-presidente Fernando Collor, em Alagoas
Acho nosso presidente uma elegância de pessoa. Mas venderam para ele uma coisa que não era o que ele pensava. Ele devia procurar o Procon.
Anthony Garotinho (PSB), referindo-se à política econômica do presidente Fernando Henrique
Se ela quiser pode ficar no Brasil. Ela será uma estrangeira detentora de todos os direitos.
Marco Aurélio de Mello, presidente do STF, referindo-se à cantora mexicana Glória Trevi
Artigos
Um pouco de História do Brasil
Severino Vicente da Silva
PROFESSOR DE HISTÓRIA - UFPE
Recentemente, os jornais informaram que o atual presidente dos Estados Unidos da América havia ficado surpreso ao saber que no Brasil existem negros. Muitos escandalizaram-se com a ignorância do detentor do mais poderosos cargo administrativo da maior potência do globo.
Entretanto, o seu desconhecimento sobre o Brasil pode ser explicado de várias maneiras. Uma delas é que ele, ao longo de sua vida de homem da classe dominantes americana,manteve contato apenas com representantes da classe dominante brasileira, majoritariamente branca, uma vez que as estruturas econômicas, políticas e sociais sustentadoras do poder no Brasil impedem, dificultam, a ascensão social dos outros segmentos da sociedade brasileira. Uma outra é que o sistema educacional norte-americano, o currículo vivenciado em suas escolas, dá preferência ao estudo da história do seu país,visto como centro da história, em um esquema mental no qual os demais povose Estados, são periféricos, como os planetas em torno do sol. Além do estudo sobre a formação dos Estados Unidos nos cursos da escola básica, todo estudante universitário estuda um semestre de história americana. Além disso tudo, podemos, ainda, especular que o presidente norte-americano, ao longo de sua vida texana, evitou cultivar a curiosidade sobre o Mundo, seus habitantes, ou qualquer coisa além dos limites do seu país que, para ele, é todo o planeta.
Embora não aceitável para os nossos brios patrióticos, essas explicações parecem ser razoáveis se aplicadas aos cidadãos americanos daquela nação do norte, ou mesmo de qualquer outra nação que julgue umbigo do Mundo. Eles não sentem necessidade de estudar outro país que não seja o seu, outra cultura além da sua.Inaceitável é que brasileiros se recusem a estudar a sua história e, além disso, criem mecanismos para que as novas gerações não tenham acesso ao mínimo de informações sobre o Brasil, seus hábitos, sua história, sua cultura. Inexplicável, mais ainda, é que Departamentos da Universidade Federal de Pernambuco assim o façam.
Quando observamos os currículos aplicados em diversos cursos oferecidos pela UFPE, notamos a ausência de tempo dedicado ao estudo - mesmo o mínimo - sobre a cultura brasileira. Esses estudos sobre o Brasil não são encontrados nos cursos de medicina, educação física, odontologia, física, psicologia, só para citar alguns. É como se estivéssemos formando profissionais que atuaram em uma realidade diferente da realidade do povo brasileiro. É como se esses profissionais não devessem saber sobre as pessoas que eles irão atender. E contudo tem mais. Alguns cursos que ainda mantém uma disciplina de sessenta horas - em alguns casos quarenta e cinco horas - para uma introdução à História e à cultura brasileira, em reuniões de seus plenos, em momentos de rara sabedoria, está votando pela retirada dessas disciplinas, como é o caso de ciências sSociais e biblioteconomia. Nem o presidente dos Estados Unidos da América poderia ter idéia mais eficaz para destruir o Brasil.
Conta-se, em anedota, dessas que ninguém sabe precisar a origem,que o livro Raízes do Brasil, de autoria de Sérgio Buarque de Hollanda, teria sido colocado em uma biblioteca, entre os livros de botânica. Com o que estamos assistindo, não deverá causar surpresa se o comportamento, o desconhecimento que o presidente norte-americano tem do Brasil, venha a se alastrar no campus universitário,e, por conseqüência, sobre todo o território brasileiro.
Os professores universitários que tomam decisões como as que estão sendo tomadas pelos Departamentos da UFPE, não devem surpreender-se com o fato de outros povos não conhecerem o Brasil, pois eles, além de desconhecerem-no, estão tomando providências para que os seus alunos cultivem a estultície dos seus mestres.
Tudo isso nos faz pensar nas razões que levam os brasileiros a esgrimirem seu patriotismo quase unicamente em relação ao selecionado brasileiro de futebol, e, na carência de estudos históricos sobre os formadores do Brasil, nossas cédulas estão repletas, não de homens, mas de animais.
Cachos de bons tempos
Rivaldo Paiva
ESCRITOR
Ninguém pediu para ser filho da guerra, tal como Doris Lessing prega numa ficção pra lá de real em seu The Sweetest Dream, quando avalia as diferenças cruciais da qualidade de vida e explosões de mudanças nos costumes dos povos - aconchegantes momentos de reflexões sobre a unidade do Mundo, sua riqueza cultural a desabrochar fulminante entre os jovens daquela primorosa era dos anos 60 - seus danos, suas construções vitoriosas.
As frustrações de gerações ao longo do século passado, desde 1920, 45 e 53, herdando o destempero dos vitoriosos das duas grandes guerras mundiais e a da Coréia, sem falar da ira dos perdedores, da fria Guerra Fria, já seriam suficientes para ensinar às civilizações posteriores o desejo de uma paz a ser consagrada definitivamente.
Toda violência, por menor que seja, é sempre uma batalha sem fim entre o que seria o bem e o mal. É hoje assim. Não era, todavia, implacável, no rebuliço romântico dos anos de ouro e rebeldes de 1960. Naquelesterritórios de hippies cabeludos, de leitores de Sartre e Camus, de vibrantes ouvintes de Lennon e sua troupe, de insistentes jovens em busca do amor livre - tempos há muito perdidos de Proust -, dos obcecados guerrilheiros admiradores dos Zs de Costa Gravas, dos telúricos sonhadores de candelabros italianos ou das misteriosas psicoses hitchcokianas e do humor mudo de Tati, não havia lugar para violência, muito menos para a guerra. Entretanto, aqueles bons tempos foram sacudidos por encaracoladas idiotices cruéis perpetradas por homens ferozes contra seres humanos no Vietnam, nos Seis Dias de tantas Golans, atentando à destruição do princípio da liberdade gritada na primavera de Praga, enquanto nos arredores das republiquetas latinas os regimes tirânicos militares torturavam e faziam desaparecer jovens idealistas ou até apenas simpatizantes da democracia.
Foram os cacheados nebulosos da época - cristianizados pela quase catástrofe nuclear que o Mundo tremeu e temeu a partir da crise dos mísseis soviéticos em Cuba, além da feiúra da feitura do muro de Berlim, distanciando irmãos e culturas, não obstante o exemplo de lusitanos e ibéricos ao se livrarem da opressão salazarista e franquista. Mundo engraçado o nosso. Mundo sem graça o nosso. Gente romântica e sonhadora a nossa. Gente egoísta e inóspita a nossa.
Hoje, guerra tem outro nome, globalizada em termos de terrorismo. Tudo causado pelo expansionismo, ganância e abandono aos povos economicamente desgraçados pela fome e miséria estendida nos rincões africanos e do Oriente Médio, pisoteados pela endinheirada empáfia e soberba de seletos grupos discricionários. O atual terrorismo terrível - étnico ou religioso - não é outra coisa senão um alerta para esses bélicos e dolarizados quanto à perda do monopólio estatal de poder e coerção, até então inédita e que pode estar levando o Mundo todo a uma era contínua de instabilidades. A guerra é uma epidemia para Hobsbawm, pois, avançando no tempo, embaralha a distinção entre combatentes e não-combatentes e faz dos civis as principais vítimas. Disse o historiador Robert Conquest, certa vez que, apesar dos destroços e males causados pelo nazismo e stalinismo, esses períodos tiveram meia vida - tal o que acontecerá já, já, no futuro, em relação ao domínio imperialista de israelenses e norte-americanos com o apoio irrestrito dos ingleses, o maior de todos os dominadores da História.
Prefiro os cachos cintilantes de alegria de algum bom tempo.