Edição de Domingo, 14 de Julho de 2002
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Último capítulo não veio com um final feliz

Em menos de trinta minutos, o ônibus do Pássaro Preto já deixava Itacuruba, com as janelas e cortinas fechadas para proteger o rosto triste dos atletas das vaias e provocações dos torcedores locais. Eram só os primeiros metros de uma longa viagem. Uma viatura da polícia escoltou a delegação até Floresta e aconselhou o time a só seguir para o Recife à meia-noite, junto a um comboio de ônibus que também teria proteção policial. Depois de retornar ao hotel, o treinador Jálber Carvalho, ainda inconformado com os erros de arbitragem e com os desmandos políticos do futebol - que adjetiva como uma caixinha de sacanagem - libera os atletas. Às 23h, o ônibus do Íbis segue para o posto de gasolina, onde esperaria o comboio de mais dois veículos e a escolta da polícia. Meia-noite em ponto: hora de voltar pra casa. No retorno, Jalber Carvalho irrita-se ao descobir uma garrafa de run entre os jogadores que estavam misturando a bebida com coca-cola. Os jogadores pedem desculpas, mas continuam bebendo, deixando o profissionalismo da lado. Quieto na sua poltrona, o atacante André, que além de jogar futebol, trabalha à noite numa fábrica, pensa no que vai dizer ao seu patrão para justificar os recentes atrasos. "Não posso perder o emprego porque tenho uma filha pra criar, espero até ser promovido, quem sabe assim possa deixar o futebol".

  Naquele momento, André não era o único desiludido com o futebol, vários outros jogadores também falavam em mudar de vida, voltar a estudar e arrumar um emprego. Não demorou e o ônibus estava em silêncio absoluto, com todos dormindo. A viagem de volta durou seis horas e o sono só foi interrompido numa parada num posto de gasolina perto de Arcoverde, mas naquela altura, poucos ainda tinham dinheiro para fazer um lanche ou comprar um pacote de biscoito. Às seis da manhã, o ônibus já estava no Recife e a maioria dos jogadores preferiu descer na avenida Caxangá, onde era mais fácil para voltarem às suas casas. Despediram-se rapidamente, juntaram os trocados para a passagem, colocaram a pequena bagagem embaixo do braço e desceram na parada de ônibus. Dali pra frente, cada um seguiria seu caminho, junto com outros trabalhadores comuns que estavam começando mais um dia de trabalho. Mas, aqueles 18 jogadores do Íbis que durante sete meses se sacrificaram para tentar realizar o mesmo sonho, chegavam ao final de uma longa jornada de trabalho, numa história verdadeira, daquelas que nem sempre acabam com final feliz. (F.F)


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