Há situações na iniciação sexual que, embora comuns, ficam abafadas. É o caso dos primeiros contatos eróticos com alguém do mesmo sexo. Um dos capítulos da pesquisa da Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana (Sbrash) ainda não concluídos pretende observar como acontece essa iniciação.
Não é preciso ter os resultados da pesquisa para constatar e discutir as delicadezas do assunto. "Com a criança é comum isso acontecer. Aos três anos ela já tem curiosidade", observa a psicóloga e delegada da Sbrash em Pernambuco, Semíramis Prado.
A psicóloga conta que duas situações guiam os contatos sexuais das crianças com outras do mesmo sexo. Uma parte do estímulo natural, que é a curiosidade. "Pode também acontecer do menino ter medo de chegar perto de uma garota e aproximar-se do colega", cita a psicóloga. "Ocorre ainda quando o mais velho seduz o mais novo", fala Semíramis Prado.
Mãe de Thiago, de 7 anos, a advogada Ana Isabel Vieira, de 31, passou por sérias discussões com o então marido, quando viram o pequeno brincando embaixo da cama com um amiguinho. "Meu marido não gostou e deu um grito nos dois, que ficaram assustados e chorando", recorda ela. "Tentei convencer meu marido que aquilo não significava que o menino seria homossexual".
A iniciação sexual de adolescentes com os do mesmo sexo tem outros motivos, além de curiosidade. "Os contatos passam a ter conotação erótica", explica. "Apesar dessa característica, que é natural, a iniciação sexual entre adolescentes do mesmo sexo sofre com a repressão. A homossexualidade está cercada de culpa", fala a psicóloga e também delegada da Sbrash no Estado, Silvana Melo. "Ao se sentir culpado, ele pode se privar do prazer da experiência e depois viver a homossexualidade angustiado, com medo, ou definir as próximas relações com o sexo oposto, por estar sob pressão", adverte.
Para Semíramis Prado, mais do que desinformação, as crianças e adolescentes carregam culpa, sentimento suficiente para marcar a iniciação sexual. "Quando os contatos são mal trabalhados com os pais, se tornam traumas. A ignorância e o preconceito podem fazer estragos profundos".