Oito anos de Real
Hoje,o Plano Real completa oito anos. No balanço, um fato é incontestável. O Brasil mudou. E para melhor. A maior conquista credita-se à estabilidade monetária. A inflação mensal, que chegou aos 80%, não passa, hoje, do 0,5%. Constitui página virada a tragédia que, de um lado, devorava o rendimento dos assalariados e, de outro, inibia a possibilidade de planejamento do setor produtivo e desestimulava investimentos de longo prazo.
A abertura econômica é outro ganho importante. A maior exposição ao mercado externo obrigou as empresas a se modernizarem e se tornarem mais competitivas. Muitas quebraram, é verdade. Mas hoje produtos brasileiros têm condições de disputar - e ganhar - concorrências nos quatro cantos do mundo. Mais: no período, o Brasil só perdeu para a China em volume de investimentos. Recebeu mais de US$ 100 bilhões de capitais externos.
Há que lembrar, também, outros avanços. Entre eles, a profissionalização da gestão pública. A Lei de Responsabilidade Fiscal forçou estados e municípios a levar o Orçamento a sério, prática esquecida devido à gastança desenfreada financiada pela inflação. Outro progresso importante é a universalização do acesso à escola. Mais de 95% das crianças entre 7 e 14 anos estão matriculadas no ensino fundamental. O grande desafio, agora, é o salto de qualidade. Sem avanços acelerados na excelência, o Brasil corre o risco de perder o bonde da História.
Na esteira da globalização, vários setores tiveram notável melhoria. Vale destacar a telefonia - cujas redes cobrem a quase totalidade do território - e o processo de informatização, sobretudo nas áreas eleitoral, bancária e de arrecadação de impostos. Mas existe o outro lado da moeda. A estabilidade foi conquistada a um preço social elevado. A austeridade fiscal reduziu drasticamente o nível de investimento público. Os crônicos problemas de balança de pagamentos endividaram o País e tiveram reflexos na taxa de juros internos, que tem limitado a expansão da atividade econômica a valores muito aquém do necessário.
Erros cometidos na trajetória do Plano Real estão sendo gradualmente corrigidos. Merecem destaque a realidade do câmbio e a flexibilização das metas de inflação anual. Mas permanece o desafio da busca de saídas para o crescente desemprego e a explosiva dívida pública. A solução passa pela expansão do produto interno bruto, que continua constrangido pela exorbitante taxa de juros. Impõe-se, com prioridade, equacionar o estoque e o perfil da dívida do Governo, única maneira de obter taxas de juros compatíveis com asnecessidades de crescimento da atividade produtiva. Impõe-se, também, deslumbrar solução capaz de reduzir a vulnerabilidade externa da economia nacional. São desafios hercúleos cuja resposta exige urgência.