Pena reúne depoimentos, imagens e até gravação inédita de Carlos Pena Filho
"Porque você não tem o que sonhar,/ Eu vou te dar uma pobre canção/ Pra ver se você poderá então/ Fazer viver seu coração". Porque tinham o que sonhar, três estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco resolveram concretizar o desejo de livrar o autor desses versos do ostracismo. Em vez de uma pobre canção, porém, Anneliese Pires, Juliana Aragão e Milena Vital dão ao público que comparecer hoje, às 19h, à sala João Cardoso Ayres, na Fundação Joaquim Nabuco do Derby, algo que fará viver muitos corações: Pena, documentário de 23 minutos sobre Carlos Pena Filho.
Coincidência fortuita: o lançamento do vídeo, realizado como projeto experimental de conclusão de curso e aprovado com a nota máxima pela banca examinadora há três semanas, se dá no mesmo dia em que decorrem exatos 42 anos da abrupta e trágica morte do poeta. Logo nos primeiros minutos do trabalho, os relatos da viúva Tânia Carneiro Leão e do amigo Fernando Menezes remontam à perplexidade que tomou conta do Recife quando o carro em que Pena estava se chocou com um ônibus. Quatro dias depois, em 1/7/1960, ele falecia, deixando a pequena filha Clara com dois anos, vários amigos desolados e uma produção literária de qualidade hoje inquestionável.
Mesmo assim, as três produtoras, roteiristas, pesquisadoras e diretoras evitaram a armadilha de fazer do documentário uma apologia à poesia de Carlos Pena Filho. Elas, que conheceram a obra do poeta de maneiras bem distintas (Anneliese herdou da mãe, professora de redação, o fascínio pelos versos dele; já Milena o descobriu no segundo grau e Juliana, que sabia apenas que se tratava de um poeta recifense, durante a produção), preferiram tomar outro caminho. "Pensávamos em abordar a obra dele, mas, quando conversamos com Tânia, vimos que havia outras possibilidades, que ele tinha muitos amigos e que existia na história dele muito além da poesia", diz Milena.
Alguns desses amigos estão presentes no vídeo, em participações ricas e especialíssimas. O ex-governador Miguel Arraes, por exemplo, recordao encontro com Carlos dois dias antes do acidente e a subseqüente decisão de colocar um busto dele em praça pública. Já Ariano Suassuna é responsável por uma das passagens mais significativas dos 23 minutos de projeção. O escritor narra a decisão do poeta de compor dois sonetos e dedicar um a ele e outro a Francisco Brennand e as diretoras aproveitaram a deixa para emendar a sonora do artista plástico na edição.
O capricho veio com a inclusão do texto integral do soneto em questão, A Solidão e Sua Porta, no rodapé da tela. Toque singelo e poético. A eles se juntam críticos literários como Mário Hélio, poetas como César Leal, estudiosos que já se debruçaram sobre a obra de Pena, como a mestra em Letras Irma Chaves, e companheiros de farra como Abelardo da Hora e Paulo Loureiro.
"Não sabíamos aonde íamos chegar. As histórias que surgiram ao acaso foram trazidas para o roteiro. Fomos fazendo uma compilação de memórias do Pena amigo, pai, marido e poeta", expõe Juliana. "E já que a gente não tinha tanta imagem, preferimos deixar que os depoimentos se encaixassem e contassem a história", completa Anneliese. É exatamente a costura dos depoimentos que confere ao documentário um caráter informativo-emotivo, por assim dizer.
VOZ INÉDITA - Dividindo em cinco blocos, cuja passagem se dá por meio de uma vinheta construída em cima de versos e da capa de uma edição especial do Livro Geral, o vídeo alcança o objetivo inicial do trio de realizadoras - divulgar um autor relegado ao esquecimento "das estantes de livros", nas palavras de Juliana - e vai além. Termina por abrir espaço para discussões sobre a estética do poeta e para reminiscências que fornecem ao espectador uma idéia de quem de fato foi Carlos Pena Filho, com direito até à voz dele, encontrada por acaso numa fita guardada nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco e rapidamente incorporada ao projeto.
Se a surpresa das realizadoras foi grande com esse indescritível achado, imagine a repercussão entre os depoentes. "A própria viúva desconhecia a existência da fita", atesta Anneliese. Nela, Pena declama A Solidão e Sua Porta e encerra o vídeo, pontuado por uma trilha sonora composta por canções escritas por ele ou então musicadas por Capiba ou Antônio Madureira a partir de seus versos, como Manhã de Tecelã, A Mesma Rosa Amarela e Desmantelo Azul.
Gravado em tecnologia digital e editado em quatro dias nos laboratórios da Unicap, o vídeo Pena tem conteúdo e qualidade para ser exibido em festivais de gênero do País, apreciado por fãs do poeta ou da linguagem documental ou ainda tomado como objeto de estudo. A última opção se materializou: as recém-formadas e já atuantes jornalistas receberam um convite de um professor da Faculdade de Filosofia do Recife para usar o vídeo em sala de aula. As outras, com certeza, virão em seguida.
O trio pretende inscrever o documentário em mostras e apresentar a obra e a vida de um pernambucano ignorado pela geração mais jovem. "Tem gente da nossa idade que nunca ouviu falar dele", aponta Milena Vital. Felizmente, ela, Juliana Aragão e Anneliese Pires não fazem parte desse contingente.
Serviço
Lançamento do vídeo Pena, de Anneliese Pires, Juliana Aragão e Milena Vital
Onde: Sala João Cardoso Ayres da Fundação Joaquim Nabuco (rua Henrique Dias, 609, Derby)
Quando: Hoje, a partir das 19h
Quanto: Entrada franca
Informações: 3421.3266