Edição de Domingo, 30 de Junho de 2002
 
Início Diario de Pernambuco Viver Poeta do desmantelo é retratado em vídeo

Diario

Índice Geral
Expediente
Ed. Anteriores
Assinaturas
 

Cadernos

Política
Brasil
Mundo
Economia
Esportes
Vida Urbana
Viver
 

Suplementos

Revista na TV
Empregos
Viver Mulher
Viagem
Informática
Saúde
Carro
Imóveis
 

Serviços

Loterias

 

Viver

Poeta do desmantelo é retratado em vídeo

Pena reúne depoimentos, imagens e até gravação inédita de Carlos Pena Filho

"Porque você não tem o que sonhar,/ Eu vou te dar uma pobre canção/ Pra ver se você poderá então/ Fazer viver seu coração". Porque tinham o que sonhar, três estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco resolveram concretizar o desejo de livrar o autor desses versos do ostracismo. Em vez de uma pobre canção, porém, Anneliese Pires, Juliana Aragão e Milena Vital dão ao público que comparecer hoje, às 19h, à sala João Cardoso Ayres, na Fundação Joaquim Nabuco do Derby, algo que fará viver muitos corações: Pena, documentário de 23 minutos sobre Carlos Pena Filho.

  Coincidência fortuita: o lançamento do vídeo, realizado como projeto experimental de conclusão de curso e aprovado com a nota máxima pela banca examinadora há três semanas, se dá no mesmo dia em que decorrem exatos 42 anos da abrupta e trágica morte do poeta. Logo nos primeiros minutos do trabalho, os relatos da viúva Tânia Carneiro Leão e do amigo Fernando Menezes remontam à perplexidade que tomou conta do Recife quando o carro em que Pena estava se chocou com um ônibus. Quatro dias depois, em 1/7/1960, ele falecia, deixando a pequena filha Clara com dois anos, vários amigos desolados e uma produção literária de qualidade hoje inquestionável.

  Mesmo assim, as três produtoras, roteiristas, pesquisadoras e diretoras evitaram a armadilha de fazer do documentário uma apologia à poesia de Carlos Pena Filho. Elas, que conheceram a obra do poeta de maneiras bem distintas (Anneliese herdou da mãe, professora de redação, o fascínio pelos versos dele; já Milena o descobriu no segundo grau e Juliana, que sabia apenas que se tratava de um poeta recifense, durante a produção), preferiram tomar outro caminho. "Pensávamos em abordar a obra dele, mas, quando conversamos com Tânia, vimos que havia outras possibilidades, que ele tinha muitos amigos e que existia na história dele muito além da poesia", diz Milena.

  Alguns desses amigos estão presentes no vídeo, em participações ricas e especialíssimas. O ex-governador Miguel Arraes, por exemplo, recordao encontro com Carlos dois dias antes do acidente e a subseqüente decisão de colocar um busto dele em praça pública. Já Ariano Suassuna é responsável por uma das passagens mais significativas dos 23 minutos de projeção. O escritor narra a decisão do poeta de compor dois sonetos e dedicar um a ele e outro a Francisco Brennand e as diretoras aproveitaram a deixa para emendar a sonora do artista plástico na edição.

  O capricho veio com a inclusão do texto integral do soneto em questão, A Solidão e Sua Porta, no rodapé da tela. Toque singelo e poético. A eles se juntam críticos literários como Mário Hélio, poetas como César Leal, estudiosos que já se debruçaram sobre a obra de Pena, como a mestra em Letras Irma Chaves, e companheiros de farra como Abelardo da Hora e Paulo Loureiro.

  "Não sabíamos aonde íamos chegar. As histórias que surgiram ao acaso foram trazidas para o roteiro. Fomos fazendo uma compilação de memórias do Pena amigo, pai, marido e poeta", expõe Juliana. "E já que a gente não tinha tanta imagem, preferimos deixar que os depoimentos se encaixassem e contassem a história", completa Anneliese. É exatamente a costura dos depoimentos que confere ao documentário um caráter informativo-emotivo, por assim dizer.

  

VOZ INÉDITA - Dividindo em cinco blocos, cuja passagem se dá por meio de uma vinheta construída em cima de versos e da capa de uma edição especial do Livro Geral, o vídeo alcança o objetivo inicial do trio de realizadoras - divulgar um autor relegado ao esquecimento "das estantes de livros", nas palavras de Juliana - e vai além. Termina por abrir espaço para discussões sobre a estética do poeta e para reminiscências que fornecem ao espectador uma idéia de quem de fato foi Carlos Pena Filho, com direito até à voz dele, encontrada por acaso numa fita guardada nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco e rapidamente incorporada ao projeto.

  Se a surpresa das realizadoras foi grande com esse indescritível achado, imagine a repercussão entre os depoentes. "A própria viúva desconhecia a existência da fita", atesta Anneliese. Nela, Pena declama A Solidão e Sua Porta e encerra o vídeo, pontuado por uma trilha sonora composta por canções escritas por ele ou então musicadas por Capiba ou Antônio Madureira a partir de seus versos, como Manhã de Tecelã, A Mesma Rosa Amarela e Desmantelo Azul.

  Gravado em tecnologia digital e editado em quatro dias nos laboratórios da Unicap, o vídeo Pena tem conteúdo e qualidade para ser exibido em festivais de gênero do País, apreciado por fãs do poeta ou da linguagem documental ou ainda tomado como objeto de estudo. A última opção se materializou: as recém-formadas e já atuantes jornalistas receberam um convite de um professor da Faculdade de Filosofia do Recife para usar o vídeo em sala de aula. As outras, com certeza, virão em seguida.

  O trio pretende inscrever o documentário em mostras e apresentar a obra e a vida de um pernambucano ignorado pela geração mais jovem. "Tem gente da nossa idade que nunca ouviu falar dele", aponta Milena Vital. Felizmente, ela, Juliana Aragão e Anneliese Pires não fazem parte desse contingente.

Serviço

Lançamento do vídeo Pena, de Anneliese Pires, Juliana Aragão e Milena Vital

Onde: Sala João Cardoso Ayres da Fundação Joaquim Nabuco (rua Henrique Dias, 609, Derby)

Quando: Hoje, a partir das 19h

Quanto: Entrada franca

Informações: 3421.3266








 

 
 
Sua Opinião


Copyright 2001 - Pernambuco.com

Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização.
diario@dpnet.com.br