Problema do excesso de peso em crianças já é identificado pelo IBGE e preocupa especialistas do País
A desnutrição não é mais o principal problema alimentar que afeta as crianças no País. Agora, grave é o excesso de peso. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que para cada três crianças obesas há duas desnutridas. No Nordeste, de 1975 para cá, houve um aumento no percentual de jovens obesos de 3,9% para 7,3%. As causas para as mudanças são atribuídas, sobretudo, a distúrbios alimentares e diminuição na atividade física. No entanto, fatores genéticos, fisiológicos e psicológicos também são apontados como responsáveis pela geração gorda. É o que explica o pediatra gaúcho Nataniel Viuniski, diretor do Departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso).
O especialista - que está em Pernambuco participando do Endo Recife 2002, encontro de endocrinologistas que termina neste domingo no Summerville Resort, em Muro Alto - relaciona os mais recentes números aos hábitos de consumo dos brasileiros, que passaram a comprar mais produtos calóricos, associados ao sedentarismo e à falta de informação sobre qualidade alimentar. Um levantamento realizado no começo desse ano pelo Instituto Nielsen e pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento confirmam a opinião do médico: o arroz com feijão foi substituído por macarrão instantâneo e carne suína.
Derivados de porco, como salsicha e presunto, faziam parte do cardápio da estudante Kim Parra, 13 anos. A adolescente, que chegou a pesar 77 quilos há um ano resolveu procurar ajuda de um endocrinologista, e hoje, cinco quilos mais magra, controla o que vai à mesa. A mãe, a empresária Carmem Parra, não precisa estimular a filha. "Ela é muito vaidosa e sabe que a mudança trará benefícios. Todo alimento que consome, ela confere quantas calorias tem", conta. A dieta de Kim é complementada com aulas de vôlei e natação. O peso almejado pela jovem, que mede 1,65m, é 65 quilos.
DOENÇAS - O pediatra Viuniski explica que não é só a estética que fica comprometida quando crianças e adolescentes estão comexcesso de peso. O mal pode acarretar doenças geralmente associadas a adultos, como problemas cardiovasculares, hipertensão, diabete e colesterol alto. Este último problema estimulou a comerciante Renata Porpino a levar os dois filhos, César, 11, e Hugo, 9, a um especialista. Com casos de colesterol alto na família e o filho César apresentando sobrepeso, Renata resolveu consultar um endocrinologista. No exame foi constatado taxas gordura elevadas nas artérias. O que Renata não esperava era observar a mesma situação também no filho mais novo, mesmo com a criança estando no peso ideal. Desde então, toda a família mudou os hábitos alimentares: alimentos integrais, molhos sem gordura e muitas frutas e verduras fazem parte do cardápio diário. Sanduíches e pizzas estão liberados apenas nos finais de semana, sem excessos.
FISIOLÓGICOS - As causas para a obesidade em jovens não estão ligadas somente ao insaciável apetite da fase de crescimento. Fatores fisiológicos também podem intervir para o ganho de peso. Quandoa tireóide produz pouco hormônio fazendo com que o ritmo do corpo funcione lentamente, a consequência pode ser o sobrepeso. O problema é denominado hipotireoidismo e é causado pela carência de iodo no organismo, substância presente no sal.
Outro fator que pode acarretar a obesidade é a deficiência de hormônio do crescimento. A baixa produção do hormônio HGH pela hipófise, localizada na base do cérebro, causa acúmulo de gordura no tronco e na barriga. A criança com Síndrome de Braderwils também tem tendência a ganhar peso, sentindo fome intensa. Os portadores da doença têm os pés e as mãos pequenas para a idade. Essas disfunções orgânicas representam 2% das causas da obesidade. O maior percentual fica para fatores hereditários: 80% das crianças com pais obesos apresentam o mesmo perfil. Quando apenas um dos pais é obeso, o percentual cai para 50%.