Edição de Domingo, 30 de Junho de 2002
 

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Opinião

Esquecimento inglês

A conquista do pentacampeonato mundial será um prêmio à corrupção no futebol brasileiro. Com estas palavras o jornal inglês The Guardian abre artigo em seu site na Internet, destacando ser muito melhor para o nosso futebol que o Brasil não ganhe a Copa do Mundo neste domingo. O texto é do jornalista britânico Alex Bellos, correspondente do Guardian no Brasil e autor do livro "Football, the brazilian way of life". Parece até que os ingleses perderam sua fleugma após serem eliminados da Copa pelos brasileiros e agora atacam por setores outros que não as quatro linhas do gramado.

  O que a Imprensa britânica está colocando em evidência é que a conquista do pentacampeonato será um prêmio a uma administração caótica e manchada por denúncias de corrupção. É um ataque ao presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Mas o artigo salienta, ainda, por outras vias, que os maiores perdedores com a vitória do Brasil serão os próprios brasileiros, já que as reformas preconizadas no âmbito futebolístico deverão ser adiadas, esquecidas.

  O texto do Guardian assinala que Ricardo Teixeira se comporta como os ditadores de outros tempos: com arrogância, incompetência e impunidade. Os dirigentes da CBF, de acordo com o autor do texto, não estão interessados em dar bom exemplo ou em ajudar ao País. Eles driblam a lei sem medo da Justiça e, caso a Seleção conquiste o penta, darão esses dribles com mais desenvoltura, esquecendo as reformas na estrutura do nosso futebol, as quais serão colocadas de lado.

  O articulista britânico se esqueceu que não é o presidente da CBF que está suando a camisa em campo. Esqueceu que, hoje, nas quatro linhas do gramado de Yokohama estão homens sérios representando um país, personificando um povo e não um dirigente. A conquista da Copa do Mundo não deverá ser uma prerrogativa para a impunidade desenfreada de determinados cartolas, mas sim, um motivo de recriação de nossa escola futebolística, um motivo de vida, alegria e esperança para milhares de pessoas.

  Mais: por termos um dirigente acusado de desvios de recursos e de corrupção isso não quer dizer que se deva generalizar. O Governo e sua autoridade estão aí para agir contra os especuladores que vivem desmoralizando o futebol nacional, aqui e no Exterior. Nossos cartolas podem estar negativamente em evidência, mas não são eles que vestem a camisa nacional, não são eles que nos honram dentro de campo. Para isso temos Rivaldo, os Ronaldos, o Cafu, o Marcos e demais atletas. E merecemos, com todas as honras, levantar mais uma vez aos céus a Taça do Mundo.

Cristovam Buarque

Ex-governador do Distrito Federal e professor da Unb

Treinados para a indiferença

Se nos tempos de Hitler houvesse televisão em cadeia mundial, ele não teria conseguido manter por tanto tempo campos de concentração, nem fazer o gueto de Varsóvia. A opinião pública teria apoiado a guerra contra o nazismo desde o seu início. A falta de televisão atrasou o enorme esforço feito para barrar o avanço do totalitarismo. Hoje, o Mundo assiste indiferente aos horrores em escala global. Porque vivemos um tempo de indiferença.

  No Oriente Médio há anos assistimos pela televisão ao momento quase exato em que jovens palestinos se suicidam assassinando jovens israelenses e em que soldados israelenses se embrutecem matando jovens palestinos.Cada qual dizendo defender sua própria terra, eles sacrificam e se sacrificam, diante da indiferença do Mundo. Porque o Mundo vem treinando há décadas para ficar indiferente.

  O terror deve ser interrompido não apenas em defesa da vida de suas vítimas, mas em defesa também dos próprios jovens que se suicidam matando; a brutalidade dos soldados deve também ser interrompida, não apenas em defesa de suas vítimas, mas também dos próprios soldados,que ficarão para sempre embrutecidos pela ação violenta que hoje praticam.

  Mas o Mundo assiste ao martírio dos inocentes cujo único erro foi estar em um café no momento em que ali explode uma bomba que eles não esperavam, ou o martírio do terrorista que deliberadamente explode a bomba em seu próprio corpo; ou do jovem palestino vítima de um tiro do soldado israelense; ou o sofrimento do próprio soldado com o corpo protegido dentro de um tanque monumental, mas o espírito vitimado pelas maldades que lhe mandaram executar.

  Vivemos um Mundo onde todos são vítimas, sem uma indignação que faça parar a tragédia. E assistimos em cadeia nacional às explosões, aos tiros, às mortes, porque fomos treinados para isso.

  Há décadas assistimos às imagens de crianças morrendo de fome, em um Mundo com excedente de alimentos; assistimos a milhões morrendo de Aids, quando a ciência já oferece coquetéis salvadores; vemos crianças trabalhando, adultos desempregados, famílias em atendimento médico, tudo diante da indiferença. Um Mundo que tem quase US$ 40 trilhões de renda mundial concentrada em poucos países, obriga os povos pobres a pagar US$ 300 bilhões por ano de serviço da dívida, quando apenas 0,1% da renda total seria suficiente para abolir o trabalho infantil, levando 250 milhões de crianças para a escola. Tudo isso diante da indiferença dos governos, dos organismos internacionais e da opinião pública.

  Diferentemente da inocente população dos tempos do nazismo, que não sabia o que acontecia, a população mundial de hoje não pode dizer que desconhece a realidade. Ela assiste à tragédia em cadeia mundial de televisão.

  Há cinqüenta anos, as fotos em branco e preto dos campos de concentração nazistas horrorizaram o Mundo, quando publicadas em revistas, anos depois de terem acontecido. Hoje, assistimos ao vivo e em cores, pela televisão, a cenas ainda mais dramáticas de campos de concentração da modernidade,sem cercas, nem guardas,sem totalitarismo, nas estepes africanas ou na periferia das grandes cidades de qualquer país. E pouco se vê do horror ou indignação.

  Os filmes sobre o gueto de Varsóvia nos chocam até hoje, mas não nos chocam as cenas reais transmitidas pela televisão dos modernos guetos que são as favelas dos pobres excluídos, não importa a cidade do Mundo onde estejam. Porque, banalizando a tragédia, treinamos para a indiferença e endurecemos nossos corações.

  A modernidade da globalização espalhou pelo Mundo campos de concentração e guetos,sem preconceitos étnicos,sem opção política,sem necessidade de totalitarismo, acobertados pela indiferença que domina nossos tempos.

  Dentro de décadas,quando escreverem a História de nosso tempo, não será o avanço técnico nem a riqueza que definirão nossa era. Também não poderá ser a pobreza, porque ela é apenas uma parte da nossa realidade. Os historiadores terão de encontrar uma expressão que indique ao mesmo tempo a riqueza e a pobreza, a democracia e os campos de concentração da modernidade, oavanço técnico e os guetos modernos. O nome mais apropriado para nossa era será: tempo de indiferença.

  Hoje, vivemos na indiferença diante de todas as formas de perversão que caracterizam a sociedade moderna, na sua extrema riqueza e extrema pobreza, na sua possibilidade de paz e sua realidade de guerra, no seu excedente e sua escassez. Um tempo de indiferença diante dos destinos de crianças que trabalham,de adultos que não têm trabalho, de famílias sem terra, sem teto, sem esperança.

  Se nos olhassem desde onde estão, os habitantes dos anos 30 e 40 teriam vergonha da nossa desumanidade. Porque eles não foram treinados para a indiferença, como nós estamos sendo,diariamente, a cada dia, diante da televisão que nos mostra os horrores que, de tão vistos, deixam de incomodar.

Ronildo Maia Leite

Jornalista e diretor do Arquivo Público Estadual

Bom-dia, Recife

Alguns fatos desta Copa do Mundo me chamaram atenção. Um deles é de arrepiar os cabelos da venta: a cidade japonesa de Kode, onde o Brasil jogou com a Bélgica, foi destruída por um terremoto em 1995. Pra quem está do lado de cá, a impressão era a de que o territoriozinho japonês ficaria arrasado pelo resto dos tempos. Principal centro de equipamentos eletrônicos, no caso a fabricação de "chips", Kode ficou fora do Mundo, mas não foi por tanto tempo assim.

  Em sete anos apenas, como está a cidade japonesa, reconstruída em cima de 5 mil e 500 mortos e prejuízos de 100 bilhões de dólares? Quem acompanhou os jogos pela TV - além do Brasil, participaram as seleções da Suécia, Nigéria, Rússia e Tunísia - deu para ver em que dá a boa vontade dos homens: Kode é novamente o maior centro de equipamentos eletrônicos do Mundo.

  Nada resta do antigo porto destruído no cataclismo. Um novo foi reconstruído, onde está um museu com a guarda de numerosos testemunhos materiais dos tempos em que o mundo desabou e saiu engolindo tudo o que era de gente, de céu e de terra e o que houvesse por perto - castigo divino ou resposta à Terra pelo mal comportamento humano, como se dizia antigamente. Além do mais, ainda se dá ao luxo de construir uma estátua para homenagear o movimento migratório japonês. Na sacada do farol, uma cor roxa que se estende sobre a grande extensão do oceano.

  "Recorda a época em que homens, mulheres e crianças partiram rumo ao desconhecido, seguindo a rota de outros compatriotas. A estátua representa um casal e um filho, assinalando uns aos outros através do oceano", foi o que me disse o jornalista Paulo Takahashi. Foi de lá, que partiu, em 1908, o barco Kasato Manu que transportou pro Brasil os primeiros migrantes japoneses pra chegar ao porto de Santos.

  Kode é Kode, o Brasil é do cadê tu, camaradas?

  Noutra copa, a de 1970, que a História registra como os "anos de chumbo", em pleno governo Médici, foram iniciadas as obras de construção da Transamazônica. Passados 32 anos - eu escrevi 32, entenderam? -,como estão as obras e quando será inaugurada a importante rodovia?

  O governo de Jarbas Vasconcelos inaugura boa parte da BR-232, sem dúvida um projeto que desafia os pernambucanos há mais de 50 anos. Coisa igual só se viu na época de Agamenon Magalhães, em 1950.

  Por sinal, o ano de 1950 é o ano da quarta Copa do Mundo, realizada no Brasil, uma das chaves disputada aqui no Recife. Em 1950, se iniciava a chamada "guerra fria", russos e norte-americanos brigando pra tomar conta da península da Coréia, dividindo o Mundo a partir do paralelo 38. A Coréia não estava, nem podia, inscrita no torneio internacional. Convocados 20 mil brasileiros pra enfrentar as nuvens de gafanhoto e abelhas contra as bombas de napalm.

  A guerra da morrrinha não tinha nada de fria: as tropas de ocupação tiveram 118.515 mortos, dos quais 60 mil sul-coreanos, 33.729 americanos e 4.786 de outras nacionalidades. Mais de 265 mil feridos. Não existem estatísticas oficiais, mas se estima em um milhão e 600 mil feridos o número de baixasentre coreanos e chineses. Segundo a Internet, calculou-se ainda que morreram cerca de 3 milhões de civis norte-coreanos e 500 mil sul-coreanos.

  Hoje, a paisagem da península oferece uma vista espetacular, com montanhas cobertas de neblina e vales pacíficos. Os oceanos que a cercam constituem fonte dos meios de vida e lazer. São abençoados, todos eles do norte e do sul, com 3 mil ilhas. Transformaram 36 quilômetros do rio Amnokgang num complexo de lazer, com esportes aquáticos e parques de diversões.

  E não se espantem: 27 milhões telefones celulares, 19 milhões de internautas. Em agosto do ano passado, as duas orquestras sinfônicas das duas Coréias realizaram concerto em conjunto. Um filme sul-coreano foi apresentado no norte. Ano passado, uma companhia teatral sul-coreana apresentou uma ópera clássica, dois meses depois a cantora popular sul-coreana Kim Yeon-já realizou "show" em Hamhun, Coréia do Norte. Celebraram juntos o dia de nascimento de Buda.

  "Nunca mais haverá guerra entre nós", foi o que decidiram o presidente Kim Dacjung e o líder norte-coreano Kim Jong-il.

  Seja feita a vossa vontade, aqui na terra como no Céu, onde estão bem juntinhos Jesus e Buda. Para lá deveríamos mandar o nosso FHC, anel de ouro em economia e diploma de guerra contra a ditadura nos tempos de Médici?

  E o nosso João Paulo e os que passaram pela Prefeitura do Recife. Aqui a gente tem de tudo, gente que acaba com tudo em menos de dois anos de mandato, feito fez o nosso biônico Augusto Lucena, construindo uma avenida que não leva a canto nenhum, como a Dantas Barreto.

  E o que nos resta, a nós aqui no Recife, igualmente banhada de águas e cercada de altos que nem os de lá. Um exemplo só e basta: em menos de uma semana, o cais José Estelita desapareceu, derrubaram os postes de luz. Tem jeito uma lorota dessas, camaradas?...








 

 
 
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