Edição de Domingo, 30 de Junho de 2002
 
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Entrevista : Martha Ramirez

"Denunciar crimes é uma obrigação moral"

Pergunta - Como é largar um cargo seguro, tranqüilo e de prestígio como o de embaixadora em Paris e voltar para Bogotá?

Martha Ramirez - Estive trabalhando na Colômbia até há pouco tempo como ministra do Comércio Exterior e nunca senti que deixei de viver lá. Analisei com toda a serenidade e sinto simplesmente que não perdoaria a mim mesma se me recusasse a trabalhar pela Colômbia neste momento. Sem dúvida é a pasta mais difícil do Governo, mas é de que depende em maior grau o futuro dos colombianos.

Pergunta - Sua formação é de economia e suas atividades sempre giraram no mundo dos negócios e no comércio exterior. Por que agora essa missão na Defesa?

Ramirez - Realmente, não há um tema mais importante na Colômbia atualmente do que a segurança e a defesa dos colombianos frente a toda essa violência promovida pelos grupos armados à margem da lei. Este é o momento em que o país tem que desenvolver uma estratégia que nos assegure que, apesar dos ataques contra a sociedade civil, consigamos defender a democraciae a institucionalidade na Colômbia. Temos que fazer com que o Exército e a polícia colombiana cumpra seu dever constitucional de garantia da vida. Para isso se requer estratégia, planejamento e um bom gerenciamento. Um país em conflito necessita de mecanismos que lhe permitam um manejo eficiente dos recursos econômicos, humanos e técnicos das forças de segurança. Esse meu conhecimento do mundo dos negócios e da estratégia empresarial motivaram o presidente eleito Álvaro Uribe a pensar em meu nome para a pasta.

Pergunta - Como será a sua postura em relação às Farc: vai negociar ou entrar em confronto?

Ramirez - Não há posturas pessoais em relação a esse assunto, há posições de Estado. A postura do atual governo Andrés Pastrana é não continuar as negociações com as Farc. Não podemos esquecer que as Farc seqüestraram vários deputados, senadores, governadores, uma candidata a presidente da República (Ingrid Betancourt) e, recentemente, exigiu a renúncia de alguns prefeitos. E Uribe também deixou claro que um processo de paz nessas condições não pode continuar. Qualquer avanço está condicionado ao comportamento das Farc.

Pergunta - Como, então conseguir a paz?

Ramirez - Estamos conscientes que para ter paz temos que trabalhar em duas estratégia distintas, mas complementares. Uma é fortalecer as Forças Armadas e a política. A outra é a estratégia política. Mas o diálogo político é impossível devido ao atual comportamento das guerrilhas.

Pergunta - O presidente eleito Uribe afirmou que vai aumentar o efetivo do Exército e convocar um milhão de "civis vigilantes", que as Farc qualificaram como "um milhão de novos alvos"...

Ramirez - Necessitamos de mais soldados profissionais na Colômbia. Por essa razão, Pastrana aumentou em quatro anos o efetivo de 20 mil para 55 mil soldados. A meta do novo presidente é ter 100 mil soldados ao fim dos próximos quatro anos. Quanto aos civis, Uribe mencionou um milhão, mas eu penso diferente: são 42 milhões de colombianos que serão os soldados da paz contra uma guerra sem quartéis promovida pelas guerrilhas.

Pergunta - Mas como fazer isso com uma população aterrorizada?

Ramirez - Em qualquer país civilizado, quando alguém vê um crime, um delito, informa às autoridades, é o normal, uma obrigação moral. Nós propomos aos colombianos, desafortunadamente aterrorizados, que deixem a atitude passiva, desenvolvendo vários mecanismos de trabalho, novas formas de comunicação. O objetivo é aumentar a presença do Estado no país e, dessa maneira, permitir que os cidadãos ao redor dessas instituições possam atuar, informar.

Pergunta - Como a senhora vê as relações com o Brasil, país que é rota do tráfico de drogas e com o qual a Colômbia possui a complicada fronteira amazônica?

Ramirez - Temos que levar em conta que nossa relação tem que ser geopolítica e o Brasil neste sentido tem sido um sócio importante. Nossos governos estão trabalhando conjuntamente para melhorar as condições de vigilância de fronteiras. Mas nossa grande arma deve ser a Junta Interamericana de Defesa, formada por todos os ministros dessa pasta no Continente, cuja próxima reunião será em novembro no Chile. É ali que temos que tomar decisões pata impedir que a guerrilha se espalhe pela Colômbia e pelos países vizinhos.

Pergunta - Existe um poder paralelo na Colômbia? Pode-se falar em guerra civil?

Ramirez - Não há guerra civil, que acontece apenas quando há dois grupos se enfrentando no país. A população civil está toda de um lado, o das instituições, da polícia e das Forças Armadas. O que acontece é que os grupos fora da lei são minoritários mas têm uma grande capacidade de dano. Por isso, há a sensação de que a Colômbia é um país em guerra.

Pergunta - No Brasil, quando se fala de um futuro pessimista, fala-se que o país estaria se transformando numa Colômbia. O que acha disso?

Ramirez - Na Colômbia o negócio do narcotráfico começou a ser gestado quando ia se extinguindo em outros países, como o Peru e a Bolívia. As ações contra as plantações começaram a dar resultado naqueles países e nós não estávamos suficientemente alertas. Pensávamos que era um problema menor, que não comprometeria nossas instituições. Cometemos um erro. Por isso é tão importante que um país fique alerta para o início desse processo. Durante uma época na Colômbia havia contrabando de cigarros na Costa Atlântica e ninguém ligava, era apenas contrabando. Mas já era lavagem de dinheiro do narcotráfico.


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