Edição de Terça-Feira, 25 de Junho de 2002
 
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Retorno depois de 17 anos

Suzana Amaral levou dezessete anos para voltar a um set de filmagens. E, assim como em A Hora da Estrela, baseado no romance homônimo de Clarice Lispector, escolheu uma personagem feminina e um ponto de partida literário para rodar Uma Vida em Segredo, adaptação cinematográfica do livro de Autran Dourada exibida no sábado para quase mil pessoas no cinema São Luiz em sua segunda participação em festivais nacionais - a primeira foi em Brasília, há sete meses.

  No filme, Biela (Sabrina Greve) é uma jovem e ensimesmada filha de fazendeiro que é "adotada", por assim dizer, pelos primos após a morte dos pais. Na nova casa, se vê obrigada pelos novos parentes a adotar um novo ritmo de vida e um novo padrão de comportamento mais condizente com sua posição social - afinal, ela é herdeira de alguns milhões de contos de réis e de centenas de cabeças de gado.

  Assim como encontrou uma protagonista quase desconhecida (Sabrina atua há seis anos no Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, mas nunca havia feito cinema ou televisão), Suzana se cercou de atrizes de rostos conhecidos da telinha, como Eliane Giardini e Neuza Borges. Neuza, aliás, reconhece a importância da diretora no seu sucesso atual pós-O Clone. "Eu estava esquecida, morando em Salvador, quando fui chamada pela Suzana. Acho até que fiz a Dalva tão bem por causa desse laboratório que foi trabalhar com ela", conta a atriz, que interpreta a empregada Joviana.

  Sabrina, por sua vez, se define como uma "marinheira de primeira viagem" que embarcou na jornada após conversar com a produtora Assunção Hernandez e conhecer a obra de Dourado. Nas sete semanas de filmagens, realizadas em 2000, ela e Suzana estabeleceram uma cumplicidade descrita pela atriz de 24 anos como fundamental. "Quando nos encontramos, parecia que a gente já se conhecia antes", lembra. "Ela me disse para não se preocupar com a maneira de falar nem com a composição da Biela, que surgiria naturalmente. E eu, que fiquei um pouco espantada com a aparelhagem toda do cinema, não quis ver nada, copião ou vídeoassist", complementa.

  Dessa forma, Suzana Amaral extraiu da jovem atriz uma performance condizente com o espírito do filme introspectivo, pungente e intimista. Sabrina transmite com o olhar as agruras de Biela, que confronta o mundo que lhe é imposto. Uma Vida em Segredo é sobre esse embate entre uma estranha e as estranhezas que ela causa na família que a acolhe. É, também, um estudo da personagem Biela, figura feminina tão forte e incomum como a Macabéia de A Hora da Estrela. "Ela é absolutamente honesta e corajosa em dizer não aos valores", resume a atriz.

  Assim como a diretora, que, aos 71 anos, também confronta os valores do cinema brasileiro atual. Para ela, que na entrevista coletiva foi categórica em dizer que a produção nacional está contaminada pelo imperialismo americano, a estética televisiva impera no Brasil e afasta o público de filmes como o seu. "É um filme devagar, mais lento, meio sonhado e com um ritmo diferente. Se fosse feito para televisão, seria zero, por exemplo", argumenta Suzana Amaral, que já se articula para viabilizar seu próximo projeto Hotel Atlântico, com argumento de João Gilberto Noll e Paulo Miklos no elenco enquanto acompanha Uma Vida em Segredo para festivais em Moscou e Munique. Que, em sua opinião, representa um crescimento na carreira. "É melhor do A Hora da Estrela. É mais maduro", conclui.


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