Festival teve início na sexta e leva a Fortaleza grande número de artistas e realizadores de cinema
Luciana Veras
Enviada especial
FORTALEZA - Que São João que nada! O que movimentou Fortaleza nesse fim de semana teoricamente destinado às comemorações juninas foi o fluxo de artistas, realizadores e filmes do XII Cine Ceará. Nos três primeiros dias, o festival levou três mil espectadores ao São Luiz, sede da mostra competitiva, e centenas a outras salas que abrigavam exibições paralelas, como as retrospectivas da obra de Roberto Farias e de clássicos da Cinédia. Talvez tenha sido coincidência ou então uma esperta estratégia dos organizadores. Em todo caso, montar uma programação interessante no início serviu para atrair a atenção dos espectadores e garantir um bom começo, desde a singela homenagem à escritora Rachel de Queiroz, recebida pelo sobrinho-neto e pela irmã, às exibições que mapeiam a produção cinematográfica recente - entre elas, um autêntico filme mudo.
Festa de Margarete, que abriu o Cine Ceará na sexta, vai na contramão de tudo que tem sido rodado no País. Não bastasse a ausência de diálogos, o longa-metragem do gaúcho Renato Falcão foi rodado em preto e branco e com atores desconhecidos. Em noventa minutos captados em Super 16 mm, conta a história de um pobre trapalhão (Hique Goméz, também responsável pela trilha sonora) que resolve, a todo custo, bancar uma comemoração de aniversário para a esposa. O roteiro, diz Falcão, nasceu de um sonho. Radicado nos Estados Unidos e especializado em direção de fotografia, ele angariou US$ 200 mil e se esforçou para concretizá-lo, mesmo sabendo que se trata de "um filme difícil" para os padrões tupiniquins. "Não tenho ilusões. Sei que é um filme em p&b e artesanal, e não tenho expectativa, mas fiquei muito satisfeito com a primeira exibição no Brasil", afirma.
Antes, o longa havia sido mostrado no Havana Film Festival New York, onde, de acordo com a equipe, a acolhida foi das melhores. E agora, depois das palmas no Cine Ceará, o que resta a Festa de Margarete? Com duas cópias, tem estréia agendada para o dia 5 do próximo mês em Porto Alegre. Depois, deve percorrer, aos poucos, o circuito Sul/Sudeste. É provável que, não fosse o festival, nunca ganharia as telas nordestinas, dada a "dificuldade" inerente ao formato. Mesmo assim, Renato Falcão finca o pé para defender a proposta: "Sempre me irritei com os diálogos brasileiros. As pessoas falavam como se estivessem lendo um papel. Não me considero um roteirista, não tenho formação, mas não me preocupo. Acho que os filmes deveriam ser antes de tudo visuais".
JUVENTUDE - Engraçado que o outro representante da produção gaúcha, Houve Uma Vez Dois Verões (exibido no sábado), não poderia ser mais distinto. Leva a assinatura do diretor e roteirista Jorge Furtado, sinônimo de criatividade e competência em curtas como Ilha das Flores e programas como Brasil Legal e Os Normais e outras parcerias com Guel Arraes, incluindo Caramuru - A Invenção do Brasil - ou seja, traz um roteiro ágil, bem escrito e declamado por um trio de jovens e desconhecidos atores.
Furtado chega em Fortaleza amparado em dados: há dez semanas, Houve Uma Vez... (título surrupiadode Houve Uma Vez Um Verão - Summer of 42 - de Robert Mulligan) está em cartaz na capital gaúcha. Já fez, segundo suas contas, trinta mil espectadores com sete cópias. Nada mal para um legítimo filho da tecnologia digital, gravado em 23 dias a um custo de R$ 790 mil, cuja trama relata idas e vindas de três adolescentes, Chico (André Arteche), Juca (Pedro Furtado, filho do diretor) e Roza (Ana Maria Mainieri, de Tolerância), com sexo e amor. "É um filme adolescente mas não é um filme idiota", define Jorge.
Foi exatamente esse o espírito da projeção da película no lendário cine São Luiz. A platéia, longe de se importar com a fotografia de "suja" definição, se divertiu às pampas com as desventuras de "um Romeu apaixonado por uma Lady Macbeth e amigo de Fausto", como sintetiza o diretor, que escreveu o roteiro após perceber que o filho mais velho não tinha o que encenar nas aulas de dramaturgia na escola. "É um romântico apaixonado por uma mulher de negócios e amigo de um cínico. Eu sabia que esses seriam meus personagens e que a trama teria três atos e que a virada é a menina dizer que está grávida", completa Furtado.
Mas nada de dizer muito sobre a trama - até porque é de se supor que a Columbia Pictures, distribuidora do longa, inclua o Recife na rota de divulgação. Basta dizer que foi dela a maior ovação do Cine Ceará até agora - e olhe que no domingo foi projetado As Três Marias, de Aluízio Abranches, com a presença de Carlos Vereza, Julia Lemmertz e Tuca Andrada. Jorge Furtado, na tão esperada estréia como diretor de longas, estabeleceu uma comunicação direta com o público lançando mão de sua principal qualidade: a de criar e agrupar diálogos e seqüências que juntos formam uma narrativa simples, coesa e de extrema eficácia. O mesmo que se deve esperar de O Homem que Copiava, segundo filme dele, com lançamento agendado para o segundo semestre.
A repórter viajou a convite do Festival