Micheliny Verunschk
O Livro
Havia de encontrar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda
teu rosto:
outonos e infernos
esquecidos
entre páginas amareladas
e a dor, essa inútil traça.
Inventário
O armário
esconde coisas insuspeitadas:
sol
nudez
tintas
- esta coleção de peças íntimas.
O armário esconde ideogramas
e sedas chinesas
e, num canto escuro,
uma letra.
Rápido Monólogo do Caçador com sua Caça
Trago
pardos
os olhos
de cobiça
que atiro sobre ti,
teu verbo/teu sexo:
tua presa de marfim.
De Geografia Íntima do Deserto
- A Presença Dolorosa do Deserto
Teu nome é meu deserto
e posso senti-lo
incrustado
no meu próprio território
como uma pérola
ou um gesto no vazio
como o amargo azul
e tudo quanto há de ilusório.
Teu nome é meu deserto
e ele é tão vasto
seus dentes tão agudos
seus sóis raivosos
e suas letras
(setas de ouro e prata
nos meus lábios)
são o meu terço
de mistérios dolorosos.
Da Rotina
Varrer o dia de ontem
que ainda resta pela sala,
o dia que persiste,
quase invisível,
pelo chão,
nos objetos,
sobre os móveis da sala.
Varrer amanhã,
o pó de hoje.
Varrer.
Varrer hoje.
(E domingo
quebrar nos dentes
o copo
e sua água de vidro.
Segunda,
não esquecer:
varrer todos os vestígios.)
Serviço
Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil, de Claudio Daniel e Frederico Barbosa (org.)
Editora: Landy (348 pp.)
Informações: (11) 3088-4776 ou www.landy.com.br