Edição de Terça-Feira, 25 de Junho de 2002
 
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Micheliny Verunschk

O Livro

Havia de encontrar

alguma velha ferida

e nela, supurando ainda

teu rosto:

outonos e infernos

esquecidos

entre páginas amareladas

e a dor, essa inútil traça.

Inventário

O armário

esconde coisas insuspeitadas:

sol

nudez

tintas

- esta coleção de peças íntimas.

O armário esconde ideogramas

e sedas chinesas

e, num canto escuro,

uma letra.

Rápido Monólogo do Caçador com sua Caça

Trago

pardos

os olhos

de cobiça

que atiro sobre ti,

teu verbo/teu sexo:

tua presa de marfim.

De Geografia Íntima do Deserto

- A Presença Dolorosa do Deserto

Teu nome é meu deserto

e posso senti-lo

incrustado

no meu próprio território

como uma pérola

ou um gesto no vazio

como o amargo azul

e tudo quanto há de ilusório.

Teu nome é meu deserto

e ele é tão vasto

seus dentes tão agudos

seus sóis raivosos

e suas letras

(setas de ouro e prata

nos meus lábios)

são o meu terço

de mistérios dolorosos.

Da Rotina

Varrer o dia de ontem

que ainda resta pela sala,

o dia que persiste,

quase invisível,

pelo chão,

nos objetos,

sobre os móveis da sala.

Varrer amanhã,

o pó de hoje.

Varrer.

Varrer hoje.

(E domingo

quebrar nos dentes

o copo

e sua água de vidro.

Segunda,

não esquecer:

varrer todos os vestígios.)

Serviço

Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil, de Claudio Daniel e Frederico Barbosa (org.)

Editora: Landy (348 pp.)

Informações: (11) 3088-4776 ou www.landy.com.br


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