"Escrever é tudo o que posso fazer"
Micheliny Verunschk, 28 anos, professora de História em Arcoverde (Sertão de Pernambuco) é poetisa quase totalmente inédita e desconhecida no Recife. Mas com textos publicados em sites na internet, como o Jornal de Poesia e Le Mangue, e nas revistas Cult e Poesia Sempre, despertou a atenção do poeta e professor de literatura, Frederico Barbosa. Foi a única voz da nova geração pernambucana a estar na antologia de 46 poetas que ele organizou com Claudio Daniel. Nesta entrevista, a autora fala das suas motivações literárias e seu compromisso vital com a poesia.
Diario de Pernambuco - Cecilia Meirelles, em poema famoso, diz que canta por que o instante existe. E você, por que escreve?
Micheliny Verunschk - Escrevo porque é o melhor e tudo que posso fazer. Literalmente, eu não viveria sem escrever.
DP - Para que poesia em tempo de crise?
Verunschk - A poesia oferece respostas para muitas angústias do ser humano, engendrando outros questionamentos. Algo paradoxal, próximo da filosofia, mas acredito que muitomaior que ela.
DP - Nos últimos anos, têm aparecido muitas antologias de poesia. Agora você é incluída numa delas, e justo numa que glorifica a chamada poesia de invenção. Que tipo de invenção faz a sua poesia?
Verunschk - Acredito que a imagem é a grande força da minha poesia. Gosto de subverter as imagens, dar-lhes outros significados. É algo como criar o seu próprio dicionário.
DP - Fala-se muito em poesia feminina. Acredita no gênero?
Verunschk - Não, embora ache que há muito poeta por aí que faz gênero e insista em lugares-comuns para enquadrar a poesia. É muito chato esse negócio de poesia feminina, poesia engajada, etc. A poesia é muito maior que esses rótulos.
DP - Quais os poetas de que mais gosta? Que influência eles exercem sobre você?
Verunschk - Gosto de João Cabral, Carlos Drummond, Ezra Pound, Geraldino Brasil, Orides Fontella, citando aqui só os mortos. Acho que a maior influência que exercem sobre mim é a respeito do rigor na criação. Como leitora sinto na pele e na alma a seriedade e honestidade na feitura de cada poema desses mestres, então como alguém que lida com a poesia eu não posso exigir de mim menos rigor. O resultado é que nem sempre chega aos pés do que quero ou do que exijo de mim.
DP - Acredita na inspiração?
Verunschk - Acredito na elaboração. Um poema pode estar se gestando há anos e um dia ele chega até o papel como se fosse de uma tacada só. Aí muitos dirão que é inspiração, mas, que nada, ele já estava sendo feito há muito tempo.
DP - João cabral matou o lirismo, os concretistas sepultaram o verso. A sua poesia continua a cultivar os dois. De que espécie de lirismo é o seu, o da libertação a que se referiu Manuel Bandeira?
Verunschk - Talvez seja mesmo o da libertação. Quero a liberdade de escrever o que quiser na forma que quiser. Toda receita exige a criatividade do chef, seu tempero.
DP - Poesia é jogo de paciência ou de palavra cruzada?
Verunschk - Poesia é cubo mágico. Lembra daqueles cubos que você fica armando até que as cores todas se encontrem em todas asfaces? Pois é, poesia é isso para mim e o grande barato é que nem sempre dá pra montar e vencer o cubo. Acho que há um certo misticismo nisso, que alguns podem chamar de engenharia.
DP - Que influência exerce no seu trabalho de poesia a música popular brasileira? E o rap e o rock?
Verunschk - Acho que antigamente a MPB exercia uma influência mínima na minha poesia, hoje não exerce influência nenhuma. Em geral, é muito ruim o que se produz em MPB no Brasil. É interessante você me perguntar também sobre rap e rock, pois só agora é que tenho me aproximado desses ritmos, conheci Nirvana com um atraso de dez anos. Estou gostando muito dessa incursão, mas não saberia dizer se exercem ou exercerão alguma influência.