Edição de Terça-Feira, 25 de Junho de 2002
 

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Opinião

Nação armada

Os números oficiais assustam. Os crimes por armas de fogo estão respondendo por mais mortes violentas que facadas, pauladas, estrangulamentos, capotagens e batidas de carro. Em todo o Brasil, a percentagem atinge 68,3%. Em estudo da Organização Mundial da Saúde, nosso País ocupa triste primeiro lugar entre os 49 países cuja população mais se dizima com revólveres, pistolas, espingardas, rifles, garruchas.

  Por trás das frias cifras, escondem-se duras realidades. As maiores vítimas das balas são jovens entre 15 e 24 anos. No ano passado, 47% dos óbitos atingiram rapazes e moças nessa faixa etária. Banalizou-se o uso de armas. Com elas, os moços têm a falsa impressão de poder. Sentem-se valorizados perante a turma. Ganham status. Muitos recebem dinheiro com o comércio ilegal. O resultado mostra que a pistola ou o revólver é o algoz do portador.

  O cidadão, aterrorizado com o alto índice de criminalidade, pensa que a posse de armamento em casa lhe dará segurança. Estudos comprovam que essa crença constitui grande falácia. As pessoas compram armas para se defender de bandidos. Mas uma arma de fogo guardada tem probabilidade muito maior de matar alguém da família que o marginal.

  A relação é 22 por 1. Em outras palavras: para cada vez que um fora-da-lei é eliminado por uma arma doméstica, há 22 vezes mais chances de um morador da casa perder a vida com o próprio instrumento. As formas variam. As mais comuns são acidente, suicídio, homicídio.

  Mais. A arma concorre mais para a morte do dono que do fora-da-lei. Hoje, o objeto do desejo da maioria dos ladrões deixou de ser tevês, câmeras, videocassetes. Eles buscam revólveres, espingardas, garruchas. E, diante da reação do dono, usam o fruto do roubo para pôr fim à existência do inimigo que têm à frente.

  É justo e humano zelar pela própria vida e pela vida dos familiares. A segurança do cidadão é dever do governo. Mas, na ausência do poder do Estado, o brasileiro tem a ilusão de poder se proteger. Falta-lhe, porém, preparo para o confronto. Ele não domina as técnicas de tocaiar bandido. No confronto, é sempre o perdedor.

FRASES

Felicito os dois: ao que se vai - e agora eu fico na mão dele -, e ao que fica, este ainda está na minha mão.

Fernando Henrique Cardoso, presidente da República, na posse do novo advogado-geral da União e sobre a ida do atual para o STF

Nos dois partidos tem quem quer e quem não quer, mas o PL precisa de unidade e em Pernambuco não haverá problemas.

Marcos de Jesus, deputado (PL), sobre o apoio ao PT seguindo orientação nacional do seu partido

Se for para a promoção do bem comum e para harmonizar capital e trabalho, tudo bem.

Dom Jaime Chemello, presidente da CNBB, sobre a aliança entre o PT e o PL para estas eleições

Meu patrimônio é minha honra e a minha dignidade. Eu não tenho mais nada.

José Dirceu, deputado (PT), defendendo-se das acusações sobre envolvimento em propinas

Artigos

Gol contra

Leonardo Guimarães Neto

ECONOMISTA

De tanto as autoridades econômicas repetirem que os fundamentos da economia brasileira iam bem, o País passou a acreditar que tal afirmação correspondia à verdade dos fatos. Como afirmativas não comprovadas têm pernas curtas, foi suficiente a percepção de que a dívida pública havia alcançado níveis perigosos - 55% do produto em 2002 e possibilidade de iniciar o próximo ano com 60% - além da percepção de que as contas externas, com o fracasso das exportações brasileiras e a aventura da abertura da economia, não fechavam sem a entrada dos capitais especulativos, para que ficasse claro que os fundamentos não passavam de ficção. É neste contexto que tem início o processo eleitoral e que o governo federal, ao perceber que o candidato da situação não caia na simpatia do eleitorado, passou a adotar uma estratégia política extremamente perigosa: a de divulgar que o País poderia se transformar em uma Argentina se o futuro presidente não seguisse o "bom caminho" que o atual governo federal trilhou nesses quase oitos anos. Isto é, se não fosse o candidato da situação. De uma postura na qual se enfatizavam as realizações sociais e econômicas - entre elas à solidez dos fundamentos da economia - passou-se para a estratégia de disseminação do medo e do terror eleitoral, por intermédio de todos os meios de comunicação.

  Diante deste contexto, da postura do Governo federal e, antevendo possibilidades de acumular mais lucros, os especuladores caíram em campo. Passaram a especular no câmbio, a exigir maiores vantagens nos títulos públicos para rolar a nossa pesada dívida pública, a reavaliar o risco-Brasil e, como não poderia deixar de ser, a opinar através dos seus porta-vozes locais - entre outros, as nossas próprias autoridades econômicas - e dos porta-vozes do exterior (os executivos das agências de aplicação e avaliação de risco) sobre a forma como os brasileiros deveriam votar. De todos os pronunciamentos, o mais transparente e que traduz bem o pensamento e a ideologia dos especuladores, foi o de George Soros, ex-patrão do atual presidente do Banco Central brasileiro. Diz Soros com toda polidez, educação e habilidade que adquiriu durante toda sua vida de mega-especulador: "O Brasil está condenado a eleger Serra ou mergulhar no caos ... Os mercados acham que Lula dará o calote e se previnem apostando contra o real. Se Lula vencer, assumirá em condições financeiras tão dramáticas que só lhe restará dar o calote que o mercado previa. No capitalismo global só votam os americanos, os brasileiros não votam". Em resumo, o eleitor brasileiro não conta e o que deve ser considerado é a eleição americana, mesmo que até hoje alguns eleitores não saibam quem, naquele país, ganhou, de fato, as últimas eleições para presidente. Além disso, transformado no grande eleitor, o mercado está dando o recado aos brasileiros - segundo se pode depreender das afirmativas de Soros, do governo federal, dos especuladores e do candidato da situação - de que não pode haver alternância de poder no Brasil e que odestino estabeleceu, para o nosso País, para sempre, a continuidade da dinastia de FHC.

  O que o Governo federal fez, nos anos da sua profícua administração, foi jogar a economia brasileira na arena da instabilidade e da vulnerabilidade e, nos últimos meses, com sua estratégia eleitoral desvairada, alimentar a especulação com afirmativas que desmentem o que dizia sobre os fundamentos, expondo ao mundo a insegurança das autoridades quanto ao futuro do País. O estranho é a sintonia entre os pronunciamentos do governo federal e as afirmações dos especuladores e, mais ainda, a ausência de uma resposta oficial a uma agressão do mega-especulador e a seu evidente desprezo em relação à democracia e a capacidade do povo brasileiro para definir os seus próprios rumos. Em resumo, é difícil saber, nessa história pouco edificante, onde terminam o sistema financ eiro e os especuladores e onde começa o atual Governo federal.

Ferreyra dos Santos: ecos de um centenário

Dagoberto Carvalho Jr.

ESCRITOR

Não me posso queixar de "esquecido" pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. Presidente-fundador da Regional do Piauí, nunca deixei de ser procurado pelos confrades do Recife, quando, anos depois, optei pela cidade, no consentido exílio que, hoje, me habilita a mais assumida pernambucanidade gilbertiana. Que o digam os insistentes convites para voltar aos ñquadros sociaisá, partidos de Reinaldo de Oliveira, Valdênio Porto, Geraldo Távora, Rostand Paraíso e Gentil Porto, entre outros bons amigos. Afazeres profissionais continuam, no entanto, a impedir-me a satisfação de tão boa convivência lítero-social. Foi assim, também, com o centenário Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e com a Academia de Artes e Letras de Pernambuco, entidades em que ocupei, inclusive, cargos de diretoria. Pouco gregário, mantenho-me, apenas, na Academia Piauiense de Letras pelo engodo regimental da imortalidade - e na Sociedade Eça de Queiroz, do Recife, por quase atávico compromisso com o fundador Paulo Cavalcanti e com o decano e presidente de honra, engenheiro Pelópidas Silveira.

  Atenta, a Sobrames volta-me, agora, através de seu presidente nacional, dr. Luiz Alberto Fernandes Soares que, de Porto Alegre, me convoca para a indeclinável e gratificante missão afetiva de lembrar - no centenário de seu nascimento - o inesquecível amigo Luiz Ferreyra dos Santos. Tive essa honra. Fomos amigos mesmo e, de amizade forjada na então Sociedade Brasileira de Escritores Médicos, ao tempo de sua presidência na Diretoria Nacional, quando delegou-me missão pioneira em Teresina e; depois, na Academia de Artes e Letras de Pernambuco, para onde fez questão de chamar-me, tão logo estabeleci-me no Recife. O ilustre pernambucano teve um projeto nacional - quase platônico, à época - para a Sociedade. Poeta, sonhou com regionais em todos os Estados. Conseguiu, por meu intermédio, fundar a regional do Piauí. Um quarto de século passado sobre a aventuraintelectual da juventude, considero que fomos vitoriosos sob a orientação e inspiração do velho Ferreyra dos Santos.

  Aproximamo-nos, socialmente, no Recife, a partir de 1981. Amizade já, agora, de família. Fui assíduo freqüentador dos saraus de sua casa. Primeiro, no Prado; depois, em Piedade. Declamava, com o mesmo entusiasmo da juventude, seus belos poemas que marcaram época na vida boêmia da cidade. Parecia o antigo dândi do footing da Rua Nova, contemporâneo de outro poeta de mesma verve, Austro Costa, coincidentemente patrono da cadeira que ele - Ferreira - me reservou em sua Academia de Artes e Letras que, náoutra coincidência, funcionava na mesma rua Nova, no consistório da matriz de Nossa Senhora da Conceição dos Militares. Eram encontros semanais, de que participava o major Luís Vital Duarte, secretário da Academia e que, invariavelmente, terminavam com vinho português e bacalhau, no Galo de Ouro, tradicional restaurante da vizinha rua Camboa do Carmo.

  Nunca mais esqueci o ritmo de Valsa Verdeou a poesia de Rosa Maria, que o amigo comum, Pelópidas Silveira lembra - sempre - com entusiasmo de admirador, nos nossos encontros ecianos, em seu apartamento da Torre, não muito longe da Imprensadinha, bar de subúrbio e de boêmia, onde tantas vezes estive com Ferreyra dos Santos, a ñmatará saudade de um Recife que não envelhecia com ele.

Por favor, quero votar!

Luís Costa Pinto

JORNALISTA

Vou ao Congresso, perambulo por corredores, fuço comissões, filo cafés em gabinetes e saio impregnado da sensação de que há uma unanimidade sendo construída e tomando conta da atmosfera. Passeio pela Esplanada dos Ministérios, visito gabinetes, converso com um e outro e pressinto que se reafirma a construção dessa visão unânime e unilateral de Mundo.

  Sinto-me enjoado, enjôo cívico. Já assisti a isso, digo a mim mesmo. Depois, decepcionei-me. Telefono para dois amigos. Um, carioca, player do mercado financeiro. O segundo, paulista, editor de revista. A opinião de ambos é a mesma. Confirmam que estou certo. Uma unanimidade se desenha nas nuvens. Por fim, um terceiro amigo, político nordestino, liga e assegura: "Será assim".

  Todos com os quais conversei nos últimos dias se revelaram inseguros em relação ao sucesso do Brasil nos gramados do Oriente. Têm palpites diferentes quanto ao time que subirá mais alto no pódio a ser armado no estádio de Yokohama em 30 de junho. Não, não éem torno da Seleção Brasileira que se constrói a unanimidade. É em torno das urnas, da eleição presidencial deste ano.

  "Toda unanimidade é burra", vaticinou Nelson Rodrigues com precisão de apóstolo evangelista. No vertiginosamente curto espaço de três semanas, o senador José Serra, um dos homens públicos mais preparados do cenário político nacional, deixou de ser lembrado pelos iguais (adversários, rivais ou correligionários) pela inaptidão nata para os jogos da política. Esqueceram sua proverbial falta de traquejo para conviver com as diferenças. Todos - agentes do mercado financeiro, políticos conservadores do PFL do Nordeste, liberais da ala malufista do PPB ou jornalistas da ala que um dia foi qualificada de esquerda festiva - passaram a enaltecer as virtudes de assistir a mais uma eleição sem emoção. A mais uma campanha sem debate. A novo sufocamento do debate em nome da necessidade de "salvar" os fundamentos econômicos do País. Ou seja, parecem pedir mais uma eleição em primeiro turno. E que o eleito- ou nomeado, como preferem - seja o presidenciável tucano.

  Quero votar. Quero decidir meu voto ante o confronto de idéias. Quero enxergar em Serra, em Lula, em Ciro ou em Garotinho a solução para os problemas nacionais. Não quero ser obrigado a resignar-me diante de um projeto embalado a vácuo por um punhado de analistas e enfiado goela abaixo do povo. Projetos assim sempre são submetidos ao Parlamento e aprovados sob o argumento de que são a expressão da vontade nacional. Deixamos que fosse construída a lógica perversa segundo a qual precisamos nos realimentar dessa unanimidade. Agora, começa a ser tarde para sair dela. Então, por que votar? Sinto, infelizmente, que já votaram por mim.

Comentários dos leitores

"Nação Armanda
Muito lúcida a abordagem sobre o tema em questão. Se a sociedade descobir que as ARMAS DE FOGO são mais nocivas do que as drogas e, potanto devem ser caçadas muito mais repressivamente do que elas, poderemos revigorar o nosso sonho de paz. Será que não está faltando à sociedade coragem política para enfrentar a poderosa industria de armas ? Somente a imprensa poderá acordá-la dessa sonolência." Genison Gomes de Meneses, por e-mail.








 

 
 
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