Edição de Terça-Feira, 25 de Junho de 2002
 
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MIRIAM Leitão

Soma dos fatores

E-mail: paneco@oglobo.com.br

O Banco Central informou ao mercado que está recomprando também os títulos mais longos, como o C-Bond. O Tesouro avisou que tem R$ 50 bilhões para a recompra de títulos, se houver dificuldade de rolagem. O PT divulgou seus compromissos com as metas de inflação e de superávit primário. A CNT-Sensus mostrou alta de Serra. Tudo isso junto derrubou o Risco Brasil e o dólar.

  Ontem houve um debate, com cada analista vendo uma razão para a melhora dos indicadores. Na verdade, não foi um motivo, mas todos juntos. E não há qualquer garantia de que continue melhorando. Ontem, o C-Bond subiu 9%. Para a alta, foram fundamentais dois fatos. A reunião telefônica organizada pelo J.P.Morgan e um aviso do UBS de que os preços brasileiros estavam muito baixos. Pelas próprias leis do mercado, depois de uma alta como essa, virá o movimento de "realização de lucros", o que derrubará a cotação do C-bond. Quando cai o papel, automaticamente sobe o Risco Brasil, porque é ele que compõe a cesta dos papéis de mercados emergentes.

  A palavra mais ouvida ontem entre as instituições financeiras sobre o compromisso de Lula com austeridade fiscal e metas de inflação era "ceticismo". Em parte, porque o próprio partido se esforça para desfazer a impressão deixada pela Carta ao Povo Brasileiro. Ontem mesmo, Lula disse que quem está dirigindo o "Titanic" é Fernando Henrique. Ora, como todo mundo já viu o filme e sabe quem morre no final, é natural que todos queiram bote salva-vidas. Imagem infeliz.

  Na Carta, Lula disse que não haverá mudança milagrosa; que a transição tem que ser "lúcida e criteriosa"; que a margem de manobra da política econômica é pequena. Condicionou a queda "sustentada" dos juros à superação da vulnerabilidade externa; prometeu preservar o superávit primário "o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente"; disse que "a estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação são patrimônio dos brasileiros" e que está disposto a conversar com o Governo.

  Claro que disse também que quer "mudar pra valer"; que usará "política alfandegária" entre outros instrumentos para "gerar divisas"; disse que outros países são estáveis e competitivos usando outras alternativas, mas não disse que países são esses. Mas o documento é mais adjetivo quando fala para o público interno e mais objetivo quando fala sobre as questões econômicas. Mesmo assim, algumas declarações tratando essas frases como "concessões" ao mercado só alimentaram as dúvidas. Os princípios da austeridade e da inflação baixa devem ser proclamados porque são bons e universais. Não devem ser concessão, mas convicção. Não há dúvida de que foi um avanço.

  Ontem, na reunião telefônica com o mercado, o diretor Ilan Goldfajn usou este argumento: "o candidato José Serra já disse que manterá os princípios básicos do atual governo e agora temos o candidato de oposição prometendo respeitar as metas fiscais e de inflação". Da reunião telefônica - organizada pelo J.P.Morgan - participaram três diretores do Banco Central e o secretário do Tesouro, Eduardo Guardia. Ilan fez um quadro inicial do Brasil. Beni Parnes, da área externa, falou da recompra de dívida. Disse que a recompra não seria apenas dos títulos a vencer em 2003 e 2004. Poderia recomprar também alguns dos títulos mais longos e mais negociados, como o C-Bond. Disse também que o valor da compra pode superar US$ 3 bilhões.

  Guardia afirmou que, na administração da dívida interna, o Tesouro está tranqüilo porque fez um colchão para resgatar papel caso haja problema de rolagem. Luiz Fernando Figueiredo explicou a troca por papéis mais curtos. Os avisos de "compra" de papéis do Brasil tanto do UBS, quanto do Salomon Smith Barney (que recomendou a compra de ações) ajudaram a melhorar o clima do dia que havia começado péssimo.

  Não há qualquer garantia de que tudo permaneça assim. Este é um tempo de volatilidade e ela vai continuar. O mercado vai viver um dia de cada vez nos próximos meses. Na pesquisa CNT-Sensus, há vários bons dados para o Governo, que vão muito além das intenções de votos no candidato do PSDB. Apesar de o PT ter dito que há uma "poderosa" vontade de encerrar o atual ciclo econômico e político e afirmar que há uma enorme decepção com os resultados do atual modelo, o que se vê na pesquisa é uma robusta resistência da política econômica: só 19,8% dizem que o Real foi ruim, 41,3% dizem que é bom; 42,7% dizem que a vida melhorou nos últimos oito anos e apenas 15,7% dizem que ela piorou; 44,9% poderiam votar no candidato do presidente e o percentual dos que aprovam o governo Fernando Henrique é de 41%. Isso para um governo que está entrando no seu último semestre em oito anos é uma demonstração de força. Isso indica uma disputa muito mais apertada e competitiva entre oposição e Governo nas próximas eleições.

  Ao falar ao mercado, Ilan Goldfajn fez uma lista de boas notícias que andam esquecidas. Lembrou que o câmbio é flutuante - o que reduz a pressão em momentos assim -; que a dívida interna é financiada pela poupança dos brasileiros; que a dívida externa é principalmente privada; que o sistema bancário passou por uma limpeza em 95; que o país não tem problema de arrecadação e que tem apoio externo. O que Ilan não falou, mas ficou implícito, é que em todos estes pontos o Brasil é bem diferente da Argentina.

Apesar de o PT ter dito que há uma "poderosa" vontade de encerrar o atual ciclo econômico e político e afirmar que há uma enorme decepção com os resultados do atual modelo, o que se vê na pesquisa é uma robusta resistência da política econômica

 








 

 
 
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