Edição de Domingo, 16 de Junho de 2002
 

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Opinião

A hora do bom senso

As interferências políticas e comerciais começam a perturbar a concorrência para o fornecimento de aviões de combate supersônicos para a Força Aérea Brasileira (FAB), o chamado Programa F-X. Teoricamente a concorrência visa à compra de apenas 12 caças, no valor de US$ 770 milhões, para substituir os Mirage IIIEBr baseados em Anápolis desde 1972. Em verdade, o aparelho selecionado pelo Programa F-X formará a espinha dorsal da Força Aérea Brasileira pelos próximos 30 anos, mercado potencial superior a 115 unidades nos próximos 15 anos. Por isso, no documento de abertura da licitação, valorizaram-se pontos como transferência tecnológica e possibilidade de o avião escolhido estar em plena produção pelos próximos dez anos.

  Mas um avião de combate não pode operar nos dias de hoje sem um sistema de armas tecnologicamente avançado. O valor previsto no contrato reflete apenas o custo de aquisição dos aparelhos, que necessitam de manutenção, infra-estrutura de solo e armas. Com a inclusão do valor desses equipamentos, deverão ser gastos US$ 2,1 bilhões no projeto. Os gastos se justificam? Sim.   

  As sucessivas crises econômico-financeiras dos últimos 30 anos sacrificaram os planos de reequipamento das Forças Armadas, principalmente os da FAB, colocando até mesmo em risco a vida dos pilotos. A idade média da frota de combate brasileira é superior a 20 anos e começa a sofrer com a falta de peças sobressalentes. A força não opera nenhum tipo de armamento moderno. Seus mísseis ar-ar são ultrapassados e têm alcance de apenas quatro quilômetros - hoje o combate aéreo se faz a uma distância média de 30 quilômetros. Os pilotos militares nacionais dependem de bombas tradicionais e foguetes não-guiados para ataque a alvos terrestres, basicamente a mesma tecnologia usada na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

  Com esses meios, não se pode garantir a soberania do País. O Brasil também não está equipado para atender suas responsabilidades diante de organismos internacionais, como as Nações Unidas, para a realização de missõesde manutenção ou imposição de paz. Os pilotos da FAB e os seus comandantes sabem disso há muito tempo. O Programa F-X, lançado em 1994, foi adiado numerosas vezes até finalmente ser iniciado em 1998. Um atraso de quatro anos. Por isso é importante não haver interferências políticas na decisão da Aeronáutica. O Brasil necessita deter completamente a tecnologia dos aviões e sistemas de armas a serem adquiridos para mantê-los voando com segurança nas próximas três décadas. Trata-se de simples exercício de bom senso. A credibilidade da defesa nacional e a vida de milhares de pilotos militares dependem disso.

País de Rubinhos

Cristovam Buarque

Ex-governador do Distrito Federal e professor da Unb

A população brasileira ficou chocada quando percebeu que o nosso piloto Rubinho Barrichelo pisou no freio. Mas é preciso analisar aquele fato levando em conta dois aspectos: primeiro, que ele não tinha alternativa, porque corre pela Ferrari, não pelo Brasil; segundo, que não é só ele que tem essa dependência, o Mundo global caminha para a internacionalização e a substituição de países por empresas.

  Nesta Copa de 2002, muitos jogadores são contratados por empresas internacionais, só depois são jogadores nacionais. Dentro de algumas décadas, a Copa do Mundo será por empresa. Os jogadores estarão vestindo camisas com os símbolos e as cores dos patrocinadores. E nós reclamamos de Rubinho, que fez apenas um gesto natural da globalização. Ainda mais que nós, brasileiros, há cinco séculos estamos pisando no freio, por determinações externas, perdendo sistematicamente o campeonato da história.

  Nascemos como País pisando no freio. No lugar de dividir a terra brasileira, ocupá-la com famílias e construir nova nação, os portugueses preferiram criar latifúndios, trazer escravos, matar índios e produzir para exportação. Proibiram a produção de qualquer coisa que fizesse concorrência aos europeus, proibiram escolas e universidades, não nos deixaram crescer para dentro, nem para nosso povo.

  Mudaram as formas, mas não o comportamento de pisar no freio. Em 1822 ficamos independentes, mas no lugar de acelerar, criando uma República, elegendo um presidente brasileiro, abolindo a escravidão, fazendo a reforma agrária, preferimos coroar um monarca filho do rei de Portugal, continuar o sistema escravocrata, manter os latifúndios exportadores, adiar qualquer preocupação com a educação de nosso povo.

  Em 1888, libertamos os escravos, mas mantivemos o pé no freio: não lhes demos terra, nem colocamos seus filhos em escolas e continuamos meros exportadores de produtos agrícolas. Um ano depois proclamamos a República, mas a elite brasileira, egoísta e sem patriotismo, continuou pisando no freio, com medo dos ricos estrangeiros edesprezo pelos pobres brasileiros.

  A partir de 1955, esse comportamento continuou de outras formas. Aceleramos na economia, mas não no social, nem no político. Em 1964, quando o Brasil caminhava para as reformas que avançariam no social, preferimos pisar no freio da democracia implantando uma ditadura cujos efeitos continuam: em partidos sem consistência, políticos sem fidelidade, governos corroídos pela corrupção e comprometidos com corporações.

  Fizemos uma modernização freada: sem distribuir a renda, sem investir no social, sem radicalizar na democracia, sem procurar construir a soberania. As últimas décadas, mais do que quaisquer outras, foram de pé no freio por determinações externas e por egoísmo interno das classes média e alta. A elite brasileira, aliada aos interesses externos, fez um país dependente, injusto, desigual, instável, violento, olhando outros países passarem ao lado na corrida da história.

  Somos um País de Rubinhos em um Mundo onde, de vez em quando, o presidente de uma nação ricatem a elegância hipócrita do Schumacher e leva nosso presidente para o jantar, mas guardando o campeonato. Nos deixando com a lembrança de últimos a libertar os escravos ou fazer a reforma agrária, e com o gosto ruim de quem continua pisando no freio, nos indicadores sociais, no tamanho das dívidas, na dependência internacional, no grau de violência, enquanto, em alta velocidade, outros países menores e com menos recursos passam ao lado em direção ao futuro.

Bom-dia, Recife

Ronildo Maia Leite

Jornalista e diretor do Arquivo Público Estadual

Já dizia Renato Carneiro Campos: "A noite do Recife é tão boa que a gente tem de sair com revólver na mão para defendê-la". Na proporção em que expõe e exibe, a madrugada esconde e protege o boêmio como as grandes mães alcoviteiras. Acalenta amores, denga os desesperados. Constrói ambições, destrói necessidades. Dos insípidos faz poetaços, dos intrinsecamente burros, feito eu, o mais brilhante dos papos.

  Cega a todos nós, os boêmios de manga. Especializa equívocos. Quantas mulheres lindas por mim já se apaixonaram e quantas mulheres feias amei. Legaliza conspiradores, inspira desaforos, ameniza desrespeitos, suaviza provocações. Cicatriza ventas quebradas. Escraviza o nada.

  Foi na boca da noite que o cronistíssimo Renato Carneiro Campos encontrou coragem para desafiar o poetiíssimo João Cabral. Ô de Melo Neto, você é um poeta da porra, mas por favor me diga o que pensa da agressão americana aos povos da Ásia... Aqui, ó... Noutro, esculhambou um general, de sobrenome Tavares que eu me lembre, sem que o arrependimento o matasse.

  Foi nos bares, a escola das ruas, onde a esquerda sufocada organizou inteligências pra resistir ao arbítrio. E onde, ainda hoje, se espreme e se esconde na mais desconjuntada burrice.

  De antigo e competente secretário de Estado, sei de histórias muito próprias da noite. Dele se conta: delirante madrugada de antigamente, aí pelos anos pós 64 e nos vastos jardins de um onipotente, todo cercado por altíssimas grades. De pés juntos me jura, como se verdade fosse, o boateiro sacana. Invocando a estrela Dalva como testemunha. Mão no copo, como se na Bíblia fosse.

  Estava o já falado secretário em meio a outros ilibados homens públicos. Tilintintim fazia o gelo no cristal. Bulumbumbum fazia o uísque no seu quengo. Ah... a fantástica visão das madrugadas. De repente, as ditaduras. Soldados na rua. Na sua frente, o amigo - aliás, o gorducho amigo do povo - era um buldôzer. Ele tinha certeza, era uma máquina. Bonitas mulheres sendo presas por horríveis gendarmes. Inocentes democratas naprisão, inclusive ele. Então, ele corre e se abraça nas grades do suntuoso jardim. Liberdade, liberdade, abre o manto sobre mim. Quando acordou, todo mundo sorria. Mas ele ainda amargava todas as ressacas de 64.

  É isso aí. A madrugada constrói as pessoas, ainda que o bar freqüentem as lacraias desesperadas. A boêmia é uma mistura vária. Um divã há de ser sempre a madrugada. Espécie de folguedo? Não, por favor, nada de vilipêndios. Se nela de um tudo cabe, nem de fornicadora do bem e do mal a ela poderíamos chamar.

  Ela constrói pessoas, por favor eu já disse.

  Foi num bar do Recife onde nasceram Luís Bandeira e Sivuca. Onde Rubem Braga arrebentou estilo de crônica nos longínquos anos 30 do século passado. Ali, também vicejaram Antônio Maria, Carlos Pena Filho, Fernando Lobo, Silvino Lopes, Altamiro Cunha. Sem se falar nos Lula Cardoso Ayres, nos Jonas Ferreira Lima e seu violão mágico. Nos Newton Cardoso e seu socialismo pra lá de camarada. Nos Zé Cochicho, tocando piano, acalentando a boêmia as vezes raivosa de Arthur Lima Cavalcanti. Nos Eugênio Coimbra, nos dois Marroquim, Esmaragdo e Murilo. Nos Múcio Borges e nos Antônio Albino, que também é Pinheiro sendo primeiro Marinho para depois ser Falcão. E nos... nos... ah, camaradas, tanta gente que nem me lembro mais... do templo sagrado do Savoy.

  Certo, camaradas. Tudo bem. Isso é coisa do passado. A cidade tem uma nova geografia dos boêmios. O centro virou meleca. Agora, se curte não sei onde. São outros os nossos bares.

  E aí, meu irmão, camarada: aí da cidade que não tem os seus bares, suas esquinas, seus doidos, seus fantasmas. Sobretudo seus boêmios.

  Eu, de minha parte, confesso - sou homem da madrugada. Pois, como estou cansando de afirmar, a mesa do jornal é como a mesa do bar - morre todas as noites. Não vejo cronista, repórter, poeta, artista, ator, produtor teatral e escambais que não seja boêmio.

  A mesa do jornal e a mesa do bar e a mesa dos camarins é a mesa da criação tem lá muita coisas em comum.

  Nos camarins, também o ator se urdetodas as noites num mesmo papel. Sem se repetir, num se morrer diário. Se faz amor nas coxias da noite. É noturna a confecção da crônica, do bar, do teatro, da tela, da tinta. Somos de uma mesma ribalta, o cronista, o boêmio, o ator.

  Toda arte é essencialmente boêmia. A crônica morre ao meio-dia. Não passam da meia-noite a fala e o gesto, a recriação e o brilho do artista.

  O boêmio, todos nós, morre na barra da alvorada. Todas as noites. Fuzilados pelo nascer do sol. Iluminadamente.

Comentário dos leitores

"Dá-lhe Ronildo Maia Leite! Você é como o vinho: quanto mais o tempo passa, mais aguça a sua pena, com a boa prosa no papel. Não conheci pessoalmente todos os que você cita em sua crônica de hoje, mas a convivi com Múcio Borges, Antônio Albino, Arthur Lima Cavalcanti, Jonas Ferreira Lima e Ronaldo Carneiro Campos. Chega, ou quer mais? Faltou aí Ronildo, o dono da noite, ainda hoje!", Flávio Tiné, por e-mail.








 

 
 
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