A hora do bom senso
As interferências políticas e comerciais começam a perturbar
a concorrência para o fornecimento de aviões de combate supersônicos
para a Força Aérea Brasileira (FAB), o chamado Programa F-X. Teoricamente
a concorrência visa à compra de apenas 12 caças, no valor de US$ 770
milhões, para substituir os Mirage IIIEBr baseados em Anápolis desde
1972. Em verdade, o aparelho selecionado pelo Programa F-X formará a
espinha dorsal da Força Aérea Brasileira pelos próximos 30 anos, mercado
potencial superior a 115 unidades nos próximos 15 anos. Por isso, no
documento de abertura da licitação, valorizaram-se pontos como transferência
tecnológica e possibilidade de o avião escolhido estar em plena produção
pelos próximos dez anos.
Mas um avião de combate não pode operar nos dias de hoje sem um sistema
de armas tecnologicamente avançado. O valor previsto no contrato reflete
apenas o custo de aquisição dos aparelhos, que necessitam de manutenção,
infra-estrutura de solo e armas. Com a inclusão do valor desses equipamentos,
deverão ser gastos US$ 2,1 bilhões no projeto. Os gastos se justificam?
Sim.
As sucessivas crises econômico-financeiras dos últimos 30 anos sacrificaram
os planos de reequipamento das Forças Armadas, principalmente os da
FAB, colocando até mesmo em risco a vida dos pilotos. A idade média
da frota de combate brasileira é superior a 20 anos e começa a sofrer
com a falta de peças sobressalentes. A força não opera nenhum tipo de
armamento moderno. Seus mísseis ar-ar são ultrapassados e têm alcance
de apenas quatro quilômetros - hoje o combate aéreo se faz a uma distância
média de 30 quilômetros. Os pilotos militares nacionais dependem de
bombas tradicionais e foguetes não-guiados para ataque a alvos terrestres,
basicamente a mesma tecnologia usada na Itália durante a Segunda Guerra
Mundial.
Com esses meios, não se pode garantir a soberania do País. O Brasil
também não está equipado para atender suas responsabilidades diante
de organismos internacionais, como as Nações Unidas, para a realização
de missõesde manutenção ou imposição de paz. Os pilotos da FAB e os
seus comandantes sabem disso há muito tempo. O Programa F-X, lançado
em 1994, foi adiado numerosas vezes até finalmente ser iniciado em 1998.
Um atraso de quatro anos. Por isso é importante não haver interferências
políticas na decisão da Aeronáutica. O Brasil necessita deter completamente
a tecnologia dos aviões e sistemas de armas a serem adquiridos para
mantê-los voando com segurança nas próximas três décadas. Trata-se de
simples exercício de bom senso. A credibilidade da defesa nacional e
a vida de milhares de pilotos militares dependem disso.
País de Rubinhos
Cristovam Buarque
Ex-governador do Distrito Federal e professor da Unb
A população brasileira ficou chocada quando percebeu que o nosso piloto
Rubinho Barrichelo pisou no freio. Mas é preciso analisar aquele fato
levando em conta dois aspectos: primeiro, que ele não tinha alternativa,
porque corre pela Ferrari, não pelo Brasil; segundo, que não é só ele
que tem essa dependência, o Mundo global caminha para a internacionalização
e a substituição de países por empresas.
Nesta Copa de 2002, muitos jogadores são contratados por empresas
internacionais, só depois são jogadores nacionais. Dentro de algumas
décadas, a Copa do Mundo será por empresa. Os jogadores estarão vestindo
camisas com os símbolos e as cores dos patrocinadores. E nós reclamamos
de Rubinho, que fez apenas um gesto natural da globalização. Ainda mais
que nós, brasileiros, há cinco séculos estamos pisando no freio, por
determinações externas, perdendo sistematicamente o campeonato da história.
Nascemos como País pisando no freio. No lugar de dividir a terra brasileira,
ocupá-la com famílias e construir nova nação, os portugueses preferiram
criar latifúndios, trazer escravos, matar índios e produzir para exportação.
Proibiram a produção de qualquer coisa que fizesse concorrência aos
europeus, proibiram escolas e universidades, não nos deixaram crescer
para dentro, nem para nosso povo.
Mudaram as formas, mas não o comportamento de pisar no freio. Em 1822
ficamos independentes, mas no lugar de acelerar, criando uma República,
elegendo um presidente brasileiro, abolindo a escravidão, fazendo a
reforma agrária, preferimos coroar um monarca filho do rei de Portugal,
continuar o sistema escravocrata, manter os latifúndios exportadores,
adiar qualquer preocupação com a educação de nosso povo.
Em 1888, libertamos os escravos, mas mantivemos o pé no freio: não
lhes demos terra, nem colocamos seus filhos em escolas e continuamos
meros exportadores de produtos agrícolas. Um ano depois proclamamos
a República, mas a elite brasileira, egoísta e sem patriotismo, continuou
pisando no freio, com medo dos ricos estrangeiros edesprezo pelos pobres
brasileiros.
A partir de 1955, esse comportamento continuou de outras formas. Aceleramos
na economia, mas não no social, nem no político. Em 1964, quando o Brasil
caminhava para as reformas que avançariam no social, preferimos pisar
no freio da democracia implantando uma ditadura cujos efeitos continuam:
em partidos sem consistência, políticos sem fidelidade, governos corroídos
pela corrupção e comprometidos com corporações.
Fizemos uma modernização freada: sem distribuir a renda, sem investir
no social, sem radicalizar na democracia, sem procurar construir a soberania.
As últimas décadas, mais do que quaisquer outras, foram de pé no freio
por determinações externas e por egoísmo interno das classes média e
alta. A elite brasileira, aliada aos interesses externos, fez um país
dependente, injusto, desigual, instável, violento, olhando outros países
passarem ao lado na corrida da história.
Somos um País de Rubinhos em um Mundo onde, de vez em quando, o presidente
de uma nação ricatem a elegância hipócrita do Schumacher e leva nosso
presidente para o jantar, mas guardando o campeonato. Nos deixando com
a lembrança de últimos a libertar os escravos ou fazer a reforma agrária,
e com o gosto ruim de quem continua pisando no freio, nos indicadores
sociais, no tamanho das dívidas, na dependência internacional, no grau
de violência, enquanto, em alta velocidade, outros países menores e
com menos recursos passam ao lado em direção ao futuro.
Bom-dia, Recife
Ronildo Maia Leite
Jornalista e diretor do Arquivo Público Estadual
Já dizia Renato Carneiro Campos: "A noite do Recife é tão boa que a
gente tem de sair com revólver na mão para defendê-la". Na proporção
em que expõe e exibe, a madrugada esconde e protege o boêmio como as
grandes mães alcoviteiras. Acalenta amores, denga os desesperados. Constrói
ambições, destrói necessidades. Dos insípidos faz poetaços, dos intrinsecamente
burros, feito eu, o mais brilhante dos papos.
Cega a todos nós, os boêmios de manga. Especializa equívocos. Quantas
mulheres lindas por mim já se apaixonaram e quantas mulheres feias amei.
Legaliza conspiradores, inspira desaforos, ameniza desrespeitos, suaviza
provocações. Cicatriza ventas quebradas. Escraviza o nada.
Foi na boca da noite que o cronistíssimo Renato Carneiro Campos encontrou
coragem para desafiar o poetiíssimo João Cabral. Ô de Melo Neto, você
é um poeta da porra, mas por favor me diga o que pensa da agressão americana
aos povos da Ásia... Aqui, ó... Noutro, esculhambou um general, de sobrenome
Tavares que eu me lembre, sem que o arrependimento o matasse.
Foi nos bares, a escola das ruas, onde a esquerda sufocada organizou
inteligências pra resistir ao arbítrio. E onde, ainda hoje, se espreme
e se esconde na mais desconjuntada burrice.
De antigo e competente secretário de Estado, sei de histórias muito
próprias da noite. Dele se conta: delirante madrugada de antigamente,
aí pelos anos pós 64 e nos vastos jardins de um onipotente, todo cercado
por altíssimas grades. De pés juntos me jura, como se verdade fosse,
o boateiro sacana. Invocando a estrela Dalva como testemunha. Mão no
copo, como se na Bíblia fosse.
Estava o já falado secretário em meio a outros ilibados homens públicos.
Tilintintim fazia o gelo no cristal. Bulumbumbum fazia o uísque no seu
quengo. Ah... a fantástica visão das madrugadas. De repente, as ditaduras.
Soldados na rua. Na sua frente, o amigo - aliás, o gorducho amigo do
povo - era um buldôzer. Ele tinha certeza, era uma máquina. Bonitas
mulheres sendo presas por horríveis gendarmes. Inocentes democratas
naprisão, inclusive ele. Então, ele corre e se abraça nas grades do
suntuoso jardim. Liberdade, liberdade, abre o manto sobre mim. Quando
acordou, todo mundo sorria. Mas ele ainda amargava todas as ressacas
de 64.
É isso aí. A madrugada constrói as pessoas, ainda que o bar freqüentem
as lacraias desesperadas. A boêmia é uma mistura vária. Um divã há de
ser sempre a madrugada. Espécie de folguedo? Não, por favor, nada de
vilipêndios. Se nela de um tudo cabe, nem de fornicadora do bem e do
mal a ela poderíamos chamar.
Ela constrói pessoas, por favor eu já disse.
Foi num bar do Recife onde nasceram Luís Bandeira e Sivuca. Onde Rubem
Braga arrebentou estilo de crônica nos longínquos anos 30 do século
passado. Ali, também vicejaram Antônio Maria, Carlos Pena Filho, Fernando
Lobo, Silvino Lopes, Altamiro Cunha. Sem se falar nos Lula Cardoso Ayres,
nos Jonas Ferreira Lima e seu violão mágico. Nos Newton Cardoso e seu
socialismo pra lá de camarada. Nos Zé Cochicho, tocando piano, acalentando
a boêmia as vezes raivosa de Arthur Lima Cavalcanti. Nos Eugênio Coimbra,
nos dois Marroquim, Esmaragdo e Murilo. Nos Múcio Borges e nos Antônio
Albino, que também é Pinheiro sendo primeiro Marinho para depois ser
Falcão. E nos... nos... ah, camaradas, tanta gente que nem me lembro
mais... do templo sagrado do Savoy.
Certo, camaradas. Tudo bem. Isso é coisa do passado. A cidade tem
uma nova geografia dos boêmios. O centro virou meleca. Agora, se curte
não sei onde. São outros os nossos bares.
E aí, meu irmão, camarada: aí da cidade que não tem os seus bares,
suas esquinas, seus doidos, seus fantasmas. Sobretudo seus boêmios.
Eu, de minha parte, confesso - sou homem da madrugada. Pois, como
estou cansando de afirmar, a mesa do jornal é como a mesa do bar - morre
todas as noites. Não vejo cronista, repórter, poeta, artista, ator,
produtor teatral e escambais que não seja boêmio.
A mesa do jornal e a mesa do bar e a mesa dos camarins é a mesa da
criação tem lá muita coisas em comum.
Nos camarins, também o ator se urdetodas as noites num mesmo papel.
Sem se repetir, num se morrer diário. Se faz amor nas coxias da noite.
É noturna a confecção da crônica, do bar, do teatro, da tela, da tinta.
Somos de uma mesma ribalta, o cronista, o boêmio, o ator.
Toda arte é essencialmente boêmia. A crônica morre ao meio-dia. Não
passam da meia-noite a fala e o gesto, a recriação e o brilho do artista.
O boêmio, todos nós, morre na barra da alvorada. Todas as noites.
Fuzilados pelo nascer do sol. Iluminadamente.
Comentário dos leitores
"Dá-lhe Ronildo Maia Leite! Você é como o vinho: quanto
mais o tempo passa, mais aguça a sua pena, com a boa prosa no papel.
Não conheci pessoalmente todos os que você cita em sua crônica de hoje,
mas a convivi com Múcio Borges, Antônio Albino, Arthur Lima Cavalcanti,
Jonas Ferreira Lima e Ronaldo Carneiro Campos. Chega, ou quer mais?
Faltou aí Ronildo, o dono da noite, ainda hoje!", Flávio Tiné,
por e-mail.