O mau cheiro das campanhas
José Negreiros
JORNALISTA
O ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, é um dos políticos brasileiros que mais inspiram confiança. A insinuação contra ele, feita por um malfeitor como Firmino do Nascimento Neto, seguramente é lixo do submundo da política. Caso típico em que o autor da suspeita a desqualifica. O arrombamento da Asefe tem todo o jeito do moderno peleguismo, coisa de raposas da esquerda que exploram o lúmpen-proletariado. O dano causado por um delinqüente a um dos quadros mais preparados do PT envergonha qualquer homem de bem que acredita numa sociedade organizada sob a ordem da Justiça.
Tudo isso, porém, não justifica a defesa simplista do professor de que abandonará a vida pública se a acusação for comprovada. Ou de que nada sabe porque não cuidou pessoalmente das finanças da campanha. Além de todas aquelas mudanças que os brasileiros vêm pedindo há dez anos na política, é preciso acrescentar mais esta: os candidatos são obrigados a explicar seus gastos centavo por centavo. E para isso têm que contratar contadores gabaritados para esse trabalho e não entregá-lo a amigos ou a esquemas eleitorais.
O machismo brasileiro costuma atribuir à patroa a função de tesoureira da família e nunca se ouviu falar de empreendimento que tenha fracassado por incompetência da mulher. Por que os políticos não entregam o cofre de suas campanhas às suas companheiras? Seria uma boa maneira de começar um amplo e sincero debate sobre a reforma do sistema de financiamento de campanha no Brasil.
Sabe-se que o modelo é corrupto em todo o Mundo, dos Estados Unidos a Bangladesh. Mas não se conhece um só político interessado em mudar as regras atuais, cheias de ralos, por onde se frauda e dificulta a fiscalização. Em vez de condená-las, gente como Anthony Garotinho (PSB) prefere brigar com os jornalistas que perguntam quem paga os gastos deles. O que não é mais possível porque parece com o Brasil de 50 anos atrás é fazer cara de inocente para a pergunta "quem paga as suas contas?"
Banqueiros, industriais, artistas, desportistas, a Santa Madre Igreja não podem deixar de mostrar de onde vem o dinheiro que os sustenta. Por que não presidentes, governadores, senadores, deputados, vereadores, prefeitos, ministros, burocratas de todos os escalões e principalmente candidatos a nos governar?
Não pedimos as contas de Fernando Collor e deu no que deu. Não exigimos o livro-caixa de Luiz Estevão e jogamos o voto fora. O velho dr. Ulysses Guimarães disse no dia da proclamação da nova Constituição, em 1988, que tinha "ódio e nojo à ditadura". Tinha razão. Nenhum sentimento menos radical a ditadura poderia inspirar numa pessoa de princípios. Mas o Brasil só erradicará os Firminos e a pilhagem do digno dinheiro do trabalhador no dia em que meter o bisturi no tumor do financiamento de campanha por"ódio e nojo" à bandalheira.
A coluna do Verrisimo está no caderno da Copa