Em 99% dos casos, disfunção tem origem emocional, razão pela qual o tratamento é psicoterapêutico
Roberto Cavalcanti
Da equipe do DIARIO
O auxiliar de escritório J.L.S., de 23 anos, é o que se poderia chamar de um homem saudável, não fosse um pequeno, mas importante detalhe. Desde sua iniciação sexual, aos 14 anos, ele tem dificuldades para controlar a ejaculação, o que limita as suas relações sexuais a menos de dois minutos, em média. O problema, só aceito por ele há pouco mais de três meses, após várias queixas de uma ex-namorada, vem sendo tratado com sessões de terapia e exercícios diários de autocontrole. Os resultados, diz ele, já começaram a aparecer e têm sido animadores.
Igual a J.L.S., cerca de 30% dos homens sofrem de ejaculação precoce em algum momento de suas vidas, principalmente durante a adolescência, quando grandes descargas hormonais favorecem o aumento da libido. Nesses casos, a falta de controle pode ser considerada normal. Mas a continuidade da disfunção por períodos longos pode estabelecer um quadro clínico, só reversível com ajuda de especialistas. O tratamento, que em alguns casos é breve - sete semanas - é psicoterapeutico e extensivo à parceira, peça-chave nos processos de reversão do problema.
Especialistas afirmam que a frustração, a vergonha e a insegurança muitas vezes não permitem que o homem busque ajuda médica, o que só agrava o problema e gera situações constrangedoras, como a vivida pela produtora D.A.G, 38 anos. Após um mês de namoro com um professor, também de 38 anos, com direito a cinema e restaurantes, chegou a hora do motel. A noite acabou de forma decepcionante: o orgasmo do parceiro chegou antes que ela tirasse as roupas. Ele se vestiu e pediu a conta. O namoro terminou alí, sem uma palavra a mais.
Em geral, a doença atinge com mais intensidade homens de até 30 anos e em 99% dos casos, está relacionada ao estresse e ao ritmo acelerado da vida moderna. As disfunções decorrentes de problemas orgânicos representam menos de 1% dos casos. "O homem tem sido treinado para otimizar o tempo, fazendo suas atividades no menor espaço de tempo possível. Com isso, ele acaba, de forma inconsciente, levandopara a cama os mesmos níveis de ansiedade que o acompanham no dia-a-dia e, muitas vezes, nem se dá conta de que a atividade sexual poderia ser mais satisfatória", explica a psicoterapeuta sexual Vitória Menezes.
A especialista lembra que nos últimos dez anos o número de pacientes que tem buscado orientação psicológica por problemas de ejaculação precoce praticamente dobrou, demonstrando uma preocupação maior do homem em relação ao seu desempenho sexual. "Além disso, as mulheres assumiram uma outra postura frente à sexualidade, e já cobram a satisfação de seus desejos. Aquela história do homem só se preocupar com o próprio prazer é coisa do passado. Hoje as mulheres insatisfeitas sexualmente deixam os seus parceiros sem sentimento de culpa", afirma.
Foi o caso da comerciante A.C.S., de 35 anos. Ela conta que mesmo apaixonada pelo namorado, não foi capaz de contornar a situação de constrangimento gerada pelo problema. "Ele não aceitava a doença e todas as vezes que tínhamos relações só ele chegava ao orgasmo. Após muitas tentativas de conversa sem resultado, achei melhor acabar o relacionamento. Infelizmente, esse não é um caso isolado, conheço outras mulheres que passaram pelo mesmo problema, inclusive casadas".
O urologista Antônio José Nogueira esclarece que a ejaculação precoce não se manifesta apenas durante a adolescência. Segundo ele, homens que possuem um desempenho sexual normal podem, de repente, apresentar o problema, mas, na maioria das vezes, a causa reside em episódios de fundo emocional, gerado por insegurança, ansiedade, medo e estresse. "Casos assim são comuns", afirma.