Mineiros comemoram 20 anos com quatro apresentações
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
Eles completam vinte anos e, em vez de receber, dão os presentes para o público recifense. Numa turnê patrocinada pela Petrobrás, o grupo Galpão sai das Alterosas com dois espetáculos para percorrer cinco capitais nordestinas, até 19 deste mês, celebrando duas décadas de atividade. Depois de quatro apresentações em Salvador e uma em Aracaju, a trupe, entre onze atores e seis técnicos, aterrissa de mala, cuia e pernas de pau em Pernambuco, onde encena Um Molière Imaginário - hoje e amanhã, no teatro de Parque - e Romeu e Julieta, na sexta e no sábado, ao ar livre e gratuito, no Pátio de São Pedro.
Por telefone, horas antes de embarcar para cá, Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão, falou sobre Um Molière Imaginário, construído em cima da A Farsa do Doente Imaginário, escrita no século XV. Montada pela primeira vez no Festival de Curitiba em 1997, com direção de Moreira, a peça, a princípio, foi concebida para abrigar uma colagem de cenas dos textos de Jean-Baptiste Poquelin, o Molière. "Vimos que nãosurtiria efeito, porque a dramaturgia de Molière é tão bem elaborada que quando se tira uma cena do seu contexto ela perde a força", diz o ator-diretor, que no palco interpreta Tomás Disáforus, um dos vetores criados pelo francês para criticar os hipócritas valores burgueses em voga na época.
A solução encontrada pelo grupo constituiu um cruzamento entre ficção e realidade. À vontade de trabalhar com um espetáculo sobre uma trupe teatral, os galponistas juntaram o desejo de homenagear o dramaturgo francês, "uma figura emblemática que morreu em cena", como lembra Eduardo Moreira. "Misturando a história do Galpão com a da trupe do Molière, criamos um espetáculo que começa com o enterro dele. Depois, nos intervalos da trama do Doente Imaginário, o próprio Molière entra em cena", explica.
Ao lado de Cacá Brandão, dramaturgo do Galpão, os atores escreveram os diálogos travados entre o francês (vivido por Antônio Edson) e o personagem principal Argan, o hipocondríaco, encarnado por Rodolfo Vaz. "Molière tinhauma maneira bem peculiar de ver o mundo e procuramos segui-la. Tomamos emprestada de Machado de Assis a linguagem para criar suas falas. Ele ficou bem machadiano mesmo", conta Moreira.
Ele acrescenta que a fonte é o irascível Brás Cubas: "Nosso Molière enxerga com as coisas os olhos do Brás. Há, inclusive, uma citação literal da obra de Machado, que é 'escrevo esse texto com a pena da galhofa e a tinta da melancolia'". Não reside apenas nessa intertextualidade, porém, o único atrativo. Segundo Moreira, a trilha sonora original e os figurinos valem ser destacada. "Samba, ópera e bolero se misturam, num trabalho feito por nosso arranjador Fernando Muzzi, e ajudam, com as vestes inspiradas nas formas arredondadas e no vermelho das paixões, a compor o clima dos setenta minutos de espetáculo", garante.
EXPOSIÇÃO - Completam a excursão a oficina gratuita para atores (atenção: as inscrições já foram realizadas), na qual o elenco demonstrará exercícios de preparação e treinamento; a encenação de Romeu e Julieta,concebida e dirigida por Gabriel Villela;, e uma exposição - até domingo - em que serão vendidos camisetas, botons, adesivos, livros, discos e o catálogo fotográfico que contempla os 20 anos de estrada.
Para Beto Franco, outro fundador e atual presidente do Galpão, a turnê pelo Nordeste traz dois dos melhores espetáculos da trupe, que podem ser representados em ambientes fechados e abertos. "Eles possuem características próprias e a qualidade do grupo", assegura. Franco adianta que no segundo semestre a turnê de parabéns aportará em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, levando também os espetáculos Partido (baseado em Italo Calvino), Um Trem Chamado Desejo (do paulista Luís Alberto de Abreu) e o aclamado A Rua da Amargura, oriundo de Mártir do Calvário, do português Eduardo Garrido, também dirigido por Gabriel Villela. Até lá, terão visitado Bahia, Sergipe, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará e levado a um público novo, que talvez nunca tenha acompanhado uma performance do grupo, a teia de referências mambembes, circenses e populares que os bem caracteriza.
Serviço
Um Molière Imaginário, com o Grupo Galpão
Onde: Teatro do Parque (Rua do Hospício, 81 - Boa Vista. Fone: 3423.6044)
Quando: Hoje e amanhã, às 21h
Quanto: R$ 10,00 (preço único)
Oficina Gratuita para Atores
Onde: Teatro Arraial (Rua da Aurora, 457, Boa Vista. Fone: 3231.2716)
Quando: Amanhã, das 13h30 às 17h30 (apenas quinze participantes e 25 ouvintes)
Quanto: Entrada franca
Exposição Galpão 20 Anos
Onde: Teatro do Parque
Quando: De hoje até domingo
Quanto: Entrada franca