Baratária à brasileira
Rubem Azevedo Lima
JORNALISTA
Por culpa de governantes que falam em reformas do Estado, mas nada fazem de concreto para atingir esse objetivo, ao menos em pontos essenciais, nossa democracia, hoje, é um regime de fachada, satisfatório para a minoria rica e poderosa, mas injusto e cruel para 53 milhões de brasileiros miseráveis e fracos.
O presidente se diz democrata, mas, como seus antecessores - que deviam ter agido para aperfeiçoar a democracia, no que pudessem -, também não o faz e segue a rotina da omissão. Por isso, pela terceira vez, em sete anos, ele pode nomear um amigo para preencher vaga no Supremo Tribunal Federal.
Não se discute se o indicado tem, ou não, notável saber jurídico e reputação ilibada. Desde que o velho Supremo Tribunal de Justiça virou STF, na República, o Senado ouve, em sessão secreta, "pro forma", o escolhido, e, contra raros votos divergentes, ratifica a indicação, como se aprovasse algo irrelevante, num ritual de subserviência típica nas democracias sem democracia.
Esse regime resulta, hoje, em boa parte, de manipulações da vontade popular. As novas tecnologias de comunicação permitem criar estratégias diversionistas, que desviam a atenção dos problemas do País e fazem ver com indiferença o debate de temas políticos que lhes dizem respeito.
Quando diz na televisão que tudo será pior para todos, se o Congresso aprovar ou rejeitar certa medida, o Governo está pressionando os legisladores, aos quais não concede espaço para refutar a versão oficial. Se necessário, um pouco de emoção midiática sempre bloqueia o exame racional de qualquer assunto, como no racionamento de eletricidade.
Dão-se ao povo imagens do mundo cão e informações supérfluas, que ocultam a realidade e geram o clima de hipnose difusa, sob o qual se diluem as culpas dos governantes. Assim, vão-se as esperanças e a vontade de reagir à dieta político-econômica imposta pelo poder. Falta de justiça social, desemprego, salários congelados? Tudo isso é mostrado como sacrifício que o Brasil deve aceitar se quiser ter futuro. Somos uma ilha de estabilidade? Tal qual a Baratária, de Sancho Pança, nem ilha somos.
Estabilidade? Mas aqui se nega a Justiça, frauda-se o direito e anula-se o Supremo. Exemplo: o episódio do reajuste constitucional de salários. Enfim, após a violência das reeleições, em nossa ilha de fantasia só valem as decisões do FMI. As do STF, para o Governo, podem ter valor, mas apenas simbólico.
O colunista Luiz Fernando Veríssimo encontra-se em férias