Edição de Quarta-Feira, 8 de Maio de 2002
 

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Opinião

Eleições e denúncias

Ano eleitoral é sinônimo de denúncias. Não só no Brasil. Em todos os países onde impera a liberdade de expressão, aproveita-se a campanha para passar fatos a limpo. A prática não é necessariamente má. Algumas acusações procedem. Outras constituem maldosa calúnia. Num e noutro caso, abre-se a possibilidade de tirar temas da sombra e jogar luz sobre a verdade. Quem ganha é o eleitor.

  Esta semana veio à tona acusação contra Ricardo Sérgio de Oliveira, antigo arrecadador de fundos de campanha do PSDB. Segundo reportagem da revista Veja, Oliveira teria pedido ao empresário Benjamin Steinbruch R$ 15 milhões de propina para facilitar-lhe a compra da Companhia Vale do Rio Doce em 1997. A cobrança, que teria sido feita em nome de políticos do PSDB, foi revelada por Steinbruch ao ministro da Educação, Paulo Renato Souza, e ao economista Luiz Carlos Mendonça de Barros um ano depois da venda da Vale.

  O ministro confirmou a informação. Também Mendonça de Barros sustentou a versão da revista sobre a confidência de Steinbruch. À época, o economista estava à frente da pasta das Comunicações. A suposta extorsão contra Steinbruch sucedeu ao tempo em que Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor do Banco do Brasil. E foi no exercício da função que organizou o consórcio liderado pelo empresário, com a participação de fundos estatais de previdência, para disputar a compra da Vale em concorrência com grupo encabeçado pela Votorantim.

  Impressiona o fato de que nenhuma providência tenha sido desde logo adotada para investigar o episódio, embora dois ministros, em pleno exercício do cargo, houvessem tomado conhecimento das denúncias. Um deles, Luiz Carlos Mendonça de Barros, teve a responsabilidade de proceder à gigantesca privatização das telecomunicações.

  Chegou a hora de iluminar a sombra. A apuração severa da imputação criminosa dirigida a Ricardo Sérgio de Oliveira e de suas implicações é exigência da sociedade. Recorrer ao argumento de não lançar em águas turbulentas a sucessão presidencial não deve servir de pretexto para empurrar o lixo para baixo do tapete. Parece importante agora não apenas saber se extorsão houve e se foi paga. Mas também se existiu a conduta delituosa de exigir recompensa para facilitação de negócios. E trazer ao conhecimento do País os motivos por que a acusação - conhecida há quase quatro anos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e por integrantes do mais alto escalão da administração pública - não foi investigada com a indispensável presteza.

Artigos

Os impérios da terra


Ricardo Honório

GEÓGRAFO

A entrevista com o cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, publicada no DIARIO do domingo 21 de abril, fez-me refletir sobre os atores principais que alternadamente brilham no palco da geopolítica mundial, representando cada um a peça que mais lhe apraz, independente do desejo do público assistente e deste estar na primeira ou na terceira fila - ou Mundo.

  Desde os primórdios da Humanidade, há povos que dividem a história em períodos hegemônicos, utilizando-se dessa hegemonia para distribuir a vida e a morte de acordo com os interesses e a conjuntura que a época lhes oferece. De 4241 até 253 a.C, aproximadamente, o Egito dominou todo o Mundo conhecido propondo e ratificando suas filosofias, seus deuses e suas guerras; depois dele, outras civilizações despontaram e fizeram-se regentes em outras áreas do globo, deixando registrados nos anais da História suas virtudes e fraquezas, legando à posteridade comportamentos, crenças, técnicas, ideologias e, principalmente, filosofiasque o tempo altera a forma, mas não deforma o conteúdo.

  Cada uma dessas civilizações deixou à posteridade descobertas e evoluções das mais diversas: com os egípcios, as primeiras considerações sobre a imortalidade da alma humana; com os gregos, o desenvolvimento das artes cênicas, da política, da filosofia; com os romanos, as bases do Direito e o exemplo de maior império já constituído sobre a terra.

  A partir daí, tivemos outros impérios hegemônicos, como os talassocráticos português e espanhol; o britânico, o alemão etc. Porém, todos apresentavam fissuras em suas estruturas que os fizeram desabar aos primeiros choques com uma concorrência mais acirrada.

  O planeta tem hoje um império que é líder e que, certamente, quererá deixar à posteridade registros de sua época áurea, suas descobertas, seu modo próprio de viver, seus mísseis embalsamados pelo tempo... oxalá exista alguém para vê-los! Não é nenhum império romano; não é nenhum império egípcio... é um bebê império que conta com apenas 1,3% do tempo devida do império egípcio e aproximadamente 17% de todo território do império romano. Mas, apesar de tenra idade, há já quem o defina como "O Grande Satã" ou quem o diga predestinado ao reverbero de cérebro da Humanidade. Pontos de vista à parte, o fato é que o império atualmente hegemônico é mais imperial que qualquer outro. Pois tem o somatório de todas as virtudes e defeitos de seus predecessores da ciência à técnica, da ideologia à filosofia, da política à economia, da arte cinematográfica à bélica.

  O império ora hegemônico detém o poder da política e da retórica gregas, firma-se no estado de Direito dos romanos; planta-se no lastro geográfico vital almejado pelos alemães; respalda-se no poder da técnica da revolução inglesa; domina os mares como jamais os vikings, fenícios, espanhóis, ingleses ou portugueses dominaram; norteia a economia global; imprime sua cultura à direita e à esquerda de Greenwich; e, por fim, detém a maior máquina de guerra de todos os tempos por terra, mar e ar. É um império quase perfeito!

  Todavia, apesar de toda a magnitude, é um império terrestre. E aí lembro daquele rei que determinou aos sábios dos seus domínios que criassem uma frase que conceituasse seu poder. Ao final de alguns dias de reflexão, um dos sábios trouxe-lhe a seguinte frase: "Senhor, neste mundo tudo é efêmero."

Que partido é este?

Rivaldo Paiva

ESCRITOR

O tempo passa, o tempo voa, ao vento alegre do poder. E hoje, uma precipitada corrida eleitoral efervescente à Presidência da República (com exceção, é claro, do PT de Lula lá - eterno candidato) vem a realçar o quanto o País está carente de nomes robustos de credibilidade moral e administrativa para dirigi-lo.

  Ah, Brasil, que um dia foi interrogado que país era ele! - uma menção feita e que se tornou famosa pelo então deputado Francelino Pereira, hoje senador pelo forte e liberal PFL. Um partido de tradição, contando uma bancada forte na Câmara e no Senado, também nos mais influentes estados brasileiros - hoje fadado a virar um partideco.

  Investiram na candidatura Roseana Sarney - leia-se a cúpula dirigente do partido, sob o comando do presidente Bornhausen e inflamados áulicos - e, intempestivamente, racharam uma aliança nacional com o PSDB do professor Cardoso, apostando na veleidade daquela aventura inconseqüente. Evidente que, depois de sucessivas falhas estratégicas, algunsdos seus principais líderes deveriam partir unidos em torno de um novo nome de seus quadros, apagando assim a infelicidade daquela empreitada ruim. Mas, não. Arrependidos da errada investida política, por isso insensata, argamaçados de interesses pessoais, fogem da corrida presidencial, alimentando a idéia de deixar o partido sem frente liberal, sem cartilha, sem parâmetro e a reboque de alianças estaduais. Um lamentável deboche aos seus próprios discursos e à sempre difusão da sua linha ideológica.

  Por que Lula lá desembestou nas pesquisas? Simples. O pré-candidato Serra, repito, embora o mais preparado dos que desfilam na mídia, é pesado e não vai decolar - anotem, caros leitores e eleitores - nem com o mundo dos votos que Chirac colecionou na recente eleição francesa, apoiado pela ala socialista opiniosa da comunidade européia, sequer pelas especulações dos Morgans norte-americanos, muito menos com a empáfia que carrega desde as eleições da UNE (1963), em Santo André-SP, quando tornou-se presidente. Garotinho é um maluquinho, que virou entusiasta radialista dos evangélicos, de cômicas intervenções econômicas no seu Estado. Ciro, propaga bem suas intenções, mas precisa de outros cursos pelas bandas de Harvard. O problema a mais é que, todo dia, surge alguma tramóia que envolve diretamente ou não os ávidos pelo Planalto. E o povo não tem para onde correr.

  Alvin Toffler disse que o fato novo não só é necessário à mudança de vida de um país - é a própria vida. O fato novo político para o povo brasileiro, hoje, não é mais o bonitão que insta gritinhos das moiçolas e arrepia os moços com suas peripécias esportivas. É o fato consumado - ter um candidato incólume a denúncias quaisquer, com uma vida pública que honre o País, experiente e que tenha o respeito das diversas facções partidárias. Que partido é este - o PFL - que tem o melhor nome dentre todos os quadros políticos do Brasil, o atual vice-presidente da República, Marco Maciel, e não lança mão do mesmo (o único que aglutinaria de novo a forte Aliança perdida)?... Não dá pra entender.

  Só quem entende disto é o meu companheiro Jarbas, comandante do eficiente arco aliancista em Pernambuco, que está com Serra, acredito, por falta de opção. Eu também estou com ele, a não ser que a lucidez volte a este PFL, atualmente à mercê de retaliações insignificantes e nudez de objetivos.








 

 
 
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