Farsa diplomática
"O senhor não acha que seria mais importante ir a Jerusalém em primeiro lugar?" A realista pergunta do rei do Marrocos a Colin Powell traduz a sensação que toma conta do Mundo. Não há real interesse dos Estados Unidos em acabar com a carnificina comandada por Ariel Sharon nos territórios da Autoridade Palestina.
Do anúncio da missão à chegada do secretário de Estado a Israel - nesta sexta-feira - se contam quase duas semanas. É tempo suficiente para Sharon concluir os ataques às cidades palestinas e ao sul do Líbano. A data, é bom lembrar, coincide com o prazo dado pelo primeiro-ministro para concluir a operação a que se propôs. Em suma: Washington faz o jogo de Telavive.
Os últimos acontecimentos comprovam a comédia. Diante do duvidoso ultimato americano, Sharon encenou a farsa. Fingiu recuar, mas avança. Retirou parte das tropas da Cisjordânia. Em compensação, invadiu Dura, ao sul de Hebron, e estreou as incursões pela Faixa de Gaza. O massacre se intensificou. E cresceu em crueldade. Em Jenin, morreram150 pessoas. Helicópteros e tanques bombardearam o campo de refugiados sob o argumento de que lá estariam abrigados membros do grupo radical Jihad Islâmica.
Enquanto a região explode, Colin Powell retarda a chegada. Do Marrocos, foi ao Egito. De lá, à Espanha. Alega que precisa do envolvimento maior das nações árabes amigas para ajudar israelenses e palestinos a voltar às negociações de paz. Precisa, também, ouvir os líderes da União Européia. Só assim terá condições de preparar-se para ir a Israel.
É curioso imaginar que a Secretaria de Estado da maior potência do planeta não tenha informações suficientes para habilitar - e bem - o titular a sentar-se à mesa de negociações com as partes envolvidas no conflito. É curioso, sobretudo, porque os Estados Unidos sempre estiveram intimamente ligados aos acontecimentos relacionados ao Estado judeu desde a sua fundação, em 1948.
A viagem de Powell, tudo indica, é mais um lance no jogo do faz-de-conta. George W. Bush deu claras mostras de apoio ao general Sharon ao longo da sangrenta investida contra o povo palestino. Quando forças israelenses prenderam Yasser Arafat, Sharon exigiu que ele combatesse os grupos radicais. Mas mantinha-o isolado no quartel-general em ruínas, sem comida, água, luz ou telefone. Bush deu-lhe razão.
Ao exigir a retirada do Exército judeu das cidades invadidas, fê-lo graças à pressão da mídia americana, da má repercussão da posição dos Estados Unidos nos países árabes e da insistência da Europa. Em nenhum momento, porém, proferiu uma palavra de condenação à ofensiva que já fez centenas de mortos. Ao contrário. Responsabilizou Arafat pela radicalização crescente no Oriente Médio. Não é de estranhar, pois, que o périplo de Powell seja mais um episódio da sangrenta novela - sem previsão de capítulo final.
Artigos
Domínios do Recife
Roberto Cavalcanti de Albuquerque
ENSAÍSTA
Nordeste a ocupação, a economia e o progresso da Civilização, reinando sobre toda uma região, do São Francisco ao Maranhão. Porto e empório comercial, comandou importante empresa agroexportadora: num primeiro tempo, monopolizada pelo açúcar; mais tarde, quando o algodão foi ganhando relevo, fundada em economia binária de especialização tropical.
No último quartel do Século XIX, as ferrovias e os melhoramentos dos portos do Norte agrário começaram a minar essa hegemonia com a emergência de centros comerciais de porte crescente, entre eles Fortaleza. Essa tendência para a desconcentração acentuou-se a partir dos anos 1930 com o rodoviarismo, quando a capital cearense começou a predominar comercialmente em espaços antes polarizados pelo Recife: no próprio Ceará, no Piauí e Rio Grande do Norte.
Estudos ainda em elaboração, patrocinados pelo Banco do Nordeste, intentam delimitar as áreas de influência potencial das três metrópoles regionais do Nordeste, Salvador, Recife e Fortaleza, no final do Século XX. Em 1970, o Recife metropolitano tinha presença dominante sobre 24% do território da região, abarcando a totalidade de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, parcela do sul do Ceará, do Piauí e do Maranhão, quase todo o Rio Grande do Norte. E avançava pela Bahia em Paulo Afonso. No domínio recifense viviam 11,4 milhões de pessoas, 41% da população do Nordeste e se gerava PIB de US$ 10,4 bilhões, 43% do regional. Em menos de três décadas, porém, a área sob dominância do Recife encolheu para menos da metade, equivalendo em 1998 a 11% da região. Deixou de ser relevante no sul do Maranhão, Piauí e Ceará. Recuou no Rio Grande do Norte e na Paraíba. E foi brechada no Sertão do próprio Pernambuco por Salvador e Fortaleza. A população do domínio do Recife, de 14,5 milhões, decresceu para 32% e o PIB, de US$ 36,5 bilhões, para 35% do regional. Nesse período, ademais, o crescimento do Recife metropolitano foi relativamente menor, com recuo da indústria de transformação mas forte expansão dos serviços, alguns deles intensivos em conhecimento.
O Recife desempenha em sua área de influência funções de comando, impulso e disseminação do desenvolvimento. O encolhimento da área sob influência metropolitana e sua baixa expansão demográfica (menos de 1% anuais, entre 1970 e 1998) impactaram menos a economia metropolitana porque o PIB e a renda per capita evoluíram satisfatoriamente e houve grande aumento da densidade demográfica e econômica.
Nas relações de mútua dependência que se estabelecem entre um grande centro urbano e seu espaço de influência, o progresso em geral depende menos da dimensão territorial ou demográfica do que do volume da produção, consumo e comércio neles gerado. O domínio do Recife, além de ter dimensão econômica, é desconcentrado espacialmente, com a região metropolitana detendo apenas 1/3 do PIB. Outros recursos podem tornar-se alavancas de progresso: a infra-estrutura de transportes, a rede de cidades, a qualidade dos recursos humanos, a capacidade científico-tecnológica e fatores de natureza política, administrativa e cultural. Nesses aspectos, o Recife exibe vantagens potenciais significativas. Mas é preciso transformar esse patrimônio em ações efetivas, orientadas por visão geoestratégica do desenvolvimento. Pois vivem em engano os que pensam que a geopolítica foi soterrada nos escombros da última Grande Guerra. Ela continua mais viva que nunca.
Quando estudar a "porcaria"
Roberto Martis
SOCIÓLOGO
Foi o poeta Rimbaud quem usou e bem abusou deste termo, "porcaria". Afirmou que a arte não tem atitude oficial para com a "porcaria poética"; agrediu e polemizou, ao nomear uma vasta produção literária, que teimava em continuar a ser sua (dele ) contemporânea, de "velha porcaria?". Como eu respeito muito o repertório de palavras do Rimbaud, peço permissão às pessoas que me lêem, para fazer uso deste nome, que existe mesmo é para chocar.
Acredito que a critica da cultura não deva se ocupar de porcarias. Devo muitíssimo esta minha posição a um texto de Harold Rosenberg, intitulado Cultura Pop : A Crítica Kitsch. Rosenberg foi sem nenhuma dúvida o maior crítico da cultura nos EUA durante boa parte do Século XX. O Clement Greenberg, por exemplo, não tinha um terço da inteligência, cultura e erudição do Rosenberg; e um Lionel Trilling dedicou-se a questões menores, e, ainda por cima lia mal. Só o Edmund Wilson, com toda sua quantidade de álcool, equipara-se a Harold Rosenberg. Rosenbergcoloca a seguinte questão, que é pré-requisito para o desempenho do crítico da cultura: vale a pena pesquisar a porcaria? E responde: "Estudar o kitsch como propaganda é legítimo - por exemplo, a análise do tratamento das minorias na ficção - uma vez que a finalidade de estudo não é apenas conhecimento, mas ação, dissolvendo uma nova realidade as condições que contribuem para a (retorna aqui Rinbaud) "velha porcaria".
Portanto, para Rosenberg, a legitimidade de se estudar (e vamos utilizar aqui um exemplo bem atual, brasileiro, mas não só brasileiro, já que outros países produziram este programa televisivo) um Big Brother Brasil, restaria em um esforço cujo feitio é de natureza política, ao encará-lo como propaganda; e - segundo - não se limitar a um projeto de conhecimento, mas de ativismo didático, diluidor das condições (sociais, econômicas, políticas, culturais e educacionais) que contribuem para a exeqüibilidade - e, por muitas vezes, para o sucesso de audiência - da "porcaria". Não havendo senão, esta única carte blanche de legitimidade, o crítico da cultura deve estar tão ocupado com a arte, com a considerada cultura alta e com as profundas e raras sensibilidades e emoções, que, para a "porcaria", este crítico acha-se protegido pelo princípio da indiferença. ( Vejam como é ridícula esta situação: críticos e profissionais bem pensantes, ganham prestígio social e intelectual quando falam mal destes "reality shows", como Casa dos Artistas e Big Brother Brasil. Este pessoal administra as suas glórias lutando contra o kitsch e a cultura de massa, assumindo este tão almejado papel de escoteiros da sociedade. Papel este, que uma parte das classes média e alta espera que este pessoal cumpra. Em palavras mais diretas, dá ibope analisar o Big Brother Brasil. Rosenberg diz deste pessoal: "Esteta por inferência o crítico da cultura pop costuma ser levado a considerar-se um aristocrata. Não há melhor maneira de se fazer um papel ridículo". Viva, pois, digo eu, a indiferença! Mas para não ser tão indiferente faço aqui dois comentários. A audiência telespectadora foi informada que a expressão "Big Brother", origina-se do romance 1984 de George Orwell, onde ele ataca o Estado Totalitário e a Economia Centralizada do socialismo "áspero" de Stalin. Assistam o filme, O Show de Truman, do australiano Peter Weir. Deixando de lado a justificada aversão que temos ao ator Jim Carrey, o filme não deixa de ter uma narrativa cativante e, principalmente, um argumento engenhoso e original. E não é porcaria.