Edição de Terça-Feira, 9 de Abril de 2002
 
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Um romance mirando outro, seu avesso

Os romances, como pessoas vivas, se constituem mirando-se no olhar do outro, de outros romances. É possível conjeturar que Grande Sertão: Veredas se tenha edificado como o avesso de O Som e a Fúria, o jagunço um fidalgo ao avesso. Como se o autor se empenhasse naquela atividade moral que desenreda, desembaraça, que desfaz nós. Atividade referida pelo narrador de Assassinatos da Rua Morgue, também de Edgar Allan Poe, como o ato de análise, apropriada aos humanos de intelecto superior.

  Os romances encenam a passagem de um mundo para outro mundo, de um regime de poder a outro, de um determinado arranjo e equilíbrio de forças para um diverso, do Velho Sul para o Sul Moderno, de Sertão mítico das guerras jagunças para o Sertão pacificado e em vias de integração. Mas as trajetórias dos heróis são inversas: de jagunço, sem ter nada de seu, Riobaldo passa a proprietário de terras, desfrutando paz de posses, ocupando a posição de cavalheiro recompensado por suas façanhas. É este seu ganho visível na velhice.

  O valor do que perde não se pode estimar: a aura mágica dos seus dias de aventura, a atração ambígua por Diadorim, o perigo das batalhas, o fascínio dos chefes míticos, a glória da ascensão a chefe supremo do bando. Enquanto uma contabilidade exclusiva de perdas caracteriza o trajeto dos irmãos Compson: entre os antepassados que habitaram a Compson Place, casa senhorial cujo antigo fausto cede lugar a uma afrontosa decadência, contam-se um general combatente da Guerra da Secessão, homens de letras, um governador e legisladores. As terras vem sendo desmembradas desde que instalada a ruína, em algum lugar do passado difícil de precisar. De toda a linhagem resta apenas o pequeno núcleo familiar.

  Inferno de perdas, ao invés de paz de posses: perda da virgindade da irmã, e no caso de Quentin Compson, perda da própria vida. Fidalgo desapossado, Quentin Compson se afoga nas águas turvas do Rio Charles, em nome dos valores que quer preservar, enquanto Riobaldo, Rio Baldado, sem ser o herói trágico que leva tudo às últimas conseqüências, conforma-se com levar, ao final do ciclo mítico, uma existência monótona e sem brilho, como a que teme o neurótico, e que por isso resiste à cura.

  Avesso à morte por afogamento, o rio Urucuia ele o utiliza para uma cerimônia de restauração. Diadorim morre pura, a Deus dada, Quentin Compson morre casto, enquanto Caddy é impura e promíscua. Sob o signo do Itambé Riobaldo, investido de poder fálico, dá fim ao sine fine dos símiles "oferecendo fim oferecendo faca" enquanto a faca, nas mãos de Quentin Compson, é apenas signo da sua impotência, desde que nem consegue vingar a sedução da irmã, aplicando uma "boa esfola" aos sedutores, nem cometer o duplo suicídio. O incesto iminente entre irmão e irmã, que sustenta a fabulação em O Som e a Fúria, é logo condenado em Grande Sertão através de um dos causos exemplares, de incesto entre mãe e filho, apontando para os riscos do rompimento dos limites da dimensão simbólica da existência.

  Faulkner, como sabemos, avança impetuosamente sobre esses limites, desarticulando a linguagem, operando por disjuntes e desmembramentos. O horror que provoca a miscigenação, latente e represado em O Som e a Fúria, é plenamente articulado por Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, no episódio do Menino e do Mulato lascivo na travessia do Rio São Francisco, e na luta encarniçada entre o Hermógenes e Diadorim, em que se misturam os sangues, negrume de um, alvura de outro. Enquanto para Riobaldo o Menino é Anunciação, para Quentin Compson, a Menina Italiana que encontra em seu último dia de vida é Revelação, a Irmãzinha Morte. São inúmeras, enfim, as reversões ou inversões de temas faulknerianos que Grande Sertão opera, verte - reverte, como diz Riobaldo, como se para fazer justiça e reparar um mal cometido em outra cena, um crime cometido por um texto anterior.

  

PODER E SEGREDO - Todavia é pela revelação do segredo de Diadorim que Rosa desfaz a injustiça maior. O segredo dos textos é o núcleo de irradiação do poder autoral, o que faz do leitor escravo. "O poder é essencialmente aquilo que reprime. O Poder reprime a natureza, os instintos, uma classe, indivíduos", é a definição mais consensual e imediata de poder, diz Foucault.

  Transposta para a ficção literária, vem a significar a retenção, ou repressão, de algo que de outra forma afloraria no discurso. O segredo dos textos é pois uma bela isca que excita a vontade de saber, a qual por sua vez torna o leitor cativo da cadeia simbólica, onde o poder, verdadeiramente, reside. Apenas retrospectivamente, de fato, observa-se o quanto o segredo definiu a estratégia de Grande Sertão: a neblina, o ziguezaguear de Riobaldo, as sinuosidades da linguagem, a dificuldade de contar, as claudicações do entendimento, tantas vezes reiterados pela exclamativa "falo falso", com que obliquamente a linguagem refere o falso phallus de Diadorim.

  O segredo coloca a pessoa num estado de exceção, opera como uma atração de pura determinação social, afirma Simmel, sobre a questão do enraizamento do poder no segredo: "diante do desconhecido, oimpulso natural do homem é idealizar, e o seu medo natural coopera para levá-lo ao mesmo objetivo: intensificar o desconhecido através da imaginação, e prestar-lhe atenção com uma ênfase que em geral não está de acordo com a realidade patente".

  Sem que revele o segredo do texto, ao apresentá-lo antes como um chiste - como e por que se mancharam as calcinhas de Caddy, o que vem a ser a mancha que ativa freneticamente o imaginário dos irmãos Compson e do leitor - Faulkner mantém o leitor cativo da bruta equação segredo - poder. Pois a imagem que oferece de Caddy, o segredo que ele próprio aponta, de fundos manchados no topo de uma pereira, é ininterpretável. Caddy volta para os que a vêem a face medusante do significante.

  O segredo de O Som e a Fúria é irremovível, desde que não pode ser tocado. E o romance prossegue, em sua opacidade desafiadora, não apenas negando ao leitor significados, mas paralizando-o. Vingança de Faulkner, assim como se, mantendo o seu romance no estado hímen, inviolado, eternizasse,por não poder revertê-la, a passagem de um Sul de antiga glória e fausto a um Sul moderno, empobrecido e morto. Será essa talvez a crueldade a que se refere Rosa, crueldade com o leitor, que a revelação do segredo de Diadorim virá desfazer.

  O fato de que se refiram ambos os segredos a questões do sexo revela o quanto o sexo é irmão gêmeo do poder. Nem tanto é o hímen o pomo da discórdia, mas o falo em falta, o falso falo, tanto de Caddy quanto de Diadorim. Ferida narcísica que se descobre, nos dois romances, em meio ao maior deslumbramento poético. Interpretá-la metaforicamente como a chaga comum que fustiga corações e mentes em seus respectivos milieus - o Sul de Faulkner sob o peso da derrota na Guerra Civil, o Sertão de Guimarães Rosa como palco de uma vingança de homens (nada) livres num universo de divisão social acerba - facilita talvez a compreensão da coincidência do projeto estético dos dois autores.

  Se os romances empreendem uma jornada revisionista, a de Riobaldo, querendo armar o ponto de um fato, conduz a linguagem a um ponto de luz, avança para o articulável, enquanto Faulkner empurra a linguagem para o interdito, em direção ao não ser. O maior segredo que Guimarães nos revela, entretanto, é o de que nossa força esteve sempre no diálogo, platônico ou não, com outras literaturas, mesmo que transportem estas um humanismo arrevesado, arrepiado e crespo, como o do autor William Faulkner.

n Sueli Cavendish é professora e pesquisadora visitante da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Departamento de Ciência da Literatura, doutora em Literatura Comparada pela UERJ (1999)


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