Edição de Terça-Feira, 9 de Abril de 2002
 
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Diálogo crespo de fidalgos e jagunços

Análise de obras de Faulkner e Guimarães Rosa sugere identificação de autores das Américas pela derrota

Suely Cavendish
especial para o DIARIO

Em entrevista concedida a Günter Lorenz, Guimarães Rosa nega enfaticamente que William Faulkner tenha exercido qualquer influência sobre a sua obra: "por haver sempre rejeitado sua visão de mundo" - explica ele - "por sua crueldade algo sádica". A aproximação entre os romances Grande Sertão: Veredas e O Som e A Fúria se faz, então, a contrapelo desse julgamento rosiano de Faulkner, uma nota sentenciosa e funérea que reverbera por contraste ao tom lúdico da entrevista.

  Guimarães Rosa publica Grande Sertão dez anos depois de Faulkner haver conquistado o prêmio Nobel. Ainda sob pleno impacto da obra faulkneriana sobre a América Latina, que se faz sentir desde os anos 30. Borges, nesta década, publicara (no periódico El Hogar) uma resenha sobre Absalão! Absalão!, comparando-o a O Som e A Fúria e diz: "Não conheço mais alto louvor". Em outra resenha ele proclama Faulkner "o mais notável romancista de nosso tempo".

  Borges traduz Palmeiras Selvagens para o espanhol e o publica em 1941. Sobre algumas passagensdeste livro ele afirma que "excedem notoriamente as possibilidades de qualquer outro escritor". Sinal de que o comércio entre a obra faulkneriana e a literatura praticada na América Latina é um empreendimento a pleno vapor é o atual estágio dos estudos culturais comparatistas nesse campo: Em Busca do Faulkner Latino-Americano, de Tanya Fayen, é um livro que fez carreira nas hostes acadêmicas com inúmeras edições, e cobre o repertório dessas interações durante meio século.

  O boom literário experimentado na América Latina de língua espanhola é aí creditado ao abandono do rígido cânone peninsular e à incorporação de vanguardas literárias de outros países, mas sobretudo à incorporação de Faulkner, que nesse processo teria tido um papel ímpar.

  As palavras de Carlos Fuentes, a uma audiência norte-americana, vão mais profundamente ao coração da matéria: "Sinclair Lewis, diz ele, é vosso, e como tal interessante e importante para nós. William Faulkner é tanto vosso quanto nosso e como tal é essencial para nós, pois com ele vemos aquilo que sempre conviveu conosco e raramente convosco: a face obsidiante da derrota." A irmandade na derrota, portanto, forja a identificação de autores da América Latina a Faulkner, derrota do Sul frente ao capitalismo do Norte. O Sul, nesse caso, abrangendo num mesmo território o Sul dos Estados Unidos e os países de um Sul ao sul deste Sul. E assim Faulkner se torna, verdadeiramente, como o deus Dionísio, o estrangeiro do interior, o nosso outro bem nosso.

  

RIOBALDO - Em que se sustenta, portanto, a condenação de Faulkner por Guimarães? Descontemos o desconforto e a irritação que a proeminência deste autor em nossos quintais lhe possa haver causado. Por outro lado consideremos, sim, que com Riobaldo - narrador, testemunha e personagem de Grande Sertão: Veredas - o autor brasileiro empreende um trabalho de escavação de nossa identidade.

  Riobaldo é o homem ético por excelência. Nascido pobre, recusa todavia o favor, essa que na formulação de Roberto Schwarz é uma nossa mediação quase universal, quando foge da fazenda do padrinho Selorico Mendes, onde vivia em pleno gozo de lordezas. A dúvida que Riobaldo encena já não é a de Bentinho com respeito à traição de Capitu, no Dom Casmurro, romance em que o favor é a mó que corrói as relações. A dúvida é projetada a alturas metafísicas. E tudo o mais no romance reflui para um magma universal.

  A derrota maior é a sofrida na batalha pela erradicação da dúvida. Que sempre se renova, na insana trama das palavras que o demônio tece. A singularidade de nossa atitude perante a derrota, aquilo que nos distingue no continente, fica entretanto demarcada - existe é homem humano, travessia. Na derrota, somos todos sertanejos, não somos fundamentalistas do Sul, não somos apocalípticos, não somos obsessivos.

  A condenação de Faulkner por Rosa parece de ordem moral e ética: "Por sua visão de mundo, por sua crueldade algo sádica". A quem se dirige tal sadismo? Certamente ao leitor. Não pelas atrocidades do enredo - linchamentos, estupros, incestos - pois de atrocidades o Grande Sertão está cheio.

  Sabedor da extensão com que em Faulkner a linguagem é ato, posto que também assim a experimentava, sabia do que Faulkner e a linguagem podiam ser acusados. A velocidade da prosa, a proliferação infinita de símiles, a arquitetura desumanamente justa, o forçar dos limites da comunicabilidade, o azougue maligno, enfim, e suas conseqüências: os riscos da leitura alucinatória, a frustração repetida pela negação de significados, o desregramento do desejo, o frenesi da mente, análogos mentais da autofagia. Que banida pela civilização vai buscar na razão totalizadora o seu substituto.

  Pois em O Som e a Fúria tal razão plenamente se presentifica, através do que Claude-Edmond Magny chamou de a "perversidade narrativa de Faulkner": mergulhando-se em sua obscuridade descobre-se não uma, mas um milhão de portas de entrada. De qualquer perspectiva todo o seu ordenamento se revela, da mais pequenina amostra se reconstitui o todo.

  Talvez Guimarães suspeitasse que aquilo a que visava Faulkner, com seus temíveis paradoxos e sua prosa maníaca, era a sua própria metamorfose em Dionísio, o deus que, conforme o descreve Marcel Detienne, compele a sua presa à destruição da própria carne. Embutir-se na obra é seu projeto, afirma Faulkner nos paratextos. Que finalmente conquista com O Som e a Fúria.

  Com O Som e a Fúria, repete, nas duas introduções, I made myself a vase. O que será lido também como I made of myself a vase, fiz-me vaso, livro, paradoxo de auto-inclusão, parente da Carta Roubada, de Edgar Allan Poe, cujo conteúdo, significado, é também, como O Som e a Fúria, roubado, ao leitor. Faulkner lamenta não haver deixado a sua obra apócrifa, como certos elizabetanos. E empenhou-se sempre em fazer da vida obra, em apagar os rastros de sua real biografia, em fazer da biografia ficção. "Um livro", disse ele a Jean Stein em 1956, "é a vida secreta do autor, o gêmeo sombrio do homem." "Como Ishmael é a testemunha em Moby Dick eu sou Quentin Compson em O Som e a Fúria, é outro de seus paradoxos pelo qual se implica no romance, como personagem.


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Um romance mirando outro, seu avesso







 

 
 
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