O show da vovó
A velhinha era simpática, e representava cem dos mais agitados anos da História do seu país, mas não deixa de ser um pouco "over" esse festival fúnebre que aprontaram para a rainha-mãe da Inglaterra. A cobertura do evento - ou dos eventos, pois o enterro de hoje é apenas a apoteose de uma semana ininterrupta de espetáculo - rivalizou em tempo de ar com a cobertura da crise no Oriente Médio, e o contraste é simbólico.
Uma vovó que definha tranqüilamente até sucumbir à fatalidade orgânica é o extremo oposto de uma adolescente que explode em público na Palestina, over-homenageando-a se está declarando uma preferência por vidas longas, mortes naturais e vovós pacíficas, ou vidas naturais, mortes pacíficas e vovós longas. A rainha-mãe acabou sua vida discreta transformada numa espécie de superstar da normalidade, símbolo não de domesticidade inglesa, mas da necessidade geral de sensatez e sentimentalismo, quanto mais básico melhor.
Os ingleses chocados com a sua morte aos 101 anos ou estavam esperando demaisda medicina inglesa ou choram por muito mais do que uma velhinha simpática. Mas suspeita-se que a monarquia britânica, ameaçada de obsoletismo pelo bom senso econômico, já que é o show mais caro do Mundo, e pela aparente mediocrização terminal de uma dinastia que nunca foi muito brilhante, só está mostrando serviço.
Cortejos e cerimônias são o que ela faz de melhor, e nos últimos anos tem se especializado em grandes funerais. Houve espetáculo mais bem coreografado e dirigido do que as pompas finais para a princesa Diana? Pois dizem que as da rainha-mãe, hoje, superarão aquele sucesso internacional. A mensagem da monarquia para povo e parlamento britânicos com a sua produção atual é: e vocês ainda não viram nada. Se não lhe tirarem os subsídios, ela pretende produzir espetáculos cada vez mais sensacionais.
O príncipe Phillip provavelmente não merecerá mais do que um enterro classe B, como foi o da princesa Margaret, mas programados para o futuro estão o funeral da rainha Elizabeth e a coroação do príncipe Charles - ou o inverso, se a rainha decidir renunciar antes dos 101 anos. E o casamento do príncipe William com a Britney Spears? Ninguém duvida da emoção genuína, ou que ela merecia, mas o enterro da Rainha-mãe também é, como dizem na propaganda, apresentação de "case" para patrocinador.