Insensatez sangrenta
A crescente violência registrada nos territórios palestinos desautoriza o emprego da expressão "pior impossível". Lá, piorar é sempre possível. E previsível. Desde 28 de setembro de 2000, quando provocou os palestinos ao visitar a Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, Ariel Sharon jogou uma pá de cal no cambaleante processo de paz e iniciou o processo de destruição da Autoridade Palestina.
Em resposta à intinfada, pôs em marcha espetacular máquina de guerra. O conflito atingiu níveis impensáveis. A cada ação suicida e homicida dos palestinos, Sharon contra-ataca com tanques e mísseis. Invadiu Ramallah. Ocupou Belém e outras cinco cidades da Cisjordânia. Mantém Yasser Arafat preso em condições humilhantes. Impede a ação de diplomatas, organismos internacionais e organizações humanitárias.
A democracia nunca foi marca do Oriente Médio. Até a sangrenta guerra civil que arrasou Beirute durante 15 anos, só Líbano e Israel conheciam o regime de franquias democráticas. Com o fim do conflito, o governo libanês impôs violenta censura aos meios de comunicação. Agora, chegou a vez de Telavive. A chamada guerra total submeteu Ramallah e outros territórios ocupados a inaceitável apagão informativo. A restrição à liberdade de Imprensa alimenta as piores suspeitas sobre os atos praticados pelos soldados judeus.
Eleito com o lema Segurança e Paz, Sharon trilha caminho que o afasta cada vez mais do objetivo. Suas ações estimulam o ressentimento e o ódio. Reforçam grupos terroristas, como o Hammas, frente aos moderados. Longe de acabar, o terrorismo suicida palestino ganha combustível. E assusta o Mundo.
Mais. Prisioneiro, Arafat se reforça como símbolo da causa palestina. Se sobreviver, será possivelmente o interlocutor que negociará a trégua com o inimigo. Seu exílio ou morte não porá fim à violência. Ao contrário. Desencadeará cruenta luta pelo poder. As conseqüências sangrentas não se restringirão à Cisjordânia. Mas atingirão em cheio o Estado de Israel, cujo povo inocente pagará com a vida a intransigência de seus líderes.
É inadiável interromper a marcha da insensatez. A posição ambígua do presidente George W. Bush, contrariando decisão do Conselho de Segurança da ONU, não contribuiu para a paz na região. Impõe-se uma ação efetiva e conjunta dos Estados Unidos, União Européia, Rússia e países da Liga Árabe para interromper a escalada da loucura. Bush parece ter dado um passo importante. Já não condiciona o diálogo sobre o futuro da Palestina a um - agora - impossível cessar-fogo. E, numa guinada na posição americana, confirmou a viagem ao Oriente Médio do secretário de Estado, Colin Powell, para conter a ofensiva israelense e retomar as negociações de cessar-fogo.
Artigos
Que modos de viver esses, hein?
André Resende
JORNALISTA
Tomara que o racionamento de energia tenha ensinado aos brasileiros o quanto todos nós desperdiçávamos dinheiro e natureza. A maioria conseguiu economizar a mais que o estabelecido. Comecei agora a pregar a sugestão de a sociedade brasileira antecipar-se a uma possível crise do petróleo, procurando também gastar menos combustível. E gás. Talvez estejamos andando demais, sem sentido. A proposta pode incluir os telefones celulares. Pouca coisa fez os brasileiros desperdiçarem tanto dinheiro quanto o uso de celulares. As pessoas substituíram coisas essenciais para poder pagar a conta do celular - um desperdício que, por poucas exceções, todos nós experimentamos a mais, às vezes muito a mais, que o necessário.
O custo de vida aumenta de geração a geração, numa espécie de sobretaxa evolutiva, somada ao acréscimo de bens tecnológicos. Até pouco tempo - não sei como conseguíamos viver sem isso! -, não havia uma programação disponível tão extensa e variada, e diferente, na televisão. As televisões eram abertas, grátis. Bastava que comprássemos o aparelho, em alguns casos uma antena externa, e acesso à energia elétrica. Agora, há o custo da TV por assinatura, melhor, mas, enfim, uma sobretaxa que teremos daqui para frente. O que está acontecendo é que estamos experimentando a tudo sem avaliar as verdadeiras necessidades e o que podemos caracterizar como desperdício. Era desperdício o tanto de energia a mais que gastávamos antes das metas de racionamento. Se conseguimos economizar energia, por que não conseguiremos controlar os nossos impulsos ao telefone celular, e no gás de cozinha, e no combustível?
No caso do combustível, a iniciativa deveria ser do Governo, para não ter de investir dinheiro em propaganda e reuniões, estabelecendo, por antecipação, metas de racionamento (estará o Estado brasileiro interessado?). No caso dos celulares, dificilmente a Agência Nacional de Telecomunicações pedirá aos usuários que controlem o uso do telefone móvel, evitando desperdício e orientando o dinheiroeconomizado para manter seus filhos estudando mais uma língua ou economizando um pouco mais de dinheiro para o futuro.
Substituindo R$ 100,00 por mês do celular por um plano de poupança, o cidadão terá, em dez anos, economizado, mais de R$ 12.000,00. Brasileiro acha pouco, porque aceita comprar um carro à prestação pagando em dois, três anos o equivalente a dois carros e meio. A verdade é que isso faz a diferença mais na frente. E celular, ora celular, celular não é nada, é só desperdício, que devemos aprender a usar, assim como é desperdício o descontrole dos combustíveis ou o número de sacolas plásticas nos supermercados. Você parou para pensar nisso? Aposto que sim. Eu não sei se a estratégia veio dos franceses, dos holandeses, dos americanos ou dos brasileiros, mas o fato é que a estratégia de praticamente um item por sacola plástica é para causar a impressão de que compramos muito mais com menos dinheiro. Quando americanos e europeus vão ao supermercado no Brasil, ficam assustados com a quantidade desacola plástica usada e se perguntam as razões para tanto desperdício. Desperdício de expectativas, de dinheiro e de natureza (você deve saber quanto tempo leva um saco plástico para se decompor e deve ver quantos deles estão ocupando a paisagem de praias, rios e mangues).
Que modos de viver esses, hein? E ninguém se importa. A maioria vive dificuldades e gasta como rico, mas os ricos, ricos mesmo, não representam nem mesmo 5% da população brasileira, o que é algo próximo de 8 milhões, divididos proporcionalmente pelos estados brasileiros - o que não é justo, nem corresponde à verdade -, fica alguma coisa de 300 mil por estado. Pernambuco, por exemplo, no Nordeste, que tem uma população próxima de 8 milhões, teria pouco mais de 3% da população apta a gastar sem rédea curta. Isso sugere que os crescimentos de consumo podem ser irreais, comprometendo as famílias a curto, médio e longo prazo, quando essas deixam de planejar a estabilidade econômica em nome de aprovações de status e sintonia com o tempo imediato. Os mais destroçados nesse processo são os jovens, que se vêem obrigados a responder a tudo com um grau de competitividade e sucesso baseados apenas em bens materiais e a cada geração encontram uma sobretaxa econômico-social dificultando a estabilidade. Não estamos, portanto, falando apenas de uma simulação de vida baseada no efêmero e no fragmentado, mas numa atuação de padrões onde o desperdício é geral e parece irreparável - isso para não entrar na questão ambiental que está por trás de tudo isso, nem dos custos sociais acionados em nome da evolução da sociedade.
Um agitador cultural
Cleofas Reis
JORNALISTA
O melhor sentido que possa ter a expressão "agitador cultural" ajustava-se à personalidade de Mauro Mota. É o que fica patente para quem ler publicação recente do DIARIO DE PERNAMBUCO, comemorativa dos 90 anos do seu nascimento.
O livro Agitação Cultural - O Suplemento e Mauro Mota, organizado por Jodeval Duarte, não nos permite uma leitura parcelada, do tipo que se encosta num canto hoje para se retomar depois. Inicia com objetiva apresentação do superintendente dos Diários Associados, em Pernambuco, Luiz Otávio Cavalcanti, e introdução de Marcos Vinicios Vilaça.
É diretamente da lavra de Jodeval parte referente ao espaço literário que o DIARIO reservou, primeiramente sob o nome de "Quatro Páginas", e depois de Suplemento, este durante 12 anos sob a direção de Mauro. Nas duas fases, "faz-se ponto de referência da intelectualidade nordestina, projeta autores", apoiando os novos talentos surgidos regionalmente. Tiveram guarida naquele espaço (poesia ou prosa) Carlos Pena Filho, Álvaro Lins, Lourival Vilanova, Vinicius de Moraes, Osman Lins, Edson Nery da Fonseca, José Gonçalves de Medeiros, Rodolfo Rangel Moreira, Ariano Suassuna, Edson Régis, Aderbal Jurema, Ferreira Gullar, Ledo Ivo ("Amar mulheres, várias, amar cidades, só uma - Recife"), Manoel Bandeira ("Recife morto, Recife bom", verso mais tarde bombardeado por Jorge Amado, em "ABC de Castro Alves"), Joaquim Cardoso.
Na chamada "Era Mauro Mota", o poeta assinou coluna que deu ênfase à análise literária dos novos valores, posicionando-se de acordo com sua visão e consciência. A par disso, continuou registrando no Suplemento a movimentação cultural, mantendo-o também como depositório de fotografias que por si sós corroboram o título de "Agitação Cultural" dado ao livro. A um mundo de acontecimentos nos remetem flagrantes de figuras (juntas ou isoladas) como Cyro dos Anjos, João Cabral de Melo Neto, Jordão Emerenciano, Gilberto Osório, Aderbal Jurema, Luís do Nascimento, José Lins do Rego, Olívio Montenegro, Nertan Macedo. E também de Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Pelópidas e Aristóteles Soares, Lopes de Andrade (meu conterrâneo campinense), Mário Sette, Waldemar Valente, Luiz Delgado, Jonas Ferreira Lima, Odorico Tavares, entre outros.
Depoimentos de Gilberto Freyre, Gilvan Lemos, Nelson Saldanha e Tadeu Rocha (este ex-repórter do DIARIO sob a chefia de Mauro) realçam a poliédrica face cultural do autor das "Elegias": além do sopro das musas, o alto nível do seu Jornalismo (e, aí, de repórter), de magistério (sua tese sobre o cajueiro) e de administrador (Fundação Joaquim Nabuco e Arquivo Público). Acrescentemos: de folclorista, pesquisador e crítico literário.
À semelhança de um processo gastronômico em que se consome do bom e do melhor e o final é coroado por uma inesquecível sobremesa, lê-se o livro e chega-se a algumas dezenas de crônicas. Nelas sobressaem elementos de cultura, discernimento, solidariedade e honestidade. Como a explicação da poesia de Gide; o lirismo e a dor ao evocar morte trágica do amigo e intelectual José Gonçalves de Medeiros; a não-condescendência com o escritor (e também amigo) Laurênio Lima,criticando-o quando achou que devia; a discordância de decisão da APL quando esta premiou um poeta em detrimento da obra maior do historiador José Antônio Gonsalves de Melo. Tudo em estilo leve e límpido do qual só poderia resultar o deleite e a admiração de quem o lê.