"Vamos fazer valer os direitos"
Marcionila Teixeira
Da equipe do DIARIO
As imagens de crianças morrendo com meningite, diarréia ou tétano neonatal em hospitais de Moçambique, na África, nunca vão sair das lembranças que permeiam a mente de Josefa Marrato, 46 anos, coordenadora do escritório do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) no Recife. Enfermeira, psicóloga e antropóloga, Josefa decidiu competir pelo cargo na cidade porque achava que tinha muito a aprender em um País como o Brasil, de língua portuguesa e com a situação da infância parecida, mas nunca igual à do país africano. Mãe de dois filhos adultos e apaixonada pela infância mundial, decidiu sair para sempre de seu dia-a-dia violento nas unidades de saúde da África - como ela considerava o trabalho nas enfermarias e UTI's pediátricas - para lutar por um mundo cheio de crianças felizes.
Na próxima sexta-feira, ela participa do lançamento do novo Programa de País do Unicef Fazer Valer os Direitos, em Pernambuco. O lançamento está previsto para acontecer entre as 9h e 12h, no auditório do Sebrae, na Ilha do Retiro. O novo programa é composto de cinco eixos estratégicos que vão abordar as crianças e adolescentes por seus ciclos de vida e não mais por áreas como saúde e educação como era o anterior. O programa começa a ser aplicado este ano e só deve findar em 2006, quando serão avaliados seus resultados. A grande característica do novo programa é ter as famílias como grandes aliadas para a garantia dos direitos das crianças.
DIARIO DE PERNAMBUCO - Onde a senhora buscou experiência de vida para se inscrever no cargo?
Josefa Marrato - Acreditei que o que tinha aprendido na África, como enfermeira e psicóloga podia ser uma porta aberta para ajudar a resolver os problemas das crianças daqui, que achei similares aos dos meninos e meninas de lá. E por que não aprender da realidade brasileira. Moçambique é o único País de expressão portuguesa num lugar onde todo mundo fala inglês. O País faz fronteiras norte, sul e oeste com países de expressão inglesa. Qualquer coisa que quisesse aprender de uma região com a mesma língua, que é importante para a cultura, tinha que ser em Angola ou Brasil. Guiné Bissau e Cabo Verde, por exemplo, são bem menores, têm mais tendência a aprender de Moçambique que o contrário. Angola está em guerra, se fechou em si e só sobrevive, não tem muito o que aprender. O Brasil é o único de expressão portuguesa que me mostrou que Moçambique poderia aprender alguma coisa. Vim num processo de dar e receber.
DP - Como foi o processo para assumir o cargo no Brasil?
Josefa - Depois do mestrado em Antropologia, fui trabalhar com o Unicef na área de descentralização em saúde, participação comunitária em saúde, saúde reprodutiva e sexual do adolescente, prevenção de HIV e Aids. Trabalhei nisso por seis anos em Moçambique, entretanto, surgiu oportunidade de trabalhar no Brasil. No Unicef, os empregos são sempre publicados em jornais locais, se o emprego for local, e no site do Unicef se as vagas são internacionais. Acho que tenho muito para aprender no Brasil e, eventualmente, coisas para ensinar no Nordeste. Tinha informações dos problemas da região, que tem similaridades com locais da África.
DP - E já foi possível aprender muita coisa?
Josefa - Tenho aprendido muito. Mesmo sobre o papel do Unicef. Na África e no Brasil esses papéis são diferentes, variam de acordo com o nível de participação da sociedade civil, de acordo com as condições econômicas do País. O Brasil é a oitava ou nonaeconomia do Mundo. Tem os recursos internos que têm papel importante para o trabalho do Unicef, diferente de Moçambique. Tenho estado aqui aprendendo a me ajustar ao papel do Unicef no Brasil, como ele é. É interessante parar para refletir. Pensava que não era assim e é. Olhando de perto desigualdades, temos visão bem diferente do que olhando de fora, ou lendo jornais.
DP - Como assim?
Josefa - O Nordeste não é bem como é pintado. O Semi-árido é visto como aquele deserto de terras rachadas, esqueletos de boi, crianças esfomeadas e barrigudas, coisas assim que a gente pensa que ali é outro ponto do Mundo, não é o Brasil. Mas, visitando a Paraíba, Alagoas dá para entender que não é assim. Há ignorância também de quem vive nos outros lugares. E o que se escreve e diz nem sempre corresponde à verdade.
DP - Seria preconceito de outras regiões?
Josefa - Acho que é falta de informação. Não quero arriscar juízos de valor. O Brasil é grande. Descobri também que há pessoas que vivem aqui e nunca foram a Brasília e oinverso é verdade. Então o que dizem é o que ocorre no imaginário delas. Há pessoas que quando ouvem falar, por exemplo, da África perguntam se não é perigoso dirigir e precisar mudar o pneu furado por causa dos leões. Existe esse conceito de que há leões em qualquer lugar da África e eu tenho que explicar que não é bem assim. Para ver leão na África agora a pessoa tem que ir para uma reserva, ir para local próprio para ver leões. Isso também acontece aqui. Moradores do próprio País falam como se o Nordeste fosse pouco desenvolvido, voltado ao abandono, um lugar onde as pessoas não sabem muito. Isso pode até ser preconceito, mas o desconhecimento da realidade conta muito.
DP - O que mais chamou a atenção da senhora no Nordeste?
Josefa - Os indicadores da infância no Nordeste são piores que os indicadores nas outras regiões. A título de exemplo, em Pernambuco, Paraíba e Alagoas existem os piores indicadores de infância. Eles têm a mortalidade infantil mais alta, têm o índice de desenvolvimento infantil mais baixo, o índice de desenvolvimento humano mais baixo, o maior número de crianças de 7 a 14 anos vivendo em famílias com dois salários mínimos ou menos. Essas coisas chamam a atenção. Apesar de a gente ver que não é exatamente o que é pintado, a gente diria que a atitude em relação à região corresponde ao que é pintado. Esses indicadores estão nessas condições porque tem qualquer coisa que está faltando aqui que não falta em outros lugares. A maior parte do Semi-árido brasileiro está no Nordeste e é onde tem ainda o maior número de doenças diarréicas porque não tem água limpa. Nessas áreas as crianças têm mais doenças da pele e maior desnutrição infantil. Essas coisas nos chamam a atenção e fazem com que o programa do Unicef no Brasil, apesar de ser comum a todo País, responda às especificidades. O programa que estamos lançando em Pernambuco tem dois pilares fundamentais: o ciclo de vida da criança e a família.
DP - O outro programa se dividia por assuntos, como saúde, educação e agora passa a abordar os ciclos de vida das crianças e adolescentes?
Josefa - O lançamento do anterior coincidiu com o lançamento do estatuto. O título, o mote, foi o direito a ter direito. Era para ajudar o País a lançar o estatuto, criar as bases para a sua implementação. Parando e olhando para trás observamos que o Unicef investiu bastante nisso e que o País progrediu. Mesmo refletindo naquilo que foi o desempenho do Unicef em relação às metas da cúpula definidas em 1990, a gente viu que houve progressos. Não atingiu a totalidade que se propunha atingir, é verdade. Propunha-se reduzir a mortalidade infantil até 30 por mil, mas chegou-se a 34 por mil. Propôs a redução da mortalidade materna, mas não conseguiu alcançar a redução e nem é possível falarmos sobre cifras porque nem sequer tem sistema de informação que traz dados confiáveis. Propôs colocar todo menino entre 7 e 14 anos na escola e conseguiu-se 97% deles na escola, mas a qualidade da escola é que é o problema agora.
DP - Como vai funcionar o novo programa?
Josefa - O programaagora vai olhar para a criança na totalidade, pelos seus ciclos de vida e se baseia muito mais na família. O mote agora é fazer valer os direitos. O programa tem cinco eixos: desenvolvimento infantil, educação para inclusão, cidadania para adolescentes, além de monitoramento e comunicação pelos direitos da criança e sistema de garantia de direitos e proteção.
DP - É verdade que a criança será acompanhada desde a gestação no primeiro eixo?
Josefa - O componente desenvolvimento infantil é destinado a crianças de zero a seis anos e é muito inovador. Vamos olhar para a criança e para a mãe. A questão da mortalidade materna vai ser acompanhada desde o pré-natal. Vamos ver se a gente consegue que as mulheres façam as consultas pré-natais necessárias, no mínimo seis. Somente a Paraíba conseguiu ter 55% de mulheres com seis consultas pré-natais, no mínimo. Também haverá esforço para que as mães tenham parto de qualidade. Assegurando a maternidade segura, asseguramos também um bom começo para a criança. Temos que cuidar para que a educação infantil seja de qualidade. O que acontece hoje é que as creches estão tentando com os meios que podem, mas não estão servindo às necessidades dessas crianças.
DP - O que seria uma creche ideal?
Josefa - Estudos mostram que apenas 30% de crianças têm acesso à creche. E essa creche não tem sido aquela instituição que estimula a educação infantil. Tem sido um local muito usado para guardar o menino. O Unicef não vai investir na especificidade de apoiar a questão creche como instituição ou gastos correntes. Vamos investir em apoiar a melhoria desse programa que está sendo implementado na creche. Trazer a família. A mãe não pode só guardar o menino. A mãe tem que saber que tipo de programa o menino tem na creche e exigir a melhoria desse programa. O estatuto diz que o menino tem direito à educação infantil, ao ensino de qualidade. Mas é como muitas coisas que estão previstas na lei e não foram implementadas.
DP - E quanto ao segundo componente do programa?
Josefa - O segundo componente é a educação para a inclusão. Pegar os 3% de meninos de 7 a 14 anos que estão fora das escolas e colocá-los lá para se unirem aos demais e fazer com que os 100% saiam das unidades escolares com sucesso. Vamos lutar para reduzir a repetência, o abandono escolar. É proposta também trabalhar com os fazedores de política e com quem trabalha na educação, no desenvolvimento de propostas pedagógicas adequadas a características socioeconômicas das crianças.
DP - O terceiro eixo é mais voltado para o público adolescente.
Josefa - É. atinge o público entre 12 e 18 anos. Ajuda eles a participarem como sujeitos do desenvolvimento de sua própria cidadania. Temos várias atividades previstas, desde a participação em rádios, em atividades de cultura, lazer, esporte, saúde e educação. Vamos criar espaço saudável para ele desenvolver seu pleno potencial de cidadania. Há ainda dois programas transversais, ou seja, para todas as idades. Um deles é sistema de garantia de direitos e proteção a todas as idades e o outro é monitoramento e comunicação pelos direitos da criança. Vamos trabalhar para fazer funcionar os conselhos, acionar mecanismos de denúncias e outros que possam garantir os direitos das crianças.
DP - De onde vem sua paixão pela infância?
Josefa - Acho que tudo isso foi da minha formação, do meu trabalho inicial. Quando me formei como enfermeira, fui trabalhar numa enfermaria de pediatria, antes de ir para a UTI, o que precisa de alguma rodagem. Tinha que cuidar das crianças, ajudar as mães. Acho que ali aprendi primeiro a ter comiseração. Tinha uma pena incrível, ficava tão doída. Toda criança que conseguia recuperar era uma vitória e eu festejava. Sofria profundamente quando alguma morria. E você não pode imaginar quantas crianças morrem na África. Só a mortalidade infantil em Moçambique, nesse momento, é de 140 por mil. Se comparar com o Brasil são 34 por mil. Isso antes de completarem um ano. Na UTI é pior ainda porque lá de cinco que entram três morrem.
DP - Dessas histórias tristes alguma marcou mais a senhora?
Josefa - Muitas. Havia doenças complicadas. Havia tétano neonatal que cria sintomas arrepiantes. A criança fica com convulsão, espumando pela boca, virando o olho. A meningite também provoca convulsão. Havia também a diarréia e a desidratação, que deixa a criança velha, velha. Cada vez que penso no sofrimento das crianças, lembro dessas imagens, dessas caras. Foi meu carma mesmo, trabalhar com meninos e meninas. Trabalhar no Unicef é minha forma de demonstrar esse amor, de forma mais desligada do sofrimento. No Unicef penso criança feliz e pensando assim vou pensar em trazer para todas as crianças um Mundo feliz. Antes era muito violento para mim ver criança morrer. Estava ficando violento. Prefiro viver sonhando com crianças felizes.
DP - A senhora foi uma criança feliz?
Josefa - Fui filha única. O único problema é que não tinha irmão para brincar, mas fui feliz, tinha muitos amigos imaginários.