Edição de Domingo, 17 de Março de 2002
 

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Opinião

O controle das águas

O Brasil avnça um pouco mais no tratamento das questões ambientais ao começar a cobrar pelo uso da água de rios e bacias hidrográficas. A medida, autorizada pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos, é um passo importante na direção do aproveitamento responsável e maduro de um dos bens naturais mais ameaçados do planeta. Da água pensou-se durante algum tempo que seria um recurso infinito e auto-regenerável. Mas dois séculos de explosão populacional das cidades, industrialização intensiva e irresponsabilidade ecológica mostraram que essa era esperança ilusória. Bacias e mananciais hídricos, da mesma forma que o ar e o solo, são organismos frágeis. Se maltratados, degradam-se e estiolam. Perdem a capacidade de sustentar a vida.
  Uma das grandes revoluções da consciência humana no século que passou foi a provocada pela constatação de que o desenvolvimento tecnológico tem duas faces. Pode libertar a humanidade de algumas das mais severas limitações que a natureza impõe, mas carrega, igualmente, a capacidade de destruir essa mesma natureza. Cabe a nós escolher o caminho.
  A cobrança do uso da água vai no rumo certo. Permitirá ao poder público distribuir com mais justiça as responsabilidades pela degradação dos rios, cobrando do mau usuário, do poluidor renitente, a taxa correspondente à gravidade de seu delito. Hoje, todos - bons usuários, consumidores incluídos - pagam igualmente pela agressão cometida por alguns.
  A nova taxa trará para os cofres públicos, igualmente, recursos necessários para o financiamento de programas de despoluição e de regeneração ambiental.
  Essa é uma necessidade crucial de alguns dos mais importantes rios, bacias e corpos aquáticos do país. Basta pensar, por exemplo, no limite da degradação a que estão submetidos hoje os rios Tietê e Pinheiros, que cortam a região metropolitana de São Paulo, e a baía da Guanabara, ícone internacional do Rio de Janeiro e do Brasil.
  Para que uma boa providência não se perca pela má aplicação, entretanto, são indispensáveis alguns cuidados. O primeiro é a garantia de que os recursos arrecadados pela cobrança da taxa da água sejam efetivamente destinados aos fins que a justificam. A experiência recente do Brasil, nesse aspecto, não é animadora.
  Não faltam vozes lembrando que a Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira, criada inicialmente como recurso para financiar gastos com a saúde pública, tornou-se afinal apenas mais um tributo a cobrir despesas governamentais de qualquer natureza. É preciso impedir que o desvio de função se repita.
  É igualmente indispensável que o poder público se prepare para executar com eficácia e transparência as tarefas indispensáveis à implantação da nova taxa. O governo precisará cadastrar os usuários residenciais e corporativos das águas de rios e bacias, avaliar a qualidade do tratamento que dão à água consumida e impor as penalidades necessárias aos maus usuários.
  Não é pouco trabalho num país do tamanho e da complexidade do Brasil. Há dúvidas se a infante Agência Nacional das Águas (ANA) está equipada para desempenhá-lo. Cabe ao governo demonstrar que sim, driblando a repetição dos problemas de regulação e fiscalização enfrentados pelo punhado de agências criadas na esteira da privatização e desregulamentação de alguns serviços públicos.








 

 
 
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