Frederico Barbosa exorciza a depressão
Luciana Veras
especial para o DIARIO
"Fim de domingo - ao som da TV - a vida pelo ralo - desperdício de ser". Quem nunca se sentiu assim, perdido e desnorteado diante do turbilhão de emoções despertado pelo primeiro dos dias da semana, que atire a primeira pedra. O poeta pernambucano Frederico Barbosa não esconde de ninguém a tristeza que a falta de perspectivas, não só televisivas, lhe causava. Tanto que decidiu transportá-la para a poesia. Adepto da crença de que "tem um pouco de autobiográfico em tudo que se faz", ele concebeu o longo e único poema que constitui Louco No Oco Sem Beiras - Anatomia da Depressão, livro a ser lançado e autografado hoje, a partir das 19h, no bar e livraria Senhor Martins, no Pátio de São Pedro.
"Procurei traduzir algo de que muita sofre nesse mundo neoliberal e consumista. Eu mesmo me senti assim, numa sensação de depressão e certa impotência", conta Frederico, um pernambucano de 40 anos radicado em São Paulo há décadas que ganhou o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, com Nada Feito Nada, publicadoem 1993. A este volume se seguiu o elogiado Contracorrente, do qual o poeta saiu para Louco No Oco. Com 88 páginas, foi escrito em dois meses, porém alguns fragmentos remontam a épocas passadas. "Foi o mais rápido que escrevi, mas nele existem coisas que estiveram guardadas durante 15 anos", revela o autor.
No livro, explica o autor, o poema é permeado de fragmentos "em que se fala sobre como as pessoas se sentem hoje". Ele cita o trecho sobre a melancolia do domingo (veja abaixo) como um dos que mais ecoam este vazio e afirma que foram vários os leitores a procurá-lo, assumindo uma identificação total com o texto. "As pessoas ficam mais fortes ao ler. É um livro forte e deprê, mas faz com que elas não se sintam só", argumenta o poeta.
E quanto à opção de transformar a depressão num enorme bloco poético? Frederico ratifica que "trabalha a forma no sentido de fortalecer o conteúdo". "Não exite a estética sem o conteúdo", opina, acrescentando em seguida: "A escolha do conteúdo já é estética". O resto, diz ele, é burilar, cortar e retrabalhar tudo aquilo. "Escrever é ir lapidando até chegar ao ponto de coesão", sintetiza.
Falando em redigir, o poeta que disponibilizou boa parte da sua produção literária na Internet (visite o site sites.uol.com.br/fredbar) e trabalha como professor de Entendimento de Texto e Literatura Brasileira num cursinho em São Paulo avisa que já está com o quinto livro pronto. Tem o título provisório de BrasiBraseiro e é uma parceria com o baiano Antônio Risério. Seja lá quais tenham sido as causas do mergulho depressivo de Frederico Barbosa, pode-se dizer que ele, através da poesia, chegou à superfície. "Escrevendo eu me sinto bem. Sinto que estou fazendo algo interessante pra mim e para os outros", conclui.
Serviço
Lançamento do livro Louco No Oco Sem Beiras - Anatomia da Depressão, de Frederico Barbosa (editora Ateliê Editorial,
88 páginas, R$ 25,00)
Onde: Bar e Livraria Senhor Martins (Pátio de São Pedro, casa 25). Informações: 3424.1366
Quando: Hoje, a partir das 19h
Entrada franca