La madre
Durante quase 20 anos, a mãe de Jorge Luis Borges leu
para ele, e imagino que ninguém tenha feito uma ficção sobre isto, porque
só um escritor poderia fazê-la bem: o próprio Borges, que não fez.
Ou fez? Um conto de Borges sobre o cego Borges dependendo da mãe para
as suas leituras, e à medida que envelhece pedindo para revisitar velhos
favoritos, as coisas que leu na juventude tomando nova forma em sua
mente pela voz da mãe, e às vezes estranhando que a sua lembrança não
corresponda ao que a mãe está lendo.
- Madre, você não pulou uma parte?
- Não, meu filho.
- Me lembro que aqui tem toda uma cena em que Hamlet acusa sua mãe,
Gertude, de adultério, e pede que ela se arrependa dos seus pecados.
- Sempre achei a Gertude um personagem supérfluo em "Hamlet", meu filho.
- Mas, madre...
E na cena tem a morte acidental, completamente gratuita, de Polonio.
Essa peça já tem sangue demais. Vamos esquecer a Gertrude.
A tragédia de Édipo também tem uma leitura diferente, na voz da mãe
do Borges. Édipo perde a visão, mas não porque arranca os olhos quando
descobre que matou o pai e casou com a mãe, mas por outra razão que
não tem nada a ver.
Na versão da mãe do Borges, Édipo nunca descobre que Jocasta é sua
mãe. Os dois continuam juntos. Jocasta lê para ele, e eles são felizes.
- Madre, madre, não era assim que eu me lembrava do "Édipo"...
- Sshhh. Assim é melhor.
- Eu deveria ter desconfiado que isto ia acontecer. A lembrança mais
remota que eu tenho é de você tentando me convencer que uma colher era
um aviãozinho. Você já era uma revisionista.
- Voltamos àquele tempo. A colher é o que eu quiser que ela seja.
- Mas, madre...
- Ssshh. O que vamos ler agora?
Comentário dos leitores:
"A propósito de uma ficção sobre Borges, lembrei de
um filme argentino chamado Por um amor de Borges (segundo o diretor
baseado em "fatos reais", mas sempre ficção, nao é?), que mostra a dependência
de Borges a sua Super Mãe. Era isso!! " Lylith, por e-mail.