A campanha para repatriar do México para o Brasil as cinzas do líder das Ligas Camponesas, Francisco Julião, recebeu ontem a adesão do deputado federal José Múcio Monteiro (PSDB). Os dois estiveram juntos na campanha estadual de 1986, quando Múcio (então no PFL) disputou o Governo do Estado e teve o apoio de Julião - numa aliança que uniu adversários históricos e surpreendeu o meio político nacional. Nascido em Bom Jardim (PE), Julião morreu em 10 de julho de 1999, em Tepoztlán, pequeno município do México. Foi cremado e suas cinzas permanecem lá até hoje, sob os cuidados da mulher com quem ele vivia, a mexicana Marta Rosas.
Amigo de Marta, que conheceu durante a eleição de 86, José Múcio disse que está disposto a viajar ao México para - acompanhado dos familiares de Julião - tentar convencê-la a deixar as cinzas serem repatriadas para o Brasil. "A história dele está aqui, é aqui que suas cinzas devem ficar", disse. Semana passada o vice-presidente Marco Maciel também apoiou a campanha, comprometendo-se atratar do assunto com o Ministério das Relações Exteriores.
As Ligas Camponesas surgiram em 1955 e foram extintas após o golpe militar de 31 de março de 1964. Cassado (era deputado federal) pelo novo regime, Julião exilou-se no México a partir de 1965. No Brasil ele foi casado com Alexina Lins Crespo, com quem teve quatro filhos. Três deles - Anacleto, Anatólio e Anatailde - moram no Recife e estão à frente da campanha pelo repatriamento das cinzas.
HISTÓRIA - Amigo de Fidel Castro e Che Guevara, defensor da reforma agrária "na lei ou na marra" (slogan das Ligas), Julião afastou-se do palanque das esquerdas nas eleições de 1986 e aliou-se ao PFL. A união foi feita em torno do que se chamou "Pacto da Galiléia", pelo qual os usineiros comprometiam-se a doar 10% de suas terras para a reforma agrária, caso Múcio fosse eleito. O vitorioso, porém, foi Miguel Arraes. Candidato a deputado federal pelo PDT, Julião teve pouco mais de 4 mil votos.