Edição de Quarta-Feira, 16 de Janeiro de 2002
 

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De olho nos estados

Arlete Salvador
correiosp@terra.com.br

Na praça central de qualquer cidade, existiam quatro marcos principais - a prefeitura, a igreja matriz, uma loja das Casas Pernambucanas e uma agência do Banco do Brasil. As prefeituras e as igrejas continuam lá, as Pernambucanas faliram, substituídas pela Riachuelo ou Marisa, e o Banco do Brasil fechou agências pouco lucrativas. O espaço financeiro vai, aos poucos sendo preenchido por representantes locais, contratados pela Caixa Econômica Federal para pagar os benefícios sociais, como o bolsa-escola. Os tempos mudaram: sai a cesta básica e entra o cartão magnético.

  Nada mais apropriado para um ano eleitoral em que a vida diária e suas pequenas dificuldades terão um peso enorme. "Não existe, até agora, uma idéia nacional para atrair a atenção dos eleitores", explica Fernando Abrucio, professor de Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Fundação Getúlio Vargas. "Eles estarão preocupados com o que acontece no quintal de casa, como a falta de emprego, a qualidade de ensino da escola dosfilhos e o índice de violência". Por isso, as coligações regionais ganharam estatura este ano. Garantir um "palanque" nos estados, onde um candidato forte a governador pode atrair votos para o candidato a presidente da República, tornou-se vital.

  É um fenômeno contrário ao que aconteceu em 1994 e em 1998. Foi o candidato a presidente mais forte, no caso, Fernando Henrique Cardoso, quem puxou votos para os governadores e deputados. Em São Paulo, em 1998, por exemplo,

  FHC chegou a aparecer em outdoors ao lado de Mário Covas, então governador do estado e candidato à reeleição, e de Paulo Maluf, arquiinimigo dos tucanos. Nos estados, brigava-se pelo apoio do presidente. Desta vez, com a eleição nacional fragmentada, quem tem votos está nos estados e municípios, até por estar mais próximo do eleitor e de suas necessidades pequenas.

  Os arranjos regionais, até agora, colocam o PFL e sua candidata a presidente, Roseana Sarney, em maus lençóis. Nos cinco maiores colégios eleitorais do país, ela só tem um bom palanque na Bahia. Nos demais (São Paulo. Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), ela está sozinha. Seu partido está costurando coligações com outros partidos competitivos, principalmente o PSDB, mas não tem estrutura própria. Quem vai ciceronea-la pela periferia das capitais ou convidá-la para visitar uma obra no interior?

  Outro componente que fortalece os candidatos a governador é a quase certeza de que, desta vez, a eleição presidencial terá segundo turno. Serão eles, portanto, puxadores de votos para deputados federais. Não é por outra razão

que o PFL, pragmático como é, está construindo alianças locais independentemente do quadro nacional. Bancadas grandes, afinal, são artigo de barganha no futuro governo nacional, qualquer que seja ele.

  Para os partidos médios e pequenos, essas coligações regionais, capazes de aumentar a representação na Câmara, representam a sobrevivência política. Todos têm em mente a chamada cláusulas de barreira, que exige dos partidos a obtenção de 5% dos votos apurados(menos brancos e nulos) e pelo menos 2% em um terço dos estados. Sem isso, perdem tempo de televisão e recursos do Fundo Partidário. Nessa situação estão o PPS e o PDT, envolvidos em tratativas para uma eventual união nas próximas eleições. "As alianças locais vão nos ajudar a atingir o patamar de votos exigido", diz o senador Roberto Freire, do PPS. Este ano, embora a disputa presidencial seja a mais comentada, é nos estados que se medirá a força real de cada candidato.

  

QUEM MANDA?

As dúvidas sobre a participação do presidente Fernando Henrique Cardoso na condução do processo de escolha de seu sucessor, inclusive na definição de nomes que representem o seu partido e o governo, não têm fundamento. Ele pode até negar publicamente, mas conduzir ou, no mínimo, influenciar o processo, é tudo o que se esperava dele nos meios políticos, como presidente da República e como um dos líderes do PSDB. Depois da morte de Mário Covas, aliás, a preocupação não era saber se o papel de liderança caberia a FHC, mas se ele teria condições, talento e vontade de exercê-lo. Portanto, o que desagrada alguns tucanos e até pefelistas não é exatamente a participação de FHC, considerada natural, mas o conteúdo dela e os seus resultados.

   "MÁ-VONTADEZINHA"

Os tucanos da Paraíba estão irritadíssimos com o ministro da Integração Nacional, Ney Suassuna (PMDB). Já reclamaram com o presidente do PSDB, José Aníbal, com o secretário-geral da presidência, Arthur Virgílio, e até com o próprio FHC. Estão convencidos de que tem a mão de Suassuna na retenção de uma verba de R$ 12,9 milhões para o Estado. O dinheiro corresponde a uma emenda de bancada, garantida pelo PSDB no orçamento de 2001. Até agora, o dinheiro não saiu. "Houve má-vontadezinha do ministro", diz o deputado Domiciano Cabral. Segundo ele, para consertar o estrago, o presidente prometeu ao PSDB da Paraíba que a verba vai sair do orçamento de 2002.

Garantir um "palanque" regional, onde um candidato forte a governador pode atrair votos para o candidato a presidente da República, tornou-se vital. É um fenômeno contrário ao que aconteceu em 1994 e em 1998.








 

 
 
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