Jogo limpo
O torcedor aguarda, desconfiado, o início da temporada
de futebol. No próximo final de semana, os principais clubes
brasileiros estarão em campo para disputar as copas regionais,
ponto de partida do calendário quadrienal esboçado em
2001.
Depois de duas comissões parlamentares de inquérito
e uma enxurrada de escândalos envolvendo a elite da
cartolagem nacional, o mínimo que se espera é o cumprimento
das regras do jogo. O país do futebol não suporta mais
a convivência com falcatruas engendradas por indivíduos
que só pensam em engordar suas contas no exterior.
Ninguém foi para a cadeia (ainda), mas o trabalho
das CPIs rende frutos. Da noite para o dia, como se a crise econômica
tivesse nascido com o colapso da Argentina, os dirigentes dos grandes
clubes decidiram rever seus conceitos de gestão. Nada de salários
astronômicos e contratações milionárias.
Gastar mais do que se arrecada? Nem pensar.
Longe de ser nova cultura empresarial invadindo as mentes
de nossos cartolas, a mudança dos ventos tem explicação
bem mais pragmática. Simplesmente, foi revelada a mágica
que permitia negociações mirabolantes e produzia um paradoxo:
dirigentes com os bolsos cheios, clubes na penúria. O mercado
informal do futebol brasileiro, com portas escancaradas para sonegação
fiscal, lavagem de dinheiro e contratos de gaveta, agora está
sob a mira do Ministério Público e dos órgãos
fiscalizadores do Estado.
A final do último Campeonato Brasileiro, entre Atlético-PR
e São Caetano, é exemplar. Dois clubes médios,
sem jogadores caros, mas com salários em dia, praticaram o melhor
futebol do país em 2001. Do outro lado da moeda, equipes da tradição
de Flamengo e Vasco, repletas de craques caros, não conseguiram
honrar suas contas, nem cobrar bom desempenho de seus medalhões.
Para que o futebol brasileiro sofra realmente uma revolução
de costumes, transparência administrativa e calendário
racional são palavras-chave. A bola precisa rolar nos gramados
livre de conchavos que alteram tabelas, consagram viradas de mesas e
premiam a corrupção.
Se, num primeiro momento, o freio de arrumação
provocar a falência de clubes desorganizados e o recrudescimento
do êxodo de jogadores para a Europa, paciência. Mais à
frente, o resultado virá, com a inserção do Brasil
na verdadeira indústria do futebol, em que patrocinadores investem
pesado, mas exigem competência.
Vivemos ano de Copa do Mundo. O torcedor jamais esquecerá
que o desmando dos dirigentes quase provocou inédita eliminação
da Seleção Brasileira. E não tem muitos motivos
para confiar numa boa exibição em campos coreanos e japoneses.
Ele exige, porém, que o pontapé inicial da moralização
se transforme em gol de placa.