Edição de Domingo, 6 de Janeiro de 2002
 
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Viver

Ronildo Maia Leite

Bom-dia, Recife

Jornalista e diretor do Arquivo Público Estadual

1 - Não se entregava fácil. Melhor dizendo, para ele tudo era necessariamente fácil. Difícil somente foi o seu iniciar de vida no Recife, pobre vítima, que de fato o era, do êxodo rural. Filho pobre de nobres senhores de engenho em decadência. Não pensava duas vezes diante das dificuldades. Tirava tudo de letra. Sem dúvida, um homem triunfal.

  Ontem, recebeu delicado telefonema do gerente do banco:

  - Olha, a sua duplicata venceu...

  - Mas é claro... sou um homem bem-sucedido... tudo meu tem que vencer...

  Num cruzar de pernas, aquietou as duas nádegas na poltrona. Se deu ao luxo de um traque. E ao cinismo de colocar o fone no gancho.

  2 - Intrinsecamente desocupado. Um descompromissado com a vida. Lia jornais para desfrutar o tédio das manchetes. Sorria da inflação. E zombava das guerras.

  Como um justo, dormia além do meio-dia. Com risível desprezo, folheava a Imprensa dita local. Uns medíocres, resmungava a fazer bolotas de catota na ponta dos dedos.

  Depois do banho, o escritório dos amigos. Acomodava o corpão na poltrona. Reclamava do cafezinho frio, da água morna. Reparava os jornais do Sul, todos eles. Depois das oito, o bar. Eloqüentes todas as suas madrugadas.

  Ontem, quando entrou no escritório, o amigo o esperava com as duas mãos apoiadas no queixo. Tudo foi muito rápido. A gaveta já estava aberta. Inusitado o gesto. Uma ameaça, quase. Esbugalhou os olhos. Um ar de espanto. Uma arma? Não, parecia uma cruz.

  Escancarada em sua cara, uma carteira profissional. Soltou urros de drácula e saiu correndo.

  Acabava de ser exorcizado.

  3 - Há uns bons trinta e cinco anos, mourejava na redação de um jornal. Vinha do tempo em que ainda não existia telex, terminal de computador, noticiário nacional e internacional chegando pela radiofonia. Ofício: tradutor de telegramas. Não viu o dilúvio, mas tem o pé sujo de lama, ironizavam os mais jovens, que ele comandava de cacete na mão.

  Era, a um só tempo, tradutor e editor. Em ambos, fazia nada. Por ele, se matavam os colegas, catando milho em cima da velhamáquina Underwood. De mansinho, ele chegava por trás, feito censor de internato. Mandava, ordenava, não fazia bulhufas. Lento no falar, preguiçoso no fazer, áspero no mandar. Ganhou o apelido de Vagareza Durão.

  Ontem, depois de muito tempo, de novo o moço foi visto na redação dos jornais. Campanha salarial. Estabilidade de emprego. Nisso, o vagareza não era durão.

  4 - O sr. é casado?

  - Sou, seu Coimbra...

  - Tem filhos?

  - Dois, uma garotinha de seis e um menino de quatro...

  - Gosta de sua mulher?

  - Adoro...

  Era quase meia-noite e Eugênio Coimbra Júnior estava fechando a página de polícia.

  - E se o Sr. chegasse em casa agora e encontrasse a sua mulher na cama com outro homem?

  - Qué qué isso, seu Coimbra... Olhe o respeito...

  No Alto José do Pinho, marido enciumado usou uma foice para abrir em duas a cabeça da esposa encontrada na cama fornicando com o vizinho. Na abertura da matéria, o repórter escrevera singular heresia:

  - Pelo simples fato de ter encontrado a mulher em flagrante adultério...

  Dito repórter era vezeiro em composições do tipo crioulo doido. Coimbra não deixava escapar:

  - Inédita é a sua avó...

  O jovem repórter chegara de uma trivial cobertura num distrito policial. Dessas que se repetem às pencas nas madrugadas na zona de meretrício. Tascou, logo na cabeça da notícia:

  - Pela segunda vez consecutiva, aconteceu o seguinte fato inédito...

  Dessa vez, Coimbra o olhou pelo aro do óculos. Sem esporro, desprezo ou desdém. Cabisbaixo, o rapaz caminhou de mansinho. Deixando o rizinho amarelo dos idotas natos.

  Ontem, quem o via na redação do jornal tinha o perfil horizontal de todas as burrices triunfantes. Que o leitor seja louvado...








 

 
 
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