Edição de Domingo, 6 de Janeiro de 2002
 

Início Diario de Pernambuco Verissimo

Cadernos

Política
Brasil
Mundo
Economia
Esportes
Vida Urbana
Viver
 

Suplementos

Revista na TV
Empregos
Viver Mulher
Viagem
Informática
Saúde
Carro
Imóveis
 

Serviços

Assinaturas e Renovações
 
Expediente
 
Edições Anteriores do Diario de Pernambuco




Verissimo

A russificação da Argentina

Ricardo Leitão
Diretor de Redação

Costura-se, às pressas, a lenda de que a falência da Argentina decorre de sua vocação para tragédias embaladas por governos populistas. A crise atual, que levou o país a ter cinco presidentes em 15 dias, encerraria o ciclo democrático de 18 anos, iniciado em 1983, breve exceção em uma trajetória histórica marcada por salvadores da pátria, caudilhos provinciais e ditadores ungidos nos quartéis. A fúria popular nas ruas traduziria os estertores do peronismo, arrastando os argentinos a um impasse para o qual sequer improvável intervenção das Forças Armadas representaria uma saída. Derrotados na Guerra das Malvinas, em 1982, e desarticulados politicamente, os militares deixaram de representar uma instância de solução, mesmo que arbitrária.

  Engorda a lenda a aparente viabilidade da economia dos europeizados vizinhos do Sul. São 37 milhões de habitantes, distribuídos em 2,8 milhões de quilômetros quadrados de terras férteis, com recursos energéticos abundantes, onde se desenvolveu mão-de-obra com melhor capacitação que a brasileira. Índices sociais, especialmente de educação e saúde, são também superiores aos do Brasil. Mas é a mesma Argentina que agora conta 14 milhões de pobres, 2 milhões de miseráveis, 18,3% da população desempregada e a fuga de US$ 18 bilhões de reservas internacionais em 2001, em meio a um estado permanente de convulsão social.

  Caos deste porte não se improvisa, é obra planejada e executada em dez anos. E muito menos reflete inspiração ou impulso isolado de líderes populistas, como trama a lenda. A falência de um país que já teve uma das melhores qualidades de vida do Mundo atesta, antes de tudo, o fracasso de um modelo imposto pelos Estados Unidos e bancado pelo Fundo Monetário Internacional que encontrou na Argentina, mais do que em outra nação em desenvolvimento, apoio das elites políticas e econômicas. O radicalismo da fantasia neoliberal aplastou tarifas públicas, sucateou ou privatizou empresas estratégicas, favoreceu multinacionais em tenebrosas transações e fez da paridade entre o peso e o dólar, transformada em 1991 em artigo da Constitutição federal, dogma de fé e bandeira do orgulho portenho.

  Em 1994, após a crise financeira do México, o modelo já mostrou-se frágil. Tornou-se insustentável a partir de 1997, com as crises sucessivas nas economias da Ásia, da Rússia e do Brasil, que se estenderam até 1999. A iminência do colapso final, no entanto, tão previsível quanto uma canção de Gardel em uma casa de tangos, não fez o FMI rever suas ordens de mais austeridade nas contas públicas, nem os governos argentinos moverem-se para escapar da armadilha monetária representada pela paridade peso/dólar. Foi o povo nas ruas, sem trabalho, sem o dinheiro retido nos bancos, sem crença nas instituições do Estado e com fome, que incendiou nas barricadas a aliança de Wall Street com a Casa Rosada e agora exige, com a rebeldia dos desesperados, alguma esperança no futuro.

  Mas não há boas notícias no horizonte. A Argentina caminha em 2002 para o que o cientista político José Luis Fiori, um argutoobservador da cena latino-americana, descreve como um processo de russificação, referindo-se ao caos no fim do governo de Bóris Yeltsin: rápida decomposição do tecido social e político, corroído pela disputa entre máfias econômicas e grupos de poder, igualmente corruptos e sem capacidade de recentralizar e reorganizar o Estado que foi destruído e leiloado na década de 90 em nome da euforia neoliberal e da ilusão globalizante. A Argentina afunda e agora de pouco valerá chorar sua tragédia.

  Até o próximo domingo.








 

 
 
Sua Opinião


Copyright 2001 - Pernambuco.com

Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização.
diario@dpnet.com.br