Edição de Domingo, 6 de Janeiro de 2002
 

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Opinião

Brasil e Argentina

Nos meios financeiros nacionais espera-se que a problemática situação argentina seja equacionada ainda este ano. Apesar do alto custo que significará para a população platina, como assinalou o ministro brasileiro Pedro Malan em entrevista à Radiobrás. Ele pôs em destaque o fato de que a superação da crise política e econômica vivida pelo principal sócio do Brasil no Mercosul é de interesse direto do País. E mais que isso, salientou que o apoio internacional às medidas adotadas por Buenos Aires acontecerão no momento apropriado.

  Realmente, é certo que o respaldo internacional às medidas tomadas pela Argentina interessa bastante ao Brasil. Para isso, o novo governo terá que constituir uma equipe econômica coesa em torno do que está sendo feito, e apresentar um programa econômico com o mínimo de coerência e consistência.

  Estabilidade, tanto política, como institucional e com uma economia a crescer é praticamente o que interessa ao nosso País. E os especialistas acreditam que isso acabará acontecendo, apesar do alto custo que os argentinos já começaram a pagar.

  Mais. Pedro Malan admitiu a existência de saídas para a situação econômica da Argentina. Esquivou-se de apresentá-las. Comportamento bastante natural, pois essas questões devem ser resolvidas exclusivamente pelos argentinos, assim como as iniciativas adotadas pelo Brasil foram tomadas pelos brasileiros.

  Isso pode querer dizer em linhas simples que ninguém gosta de receber conselhos dos outros. Uma obviedade. O ministro Malan também confirmou que, apesar da crise no país platino, as estimativas oficiais e de mercado para a economia brasileira são as mais otimistas para 2002. Assim, desde que não haja uma catástrofe externa ou doméstica o ano será melhor para o Brasil que 2001.

  Indo para outras vias, sabe-se que muitas empresas brasileiras que têm negócios na Argentina dividem suas preocupações, no momento, entre a certeza de redução da demanda pelos seus produtos e o medo de um calote no caso das vendas já efetivadas. E seus integrantes e dirigentes estão considerando estranho que o Banco Central ainda não tenha adotado uma posição cambial sobre a situação das empresas que exportaram para a Argentina. A preocupação é grande, mas pelo que já se sabe e sente-se, os empresários brasileiros não vão deixar seus negócios no país platino. Sair agora pode tornar-se mais caro do que ficar.

Férias e hotéis

Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco

Para quem tem uma vida agitada como a minha, com viagens freqüentes, nada melhor do que um período de férias - o meu é sempre em janeiro - para fugir da rotina cansativa. Nesse momento, o que menos quero é fazer viagens do tipo das que ocupam minha agenda normal. Assim, aproveito o mês para buscar locais sossegados, como minha propriedade (fazenda do Tao, assim denominada pelas ligações que tenho, desde muito tempo, com o modo taoísta de ser) em Gravatá. Ou como a praia de Pipa. Ou mesmo minha casa em Olinda, onde me espicho na rede para ler e ouvir música (as duas coisas, simultaneamente). Na verdade, gosto de curtir o lugar onde moro, onde encontro os livros que estou querendo saborear, os discos que gosto de ouvir, a boa comida, o bom vinho, o bom uísque e a boa cachaça dos momentos certos - além da companhia da amada. Sem esquecer que, ficando em Olinda, posso me preparar adequadamente para o Carnaval, indo, de vez em quando, atrás de blocos e de prévias ou dos deliciosos acertos de marcha das sextas-feiras do Bloco da Saudade. Olinda, apesar de sua lenta deterioração - de que é exemplo o estado deplorável em que se encontra o lindo Seminário ou a bagunça mal cheirosa do Alto da Sé, que a Prefeitura promete consertar -, não perde nunca o encanto de cidade ímpar, motivo mais do que suficiente para que se lute por sua recuperação.

  Como visito muitos hotéis em toda parte - no ano de 2001, hospedei-me em vinte diferentes deles -, gosto, nas férias, de buscar alguma coisa especial. Sigo aqui as recomendações de Caroline Raphael, editora e co-proprietária da publicação britânica The Good Hotel Guide (guia do bom hotel), que, em artigo na The Economist de 20 de dezembro de 1997, sobre seus hotéis europeus favoritos ("Alguma coisa especial onde ficar"), identifica como referências "Calor humano, boa comida e cenário bonito", ou seja, na sua opinião, "hotel com caráter". Francamente, não são muitos os casos que posso apontar, no âmbito de minha experiência, que satisfaçam os requisitos desejados da lista de CarolineRaphael. Por exemplo, eu jamais ficaria em um resort como o que existe em Suape, com nome inglês difícil de pronunciar (corretamente) e que é tão badalado nas colunas sociais, por causa de sua proximidade do porto. Segundo a editora do The Good Hotel Guide, fundamental no bom hotel - e, nisso, concordo inteiramente com ela - é a localização, seja numa cidade, na praia ou no campo. Junto de barulho - como o que ameaça a Pousada de São Francisco ou o atraente Sete Colinas, ambos de Olinda -, nem pensar. Não é junto de um cenário decrépito que quem tem dinheiro vai comprar serviços de hotelaria. Ou vai?

  Um exemplo de alternativa saudável (e "cosseting", ou seja, carinhosa) oferecido por Caroline Raphael é o de uma estalagem, a Summer Lodge, de 17 quartos, em Evershot, Dorset, sul da Inglaterra, linda vila que serviu de cenário para o filme Emma. Algo assim encontrei, há anos, no hotel Enseada das Lages, em Salvador, uma antiga residência adaptada a novos usos. Havia um pouco disso até os anos 90 no Tavares Correia de Garanhuns. Hoje, há na agradável e rústica Pousada da Mata, em Pipa, que fica perto do bonito santuário ecológico criado pela sensibilidade de um britânico sobre falésias daquela praia ainda não maltratada por idéias de "progresso" como as que circulam por aí. Essas idéias consideram paisagens belas como bens privados, delas se apropriam e constroem seus modelos de hotel fechado, em que os hóspedes desfrutam de piscinas, bares, saunas e toda série de atrativos que dispensam qualquer cenário especial. Em Las Vegas, que é um paradigma para tanta gente, uma solução para cenários pobres foi a criação de instalações insólitas nos hotéis de luxo, as quais replicam situações de outros contextos. O Guggenheim, por exemplo, se plantou dentro do Venetian Resort Hotel Casino. Em outros hotéis, há pirâmides como as do Egito, canais e gôndolas como os de Veneza etc. Convenhamos que se trata de excentricidades sem nenhum sentido, como seria a de realizar a mudança da guarda do Palácio de Buckingham (de Londres) noSummerville de Muro Alto.

  Uma vez, em Kuala Lumpur (Malásia), fui com um grupo de pessoas comer no hotel Hilton na suposição de que a comida poderia ser melhor do que a do hotel onde estávamos. Ledo engano. A comida foi péssima e cara. Descobrimos depois que havia ótimos restaurantes chineses na cidade em bairros populares. Na verdade, tenho sempre comido mal em hotéis de renome, sobretudo no Brasil. Há pouco tempo, em Brasília, fui ao restaurante japonês do hotel Manhattan Park (de cinco estrelas), na esperança de um bom arroz, de um bom tofu. Nada poderia ter sido mais frustrante. Nunca comi um queijo de soja tão ruim, e que me fez mal. Parecia plastificado (muito diferente do que encontro no modesto e despretencioso Céu e Terra, do Recife). Fico pensando o que é que faz tanta gente encher hotéis enormes, de serviço impessoal, sem charme, com um modelo de funcionamento que é igual, como diz Caroline Raphael, em Birmingham, Bancoque ou Barcelona. Vou preferir sempre a opção do "hotel com caráter", do hotel que não seja grande demais e entupido de gente, onde a comida seja honesta e sem enfeites desnecessários (como a sombrinha que acompanhava o sorvete que tomei em Kuala Lumpur), onde eu saiba o que me espera na conta. Neste ponto, considero a Pousada da Mata, de Pipa, onde vou estar nestas férias, um bom exemplo do que, à maneira de Caroline Raphael, defendo.








 

 
 
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