Edição de Domingo, 6 de Janeiro de 2002
 
Início Diario de Pernambuco Mundo Paquistão vive eterna tensão

Cadernos

Política
Brasil
Mundo
Economia
Esportes
Vida Urbana
Viver
 

Suplementos

Revista na TV
Empregos
Viver Mulher
Viagem
Informática
Saúde
Carro
Imóveis
 

Serviços

Assinaturas e Renovações
 
Expediente
 
Edições Anteriores do Diario de Pernambuco




Mundo

Paquistão vive eterna tensão

Entrevista Benazir Bhutto

A história da dinastia Bhutto é escrita com sangue no Paquistão. Violência, aliás, é o fio condutor da carreira política de Benazir Bhutto, primeira-ministra afastada do poder em 1996, acusada de corrupção. Seu pai, o presidente Zulfikar Ali Bhutto, foi deposto pelos militares e enforcado em 1979. Preso por corrupção, Azif Zardari, marido de Benazir, responde pela morte de um cunhado. A ex-premiê exilou-se em Londres e, recentemente, em Dubai.

  Ela diz desejar disputar as eleições em seu país e acusa o regime militar de persegui-la. O governo militar entrou em contato com ela para iniciar negociações.

  Desde a divisão do Subcontinente Indiano, há mais de 50 anos, quando a Grã-Bretanha desmantelou o seu império indiano, Índia e Paquistão se tornaram arquiinimigos na disputa pela Cachemira.

  Essa rivalidade tem suas origens na história e na religião, e em 1998 escalonou para uma perigosa corrida nuclear, como forma de pressão. Apesar das tentativas diplomáticas, as relações entre os dois países continuamtensas.

  País muçulmano, no centro-Sul da Ásia conta com aproximadamente 152,3 milhões de habitantes, (dados de 1999). Tem desertos nas fronteiras com Índia, Irã e Afeganistão. Daí, para complicar ainda mais a situação, o Paquistão teve sua fronteira invadida por milhares de afegãos que reprimido pelo regime Talibã, o desnutridos e doentes, pagavam qualquer preço para chegar ao Paquistão.

  O governo paquistanês, na sexta-feira, deteve mais de 130 militantes islâmicos, inclusive líderes de dois grupos aos quais a Índia atribui o ataque suicida perpetrado no mês anterior contra seu Parlamento.

pergunta- A senhora teme uma nova guerra entre eles?

Benazir Bhutto - O ataque terrorista ao Parlamento indiano (no dia 13 de dezembro) aumentou perigosamente a temperatura em áreas próximas ao conflito. Desde 1996, as tensões entre Índia e Paquistão se mantêm em escalada. O conflito de Kargil, em 1998, por pouco não se transformou em guerra. O Partido do Povo do Paquistão (PPP), que eu lidero, durante o seu governo assegurou que não haveria ataques fora da disputada área de Jammu e Cachemira. Naquela época garantimos que, embora houvesse uma disputa, não haveria guerra ou conflito, ou qualquer outra atividade que pudesse levar a uma perigosa escalada. Agora temos outro objetivo, apesar das diferenças políticas registradas na Cachemira: construir relações por um Sul da Ásia livre da ameaça nuclear. Quero trabalhar para que o meu país pare de ser humilhado por políticas erradas em Kargil e Cabul.

P- Qual é a sua visão de futuro para o Paquistão?

BB - É a visão de um Paquistão democrático, em paz consigo mesmo e com seus vizinhos, dando ao seu povo respeito adquirido por meio do progresso. Por paz e desenvolvimento, é necessário que a democracia seja restaurada no Paquistão. O general Pervez Musharraf precisa ser convencido da importância da democracia para o bem-estar dos paquistaneses e da comunidade internacional. Acredito que atualmente Musharraf tenta ocupar todo o espaço político, e por esta razão acreditamos que já existam planos para adulterar os resultados das próximas eleições, em outubro de 2002. Para impedir isso, meu partido lançou um projeto de reforma política que assegura justiça para o pleito. Nós estamos negociando, até agora sem sucesso, com o regime militar a implementação desse projeto.

P- Como ex-primeira ministra do Paquistão e primeira mulher eleita para governar um Estado Islâmico, como a senhora avalia o apoio do Paquistão aos Estados Unidos na guerra contra o terror? Acredita que o povo paquistanês, em grande maioria muçulmano, se sentiu traído pelo presidente Musharraf?

BB - O Paquistão fez a escolha certa. O terrorismo é uma ameaça para todo o sistema global neste século XXI. Eu e meu partido gostaríamos de ver o Paquistão unido à comunidade internacional também em outras frentes. Por isso apoiamos o governo quando este anunciou sua decisão de lutar contra o terror.

É verdade, alguns paquistaneses se sentiram traídos. Mas isso se explica devido ao relacionamento estreito que o governo militar do Paquistão e grupos dos mujahedins desenvolveram durante a ocupação soviética de Cabul.

P- A senhora acredita que Bin Laden está por trás dos eventos do 11 de setembro? Acha possível que ele esteja escondido no Paquistão?

BB - Não me sinto qualificada para julgar se Bin Laden cometeu ou não semelhantes atrocidades. Quando vi os aviões atingirem as torres do World Trade Center, o fogo isolando e matando pessoas inocentes, meus instintos disseram-me que aquilo estava relacionado ao meu mundo. O regime do general Musharraf viu as supostas provas - oferecidas pela Grã-Bretanha - do envolvimento de Bin Laden e parece ter se convencido de sua participação nos atentados. Os EUA afirmam ter obtido relatos de que ele ainda estaria no Afeganistão, portanto, devem saber melhor do que nós.

P- Como a senhora descreve o perfil do presidente Musharraf, especialmente durante a crise?

BB - Nas palavras do próprio general, em discurso à Nação, ele concordou em se unir à coalizão internacional por esta representar um "mal menor" diante do que seria um "mal maior" se o Paquistão estivesse ameaçado de perder o acesso às suas instalações nucleares. Não está claro para mim se Musharraf aderiu à "guerra contra o terror" por convicção ou medo. Muitos paquistaneses, e me incluo entre eles, acreditam ser este o momento decisivo para o Paquistão apresentar o seu direcionamento futuro, reformar suas Forças Armadas de modo a livrá-las do contágio da "mentalidade jihad afegã", nascida da ocupação soviética do país. Até agora Musharraf tem falhado nesta missão. Eu gostaria que os próximos passos do general Musharraf fossem dados no sentido de adotar o pacote de medidas democráticas que o meu partido ofereceu ao seu Governo. Se ele é um líder fraco ou um corajoso paquistanês, essa avaliação dependerá de sua habilidade política para mobilizar as forças democráticas.

P - Seu governo foi derrubado por militares após denúncias de corrupção. Em junho deste ano, a Suprema

Corte do Paquistão aceitou o pedido de apelação e suspendeu a sentença de condenação contra a senhora, até que um novo julgamento seja marcado. A senhora se sente politicamente perseguida? Leva uma vida normal hoje?

BB - Sim, eu e meu partido temos sido perseguidos, por mais de uma década, por forças pró-talibãs do aparato da Segurança e da Inteligência do governo do Paquistão. É difícil descrever a minha vida hoje, mas estou feliz porque eu, meus filhos e minha mãe ( Begum Nusrat Bhutto, que também responde a processo por corrupção), que está enferma, vivemos livres no exílio. Mas meu marido está preso há seis anos, e não é difícil imaginar o quanto é penosoeducar filhos sozinha. Sinto falta do meu país, dos meus amigos. Desejo ser livre em minha própria terra. Não sei o que o regime fará, desta vez, para impedir meu retorno. Felizmente, o povo paquistanês me apóia. Espero disputar as próximas eleições, apesar das ameaças que tentam deter-me neste propósito. Acredito que posso ajudar o meu povo e o meu país, neste momento difícil, oferecendo-lhes a perspectiva de um Paquistão democrático e tranqüilo, pavimentando o caminho para o desenvolvimento e o progresso.








 

 
 
Sua Opinião


Copyright 2001 - Pernambuco.com

Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização.
diario@dpnet.com.br