Agenda social
O ministério da Assistência e Previdência
Social, por intermédio da secretaria Nacional de Assistência
Social, premiou o Estado de Pernambuco com recursos adicionais para
programas de educação, saúde, treinamento e emprego.
A premiação é decorrente do elevado desempenho
do Governo pernambucano, coordenado pela Secretaria de Planejamento
e Desenvolvimento Social, na execução das ações
voltadas para combater a pobreza e a exclusão social.
A Agenda Social, assim chamado o mencionado programa, foi
idealizada em 1999 e, de lá para cá, foram sendo executados
projetos relacionados com a criação de uma rede de proteção
social. Entre eles destacam-se iniciativas destinadas à criança,
ao adolescente e à família, como o de Erradicação
do Trabalho Infantil na Zona Canavieira; o de Primeiro Emprego para
colocar 1.500 jovens de 16 a 24 anos no mercado de trabalho; o Rumo
à Universidade para capacitar 10 mil alunos da rede pública
visando ingressar no ensino superior; e o Sentinela, que objetiva combater
a exploração sexual de crianças e adolescentes
de 7 a 14 anos.
De outra parte, foram também planejadas ações
para enfrentar a pobreza e a exclusão social, ressaltando-se
o de Fortalecimento da Agricultura Familiar; o de Crédito Fundiário
destinado a possibilitar a aquisição de terra por parte
de pequenos agricultores; o do Banco do Povo, buscando atender 21 mil
pequenos e micro empreendedores do setor informal nas áreas urbanas;
o de Qualificação Profissional, orientado para requalificar
100 mil trabalhadores em 150 municípios.
O referido programa envolve a participação
de recursos das três esferas de Governo, cabendo descentralizadamente
sua implantação ao Estado e aos municípios. É
natural que, ao lado do compartilhamento de verbas orçamentárias,
os projetos sejam executados por órgãos municipais e estaduais
que se situam na ponta da comunidade. E a face mais eloqüente dessa
responsabilidade executiva foram os depoimentos de crianças e
jovens das comunidades do Interior sobre suas experiências no
envolvimento com os projetos durante a solenidade. Um quadro de rara
beleza humana a quem o assistiu.
Dois aspectos importantes ficaram claramente distinguidos
na oportunidade: primeiro, a competência da Secretaria de Planejamento
estadual na condução do programa, publicamente reconhecida
no ato e recompensada com acréscimo de recursos federais. É
justo assinalar o feito, porque sabe-se o quanto é difícil
aplicar correta e agilmente dinheiro em projetos sociais.
Em segundo lugar, a apropriada afirmativa da secretária
de Assistência Social, Wanda Engel. Disse ela que ao observar
a destruição das duas torres no dia 11 de setembro é
oportuno considerar que não é possível mais manter
ilhas de extrema riqueza cercadas de uma maré de extrema pobreza.
E, analisando a transformação econômica nos países
pobres, acentuou que o processo de desenvolvimento sustentável
neles instaurado só terá êxito se for acompanhado
da criação de condições objetivas de proteção
social. Sem o suporte socialmente estruturador apoiando a educação,
a família, a saúde, o emprego, não há como
falar em viabilidade do desenvolvimento.
Patrimônio, Évora, Olinda
Clóvis Cavalcanti Economista e pesquisador social da Fundação
Joaquim Nabuco
Com as mudanças que estão ocorrendo no mundo
após os atentados de 11 de setembro, possibilidades novas devem
se abrir para o turismo em áreas supostamente afastadas de conflitos.
É o caso do Brasil e, especialmente, do Nordeste. A hora parece
oportuna, portanto, para se pensar inteligentemente em como trazer para
cá visitantes com dinheiro no bolso, que contribuam para fortalecer
nossos atrativos - e não para destruí-los. Graças
a minhas viagens freqüentes, tenho tido o privilégio de
observar em muitos lugares de sucesso entre turistas alguns fatores
que parecem servir de chamariz a visitantes. No mês de outubro
passado, visitei Évora, importante e linda cidade histórica
de Portugal, a uma distância de Lisboa como a de Caruaru ao Recife
(que se percorre em excelente rodovia, ao contrário da nossa
enferma BR-232, que o governo estadual se esforça para retirar
da UTI). Fui a um encontro de economistas de língua portuguesa
e aproveitei para andar diversas vezes pelo gostoso sítio histórico
de lá, cujas dimensões territoriais são semelhantes
ao de Olinda, com uma população (de 9 mil pessoas) equivalente.
Pois bem, a sensação é de tristeza quanto ao abandono
em que se encontram nossas cidades em relação a um lugar
como Évora. Esta, inclusive, tão antiga que tem até
belas ruínas romanas - coisa rara em Portugal -, só em
1986 é que foi considerada pela Unesco cidade-patrimônio
da humanidade. Olinda, a despeito dos descuidos de que sempre foi vítima,
obteve esse galardão já em 1982 (graças a Aloísio
Magalhães e Marcos Vilaça).
Vale salientar como é vibrante no caso da cidade
portuguesa, a consciência da comunidade e poderes públicos
quanto ao significado do legado de história, patrimônio
e cultura do local. Basta dizer que, mesmo fora do sítio tombado,
que é envolvido por enorme muralha, em bom estado, construída
na Idade Média, de 5km de perímetro, não se permite
a construção de edifícios. Há hotéis
em grande número na nova Évora (onde moram umas 45 mil
pessoas), sem que nenhum possua mais de três andares. Isso é
resultado de posturas municipais rigorosas, como nos relatou o presidente
da Câmara Municipal da Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de
Évora, como a chamam. Não se usa ali a explicação
cavilosa de que prédios altos devam ser construídos para
gerar mais empregos (temporários). Interessa, antes de tudo,
o zelo com respeito ao patrimônio, única riqueza que pode
levar para Évora, todos os anos, o número apreciável
de um milhão de turistas que a visita, com gastos totais, no
município, que, numa avaliação por baixo, não
devem ficar aquém dos 50 milhões de dólares anuais.
Interessante é que Évora se situa em uma da regiões
mais pobres da Europa. Entretanto, lá não se vêem
mendigos, trombadinhas, meninos de rua. Pode-se andar tranqüilamente,
qualquer hora da noite, pelos inúmeros becos de traçado
irregular da cidade, sem nenhum temor, como fizemos minha mulher, Vera,
e eu - e também amigos que lá se encontravam como Isabel
e Ivo Pedrosa. Os evorenses sabem como é precioso para o turista
encontrar um ambiente de hábitos civilizados confiáveis.
Neste particular, Évora agrada pelo silêncio.
Os bares não fazem barulho, limitando-se a promover alegria sem
incômodo à população (bem diferente de Pernambuco!).
Em outubro, havia em Évora importante festival de música
erudita. Nas imediações do conservatório - que
o abrigava e que ocupa simpático prédio de antiga construção
-, só ali e em horas adequadas, aliás, podia-se escutar
o som agradável de instrumentos suaves, bem diferente das matracas
eletrônicas que emitem todo tipo de ruído demolidor e a
qualquer hora da madrugada na Olinda que ainda tem muito de incivilizada.
Para sua tristeza, o pessoal do Hotel 7 Colinas de nossa Marim tem ouvido
reclamações de turistas, alguns até já tendo
fugido de lá, por conta da insuportável má qualidade
do som que alguns chamados produtores culturais impõem,
mesmo de madrugada, a quem vai atrás dos encantos olindenses.
Tais encantos são indiscutíveis, apesar de ainda ser preciso
um esforço vigoroso para, por exemplo, diminuir-se o trânsito
e o estacionamento de carros no sítio histórico, ou para
se conferir ao Alto da Sé a condição de lugar completamente
limpo de barracas e lojinhas, como as que ocupam irregularmente a calçada
que dá para o Horto del Rey. Uma coisa assim, em Évora,
simplesmente, é inconcebível. Como são inconcebíveis
os mal-denominados outdoors ou qualquer outra intervenção
que retire o brilho dos monumentos, do casario, do desenho das ruas.
Faz gosto ver calçadas e meios-fios de muito bom
gosto em Évora, sem nada fora do lugar, com carros que respeitam
todas as proibições do trânsito e a fiação
elétrica embutida. Dessa maneira, as igrejas, os conventos, os
arcos, as fachadas das residências, tudo pode ser visto, apreciado
e fotografado sem estorvos visuais. Muito diferente de Olinda e muito
diferente do Recife também, onde, felizmente, a prefeitura começa
a disciplinar - e deve fazê-lo sem contemplação
- a poluição que os insuportáveis outdoors, perigosos
também para o trânsito, causam. O efeito em Évora
do modelo de cidade que lá vigora é uma economia pujante,
alimentada pelo turismo de fluxo contínuo, em qualquer época
do ano. Imaginem se houvesse ali também belas praias como as
que a revista Veja de duas semanas atrás mostrou (três
delas de Fernando de Noronha, entre as vinte mais bonitas do Brasil,
nenhuma tendo que ver com as hoje deformadas Porto de Galinhas e Muro
Alto). A cidade de Cuenca, no Equador, contém lições
de proteção ao patrimônio parecidas com as de Évora.
E não está na Europa. Não há, por conseguinte,
qualquer justificativa para a maneira descuidada, imprópria e
lamentável com que a riqueza de patrimônio tem sido tratada
em Pernambuco.
Bom-dia, Recife
Ronildo Maia Leite
A mulher que não sabe dançar não pode
escrever. O homem que nunca jogou uma pelada não sabe escrever.
Homem e mulher que não jogam, nem dançam, nem torcem,
nem balançam ou requebram, nem oscilam ou se agitam, nem blefam
entre si - nem um, nem outro, nenhum dos dois pode escrever.
Nem que seja um pagode, umas tacadas de bilhar ou sinuca,
há que se dançar e jogar para escrever.
Os poetas sempre levam às mãos dois fours
de ases e duas trincas de dama ao pôquer de um soneto. Há
certas expressões de Isadora Duncan no corpo de balé de
alguns textos.
Amigos tenho e escritores conheço que à máquina
se põem como às peladas chegam. As palavras amaciam no
peito, suavizam a frase no terreno para o gol de placa de uma crônica.
Tão famoso tornou-se o gol de placa, passou a chamar-se gol de
letra.
A precisão da manchete é o gol olímpico
de um jornal, quando a verdade escapole no escanteio. Os subtítulos
um fazer-pontos, esse bolear tão justo e posto que a galera apelidou
de embaixada. A embaixada é domínio absoluto da pelota,
camaradas. Ela vai rolando do pé à cabeça, do joelho
ao peito e à coxa, sucessivas jogadas, um subir e descer sem
quedas ao chão nem arrodeios. Por isso, bola redonda há
de ser a reportagem. A notícia é o resultado de um voleio,
não se permite aos agarrados de mão, esses xumbregos que
a informação puteiam.
Bom repórter quer dizer jogar com esquerda e direita,
sempre se pondo ao meio, discreto como os craques, cuja única
paixão é o gol inda que a galera o inflame e incendeie.
Ao leitor se leve a notícia num sem-pulo, esse chute desferido
com força no exato momento em que jogador e bola estão
convictos no ar. Feito assim, a verdade de um gol não tem bandeiras.
Jogue-se bem o off.
O sigilo da fonte é o passe de calcanhar de uma notícia?
Tenho que sim.
Há de buscar-se os mestres da certeza, assim como
os Pelés a encontraram no inventor do charleston, espécie
de foxtrote no gramado, bola segura ao pé, inda que deslizando
estejam os braços, as pernas e os joelhos.
Sobretudo há que se bem dançar para escrever. Se a clássica
escapar da vocação, seqüência e ritmo há
de encontrar-se em outras danças.
Na do ventre ou da fecundidade.
Há cheiros de céu e cio em tais dançares,
há textos de enxuto amor na sagrada escritura de barriguinhas
nuas, camaradas.
Outras danças existem, pois que sempre houveram,
e há, e hão de haver, cronista e poeta, repórter
e romancista que ao computador chegam feito o músico à
pauta, o jogador à bola ou à mesa, o dançarino
ao palco e ao salão até dos cabarés.
Sempre quis em mim a existência de tangos e boleros,
balalaicas e frevos, sambas de crioulo doido, xenhenhéns, lambadas
ou refinar-me em orquestras.
Procuro escrever falando alto, buscando o que há de Ray Conniff
nas vírgulas, de Xavier Cugat nos acentos, de Mendoza nas frases,
de Fernández Quintero no passodoble dos parágrafos. Ou
de Capiba, e Nélson, e Ascenço e Bandeira nas mungangas
dos fatos, no incrível das notícias, que se espalham nas
ruas e ladeiras pra chegarem aqui dentro, no jornal, assuntando as sombrinhas
de uma crônica que, no fundo, é um frevo, uma marcha, o
cantochão dos maracatus.
Há frases compridas na garganta de Pavarotti, períodos
inteiros no canto de Piaf, reportagem em Toquinho e Vinícius,
crônica social em Caetano e Gil, editoriais em Richard Clayderman.
Permita-se o repórter ao violino de Cussy de Almeida,
ele acalma a raiva das matérias, as cordas separando o homem
e o fato.
Cá pra nós, o nosso Zé da Flauta é
uma manchete. Escreve num sopro, informa o comprimento das colunas de
ar, vibrando os lábios de uma página.
Zabumbas existem que escrevem, clarinetes que falam, flautins
que conversam, trombones que discursam, triângulos que jogam,
pífanos que blefam como se a jogar estivessem o pif-paf.
Aos camaradas falei sem lhes falar na dança-de-camaradas,
um batuque feito de palmas e sapateados, feito umas certas crônicas
onde as palavras sapateiam na frase e o ponto final e as reticências
batem palmas à idéia.
Sobretudo há que se dançar e jogar. Isso eu
já disse e repito, camaradas. Daí esse meu jeito dançado
de escrever.
n Crônica extraída do livro Escritores Vivos de Pernambuco,
da Biblioteca Pública do Estado.