Edição de Sábado, 24 de Novembro de 2001
 

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Opinião

Agenda social

O ministério da Assistência e Previdência Social, por intermédio da secretaria Nacional de Assistência Social, premiou o Estado de Pernambuco com recursos adicionais para programas de educação, saúde, treinamento e emprego. A premiação é decorrente do elevado desempenho do Governo pernambucano, coordenado pela Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social, na execução das ações voltadas para combater a pobreza e a exclusão social.
  A Agenda Social, assim chamado o mencionado programa, foi idealizada em 1999 e, de lá para cá, foram sendo executados projetos relacionados com a criação de uma rede de proteção social. Entre eles destacam-se iniciativas destinadas à criança, ao adolescente e à família, como o de Erradicação do Trabalho Infantil na Zona Canavieira; o de Primeiro Emprego para colocar 1.500 jovens de 16 a 24 anos no mercado de trabalho; o Rumo à Universidade para capacitar 10 mil alunos da rede pública visando ingressar no ensino superior; e o Sentinela, que objetiva combater a exploração sexual de crianças e adolescentes de 7 a 14 anos.
  De outra parte, foram também planejadas ações para enfrentar a pobreza e a exclusão social, ressaltando-se o de Fortalecimento da Agricultura Familiar; o de Crédito Fundiário destinado a possibilitar a aquisição de terra por parte de pequenos agricultores; o do Banco do Povo, buscando atender 21 mil pequenos e micro empreendedores do setor informal nas áreas urbanas; o de Qualificação Profissional, orientado para requalificar 100 mil trabalhadores em 150 municípios.
  O referido programa envolve a participação de recursos das três esferas de Governo, cabendo descentralizadamente sua implantação ao Estado e aos municípios. É natural que, ao lado do compartilhamento de verbas orçamentárias, os projetos sejam executados por órgãos municipais e estaduais que se situam na ponta da comunidade. E a face mais eloqüente dessa responsabilidade executiva foram os depoimentos de crianças e jovens das comunidades do Interior sobre suas experiências no envolvimento com os projetos durante a solenidade. Um quadro de rara beleza humana a quem o assistiu.
  Dois aspectos importantes ficaram claramente distinguidos na oportunidade: primeiro, a competência da Secretaria de Planejamento estadual na condução do programa, publicamente reconhecida no ato e recompensada com acréscimo de recursos federais. É justo assinalar o feito, porque sabe-se o quanto é difícil aplicar correta e agilmente dinheiro em projetos sociais.
  Em segundo lugar, a apropriada afirmativa da secretária de Assistência Social, Wanda Engel. Disse ela que “ao observar a destruição das duas torres no dia 11 de setembro é oportuno considerar que não é possível mais manter ilhas de extrema riqueza cercadas de uma maré de extrema pobreza”. E, analisando a transformação econômica nos países pobres, acentuou que o processo de desenvolvimento sustentável neles instaurado só terá êxito se for acompanhado da criação de condições objetivas de proteção social. Sem o suporte socialmente estruturador apoiando a educação, a família, a saúde, o emprego, não há como falar em viabilidade do desenvolvimento.

Patrimônio, Évora, Olinda

Clóvis Cavalcanti Economista e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco

Com as mudanças que estão ocorrendo no mundo após os atentados de 11 de setembro, possibilidades novas devem se abrir para o turismo em áreas supostamente afastadas de conflitos. É o caso do Brasil e, especialmente, do Nordeste. A hora parece oportuna, portanto, para se pensar inteligentemente em como trazer para cá visitantes com dinheiro no bolso, que contribuam para fortalecer nossos atrativos - e não para destruí-los. Graças a minhas viagens freqüentes, tenho tido o privilégio de observar em muitos lugares de sucesso entre turistas alguns fatores que parecem servir de chamariz a visitantes. No mês de outubro passado, visitei Évora, importante e linda cidade histórica de Portugal, a uma distância de Lisboa como a de Caruaru ao Recife (que se percorre em excelente rodovia, ao contrário da nossa enferma BR-232, que o governo estadual se esforça para retirar da UTI). Fui a um encontro de economistas de língua portuguesa e aproveitei para andar diversas vezes pelo gostoso sítio histórico de lá, cujas dimensões territoriais são semelhantes ao de Olinda, com uma população (de 9 mil pessoas) equivalente. Pois bem, a sensação é de tristeza quanto ao abandono em que se encontram nossas cidades em relação a um lugar como Évora. Esta, inclusive, tão antiga que tem até belas ruínas romanas - coisa rara em Portugal -, só em 1986 é que foi considerada pela Unesco cidade-patrimônio da humanidade. Olinda, a despeito dos descuidos de que sempre foi vítima, obteve esse galardão já em 1982 (graças a Aloísio Magalhães e Marcos Vilaça).
  Vale salientar como é vibrante no caso da cidade portuguesa, a consciência da comunidade e poderes públicos quanto ao significado do legado de história, patrimônio e cultura do local. Basta dizer que, mesmo fora do sítio tombado, que é envolvido por enorme muralha, em bom estado, construída na Idade Média, de 5km de perímetro, não se permite a construção de edifícios. Há hotéis em grande número na nova Évora (onde moram umas 45 mil pessoas), sem que nenhum possua mais de três andares. Isso é resultado de posturas municipais rigorosas, como nos relatou o presidente da Câmara Municipal da “Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Évora”, como a chamam. Não se usa ali a explicação cavilosa de que prédios altos devam ser construídos para gerar mais empregos (temporários). Interessa, antes de tudo, o zelo com respeito ao patrimônio, única riqueza que pode levar para Évora, todos os anos, o número apreciável de um milhão de turistas que a visita, com gastos totais, no município, que, numa avaliação por baixo, não devem ficar aquém dos 50 milhões de dólares anuais. Interessante é que Évora se situa em uma da regiões mais pobres da Europa. Entretanto, lá não se vêem mendigos, trombadinhas, meninos de rua. Pode-se andar tranqüilamente, qualquer hora da noite, pelos inúmeros becos de traçado irregular da cidade, sem nenhum temor, como fizemos minha mulher, Vera, e eu - e também amigos que lá se encontravam como Isabel e Ivo Pedrosa. Os evorenses sabem como é precioso para o turista encontrar um ambiente de hábitos civilizados confiáveis.
  Neste particular, Évora agrada pelo silêncio. Os bares não fazem barulho, limitando-se a promover alegria sem incômodo à população (bem diferente de Pernambuco!). Em outubro, havia em Évora importante festival de música erudita. Nas imediações do conservatório - que o abrigava e que ocupa simpático prédio de antiga construção -, só ali e em horas adequadas, aliás, podia-se escutar o som agradável de instrumentos suaves, bem diferente das matracas eletrônicas que emitem todo tipo de ruído demolidor e a qualquer hora da madrugada na Olinda que ainda tem muito de incivilizada. Para sua tristeza, o pessoal do Hotel 7 Colinas de nossa Marim tem ouvido reclamações de turistas, alguns até já tendo fugido de lá, por conta da insuportável má qualidade do som que alguns chamados “produtores culturais” impõem, mesmo de madrugada, a quem vai atrás dos encantos olindenses. Tais encantos são indiscutíveis, apesar de ainda ser preciso um esforço vigoroso para, por exemplo, diminuir-se o trânsito e o estacionamento de carros no sítio histórico, ou para se conferir ao Alto da Sé a condição de lugar completamente limpo de barracas e lojinhas, como as que ocupam irregularmente a calçada que dá para o Horto del Rey. Uma coisa assim, em Évora, simplesmente, é inconcebível. Como são inconcebíveis os mal-denominados outdoors ou qualquer outra intervenção que retire o brilho dos monumentos, do casario, do desenho das ruas.
  Faz gosto ver calçadas e meios-fios de muito bom gosto em Évora, sem nada fora do lugar, com carros que respeitam todas as proibições do trânsito e a fiação elétrica embutida. Dessa maneira, as igrejas, os conventos, os arcos, as fachadas das residências, tudo pode ser visto, apreciado e fotografado sem estorvos visuais. Muito diferente de Olinda e muito diferente do Recife também, onde, felizmente, a prefeitura começa a disciplinar - e deve fazê-lo sem contemplação - a poluição que os insuportáveis outdoors, perigosos também para o trânsito, causam. O efeito em Évora do modelo de cidade que lá vigora é uma economia pujante, alimentada pelo turismo de fluxo contínuo, em qualquer época do ano. Imaginem se houvesse ali também belas praias como as que a revista Veja de duas semanas atrás mostrou (três delas de Fernando de Noronha, entre as vinte mais bonitas do Brasil, nenhuma tendo que ver com as hoje deformadas Porto de Galinhas e Muro Alto). A cidade de Cuenca, no Equador, contém lições de proteção ao patrimônio parecidas com as de Évora. E não está na Europa. Não há, por conseguinte, qualquer justificativa para a maneira descuidada, imprópria e lamentável com que a riqueza de patrimônio tem sido tratada em Pernambuco.

Bom-dia, Recife

Ronildo Maia Leite

A mulher que não sabe dançar não pode escrever. O homem que nunca jogou uma pelada não sabe escrever. Homem e mulher que não jogam, nem dançam, nem torcem, nem balançam ou requebram, nem oscilam ou se agitam, nem blefam entre si - nem um, nem outro, nenhum dos dois pode escrever.
  Nem que seja um pagode, umas tacadas de bilhar ou sinuca, há que se dançar e jogar para escrever.
  Os poetas sempre levam às mãos dois fours de ases e duas trincas de dama ao pôquer de um soneto. Há certas expressões de Isadora Duncan no corpo de balé de alguns textos.
  Amigos tenho e escritores conheço que à máquina se põem como às peladas chegam. As palavras amaciam no peito, suavizam a frase no terreno para o gol de placa de uma crônica. Tão famoso tornou-se o gol de placa, passou a chamar-se gol de letra.
  A precisão da manchete é o gol olímpico de um jornal, quando a verdade escapole no escanteio. Os subtítulos um fazer-pontos, esse bolear tão justo e posto que a galera apelidou de embaixada. A embaixada é domínio absoluto da pelota, camaradas. Ela vai rolando do pé à cabeça, do joelho ao peito e à coxa, sucessivas jogadas, um subir e descer sem quedas ao chão nem arrodeios. Por isso, bola redonda há de ser a reportagem. A notícia é o resultado de um voleio, não se permite aos agarrados de mão, esses xumbregos que a informação puteiam.
  Bom repórter quer dizer jogar com esquerda e direita, sempre se pondo ao meio, discreto como os craques, cuja única paixão é o gol inda que a galera o inflame e incendeie. Ao leitor se leve a notícia num sem-pulo, esse chute desferido com força no exato momento em que jogador e bola estão convictos no ar. Feito assim, a verdade de um gol não tem bandeiras.
  Jogue-se bem o off.
  O sigilo da fonte é o passe de calcanhar de uma notícia?
  Tenho que sim.
  Há de buscar-se os mestres da certeza, assim como os Pelés a encontraram no inventor do charleston, espécie de foxtrote no gramado, bola segura ao pé, inda que deslizando estejam os braços, as pernas e os joelhos.
Sobretudo há que se bem dançar para escrever. Se a clássica escapar da vocação, seqüência e ritmo há de encontrar-se em outras danças.
  Na do ventre ou da fecundidade.
  Há cheiros de céu e cio em tais dançares, há textos de enxuto amor na sagrada escritura de barriguinhas nuas, camaradas.
  Outras danças existem, pois que sempre houveram, e há, e hão de haver, cronista e poeta, repórter e romancista que ao computador chegam feito o músico à pauta, o jogador à bola ou à mesa, o dançarino ao palco e ao salão até dos cabarés.
  Sempre quis em mim a existência de tangos e boleros, balalaicas e frevos, sambas de crioulo doido, xenhenhéns, lambadas ou refinar-me em orquestras.
Procuro escrever falando alto, buscando o que há de Ray Conniff nas vírgulas, de Xavier Cugat nos acentos, de Mendoza nas frases, de Fernández Quintero no passodoble dos parágrafos. Ou de Capiba, e Nélson, e Ascenço e Bandeira nas mungangas dos fatos, no incrível das notícias, que se espalham nas ruas e ladeiras pra chegarem aqui dentro, no jornal, assuntando as sombrinhas de uma crônica que, no fundo, é um frevo, uma marcha, o cantochão dos maracatus.
Há frases compridas na garganta de Pavarotti, períodos inteiros no canto de Piaf, reportagem em Toquinho e Vinícius, crônica social em Caetano e Gil, editoriais em Richard Clayderman.
  Permita-se o repórter ao violino de Cussy de Almeida, ele acalma a raiva das matérias, as cordas separando o homem e o fato.
  Cá pra nós, o nosso Zé da Flauta é uma manchete. Escreve num sopro, informa o comprimento das colunas de ar, vibrando os lábios de uma página.
  Zabumbas existem que escrevem, clarinetes que falam, flautins que conversam, trombones que discursam, triângulos que jogam, pífanos que blefam como se a jogar estivessem o pif-paf.
  Aos camaradas falei sem lhes falar na dança-de-camaradas, um batuque feito de palmas e sapateados, feito umas certas crônicas onde as palavras sapateiam na frase e o ponto final e as reticências batem palmas à idéia.
  Sobretudo há que se dançar e jogar. Isso eu já disse e repito, camaradas. Daí esse meu jeito dançado de escrever.
n Crônica extraída do livro “Escritores Vivos de Pernambuco”, da Biblioteca Pública do Estado.








 

 
 
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